Antes mesmo de começarmos a estudar e economia do setor público, cabe perguntar: para quê precisamos de governo? Ou, ainda, qual o papel, se é que existe algum, para a ação do estado?
As respostas a estas perguntas não são consensuais e em diferentes mo-mentos do tempo visões diferentes dominaram o debate. Vejamos a seguir algumas delas.
0.4.0.1 Estado Mínimo
Para que a sociedade se organize com um mínimo de eficiência e orga-nização econômica são necessários recursos, que, por sua vez, requerem fi-nanciamento, para o cumprimento dos contratos, garantia dos direitos de propriedade, garantia do cumprimento das leis criminais, etc.
Os custos têm que ser arcados por todos, já que os benefícios desse "en-forcement" se distribui entre os membros da sociedade. De fato, sem qual-quer regulação, a atividade econômica seria caótica e as relações de troca seriam muito custosas. Em muitos casos, é mais barato (conseqüentemente mais eficiente) centralizar a arrecadação e distribuição desses recursos. Os objetivos da economia do setor público nesse caso seriam simplesmente a deteminação de como esse financiamento pode ocorrer a um custo mínimo.
Um estado mínimo no sentido proposto é defendido em tempos recentes por Nozick [1974], por exemplo, mas o argumento central para pelo menos este mínimo de intervenção está presente na visão de contrato social de Hobbes.
0.4.0.2 Além do Estado Mínimo
Além das atividades básicas, a intervenção estatal pode ser justificada em três tipos de situações distintas:
1. Quando a intervenção é aprovada por unanimidade, associada à idéia de melhorias de Pareto causada pela existência de falhas de mercado como paradigma competitivo inválido, externalidades, bens públicos, assimetria de informação, incompleteza de mercados, etc.;
2. Quando não há falhas de mercado, a intervenção se justifica devido a critérios distintos de bem-estar como eqüidade, existência de bens meritórios, etc.
3. Quando os agentes não são completamente racionais.
Falhas de Mercado Há várias situações em que os pressupostos do primeiro teorema do bem-estar não são válidos. Portanto, não é genericamente ver-dade que o equilíbrio de mercado seja eficiente no sentido de Pareto. É cos-tumeiro referir-se a esses ambientes como sendo aqueles em que existem falhas de mercado. Exemplo típico é a produção de poluição, geradora de externalidades negativas. Isso não é socialmente desejável e justifica a inter-venção estatal regulando essa produção de alguma forma.
Todavia, é importante ter em mente que a simples existência de falhas de mercado não garante um papel para o governo, já que ele pode estar sujeito às mesmas restrições que os agentes privados. Muitas vezes, porém, o gov-erno, com seu poder de coerção (cujo exemplo máximo é o poder de tributar), é capaz de implementar alocações que não seriam possíveis simplesmente se deixadas às forças de mercado.
Pouca controvérsia há, neste caso, quanto ao mérito de tal intervenção3. A grande maioria dos pensadores defende a intervenção do governo em situ-ações nas quais ‘alguém ganhe sem que ninguém mais perca’. Cabe notar, no entanto, que o escopo de ação governamental é bastante limitado. Além disso, a mencionada ‘unanimidade’ é somente garantida para o caso em que não haja várias intervenções alternativas, pelas quais diferentes ganhos para as diferentes pessoas sejam possíveis.
3Ainda assim, nada na formulação de Nozick, por exemplo, legitima a ação do governo.
CONTEÚDO 8 Eqüidade Eqüidade, no sentido mais convencional, relaciona-se a espectos distributivos da renda. O critério de Pareto de eficiência só define um orde-namento parcial, nada dizendo sobre questões distributivas e sendo omisso a respeito da maior parte dos julgamentos interessantes, justamente quando duas alocações não são comparáveis do ponto de vista de Pareto.
Assim, costuma-se definir uma função de bem-estar social que é Pare-tiana, mas que também permite a comparação de utilidades entre os agentes.
Há algumas tentativas de justificar a adoção de criterios de comparaçã. Em tempos recentes, a mais conhecida justificativa ética para a adoção de um critério é de comparação entre os indivíduos é encontrada no livro Rawls [1972]. Para os economistas, porém, a abordagem de Harsanyi (???) talvez seja ainda mais clara.
Irracionalidade Finalmete, há bens (ou males) meritórios, que podem ser justificados com base na idéia de que as pessoas simplesmente ‘não sabem o que é bom para elas’. Neste caso, existe uma pressuposição de que aquilo que ‘faz as pessoas mais felizes’ não é necessário aquilo que elas ‘preferem’.
Estes modelos costumam invocar algum tipo de irracionalidade por parte dos agentes. Por limitação de espaço, deixaremos de abordar este tipo de motivação.
Uma outra forma de irracionalidade ocorre quando as pessoas ainda que consigam estabelecer o que é melhor para elas não têm auto-controle sufi-ciente para fazer essas escolhas. O pressuposto geral é de que várias dessas decisões são tomadas com base na emoção, e não com base na razão.
0.4.1 Visão do Estado
O fato de que o Estado pode aliviar (ou, em alguns casos, eliminar com-pletamente) problemas de falha de mercado, além de promover eqüidade, não quer dizer que ele o faça, nem necessariamente explica a sua existência.
Não abordaremos a visão positiva do Estado, que discute o que o Estado
‘faz’, mas tão somente a visão normativa que discute ‘o que deve fazer’ num sentido bem específico, a saber: não se pretende dizer quais os objetivos do governo, mas de entender como as recomendações de política variam como função dos objetivos.
A discussão sobre o que o Governo efetivamente faz costumava situar-se na esfera da ciência política, mas o campo da economia política permite o ex-ame desses assuntos a partir dos pressupostos usuais da ciência econômica.
Como vimos, esta é a grande inovação produzida pela escola da Public Choice.
A não-discussão desses temas deve-se não à menor relevância do tema, mas à menor competência dos autores destas notas em tratá-lo.
References
Peter A. Diamond and James A. Mirrlees. Optimal taxation and public production i: Production efficiency. American Economic Review, 61(1):8–
27, 1971a.
Peter A. Diamond and James A. Mirrlees. Optimal taxation and public production ii: Tax rules. American Economic Review, 61(3):261–78, 1971b.
James A. Mirrlees. An exploration in the theory of optimal income taxa-tion.Review of Economic Studies, 38:175–208, 1971.
Richard A Musgrave. The Theory of Public Finance. New York, 1959.
Robert Nozick.Anarchy, State and Utopia. Oxford: Basil Blackwell, 1974.
John Rawls. A Theory of Justice. Claredon Press (Oxford), 1972.