1 INTRODUÇÃO
2.3 JUVENTUDE EM CONTEXTO DE CRESCIMENTO ECONÔMICO E AS
SEXUAIS
Caracterizar aspectos da juventude que habita “Suape” significa considerar todas as nuances apontadas acima, sobretudo o atravessamento da violência em seus diferentes modos de se apresentar na vida dos e das jovens.
Se já sabemos que o/a jovem, via de regra, não participa ativamente da definição das políticas públicas nas cidades, o que dizer da construção/implantação de grandes projetos – como é o caso de Suape? Ainda que um discurso de “desenvolvimento” seja utilizado muitas vezes voltado à parcela jovem da população, constata-se que os/as jovens das camadas populares não foram contratados/as pelas grandes construções e obras. Assim ocorre/ocorreu em “Suape”.
Conforme apontado no item 2.1 os movimentos migratórios – via chegada dos outsiders, segundo Scott et al. (2012), ocasionaram uma série de encontros entre habitantes locais e pessoas de fora. Parte desses/as moradores/as locais são jovens que iniciaram relações afetivo-sexuais, como namoros, ocorrendo com frequência, gravidez entre adolescentes. Com isso a necessidade de articulação da mobilidade residencial revela uma população local cautelosa e atenta que toma partido “para preservar e para ampliar as suas redes de apoio, seja
20 PCSVDF Mulher - Pesquisa de Condições Socioeconômicas e Violência Doméstica e Familiar contra a
Mulher, 2016, realizada pelo Instituto Maria da Penha-IMP em parceria com a Universidade Federal do Ceará e o Instituto para Estudos Avançados de Toulouse. Apresenta uma radiografia da violência de gênero no Nordeste brasileiro.
47
através das atitudes das mães jovens, das avós, das sogras ou de outras pessoas nas redes de parentesco e amizade dos dois parceiros” (SCOTT et al., 2012, p. 12). Em paralelo os homens trabalhadores que chegam de lugares distantes constituem uma população nova atraída por projetos de desenvolvimento. Estes estão distantes das suas redes de parentesco nos locais de origem. A interação com a população local se realiza em um ambiente de promessa, mas também de desconfiança referente à concorrência no emprego, à conjugalidade, aos cuidados com os filhos e ao possível abandono por não ser nativo. Por isso as famílias das áreas pesquisadas se preocupam muito com o que estes outsiders representam. Apresenta-se dessa maneira um cenário bastante desconfiado com essa população migrante.
Nesse território de migração e estrangeiros, o que é vivido pelas jovens mulheres? O que é dito sobre elas? Que relações estabelecem? Investimos em entender de que modo os efeitos dessa desconfiança impactaram o campo das relações das jovens locais (sejam com pessoas da mesma geração ou não), no que diz respeito às experiências de amizade e afetivo- sexuais.
A pesquisa de Bacelar & Castro (2016) sobre modos de subjetivação de jovens em território de conflito socioambiental também coloca a questão do território x questões de gênero: assim como em Suape, havia em Conceição do Mato Dentro, certa desaprovação dos homens da região em relação às vivências afetivas e sexuais das jovens da região com esses “estrangeiros” e estranhos. Em parte isso se devia, tal como na região de Suape, ao aumento dos casos de violência sexual, bem como do crescimento do número de mulheres grávidas (p. 468).
Outro aspecto a ser pontuado foi o crescimento do número de bares e casas de festa na região, para onde iam muitos dos trabalhadores migrantes, que dividiu a população jovem, algumas sendo atraídas pelo movimento, e outras tantas preferindo limitar os seus espaços de sociabilidade ao comércio mais próximo, casas de conhecidos, locais de trabalho e igrejas, que se apresentavam em plena expansão (SCOTT et al., 2012).
Segundo Scott et al. (2012), um desafio que se colocou foi como garantir medidas governamentais e institucionais visando ações sociais que reduzissem impactos negativos do influxo de migrantes atraídos pelo projeto de desenvolvimento “com sensibilidade à existência da complexidade dos padrões de mobilidade residencial associados a namoros, sexualidade e parentalidade juvenis elaboradas pela população” (p. 13). Pois, se por um lado, não dava para fechar os olhos à inconveniência da presença de muitos trabalhadores de fora e da gama de complicações para a elaboração de estratégias próprias para lidar com a questão
48
da vida sexual e reprodutiva das jovens, por outro era preciso valorizar as estratégias de ampliação das redes de apoio a essas jovens, aos seus parceiros e aos seus filhos.
Não obstante dos efeitos da violência inerente aos grandes projetos desenvolvimentistas, as pessoas do território vivem suas vidas, relacionam-se umas com as outras e resistem às opressões desse modelo moderno/colonial de desenvolvimento. Nosso olhar foi lançado para o que as jovens constroem em termos de relacionamento. Significa dizer que quisemos pensar em como o empreendimento/projeto Suape ao mesmo tempo em que altera as configurações relacionais no território, coloca a possibilidade de outras “configurações subjetivas” e de modos de tecer amizades.
A partir das considerações feitas até aqui, como se coloca a questão das jovens, enfatizando o viés de gênero, em circulação no espaço público? Se pensarmos que é nesse tempo da vida (em relação à infância e à velhice) que tal espaço se torna mais desejado e mais possível. Um tempo em que lhes é mais “autorizada” a circulação na cidade. Se o espaço público historicamente é um ambiente masculino, como as mulheres jovens ocupam esse espaço; como se relacionam entre elas – e com os outros jovens? O que as suas experiências de amizade nos informam sobre ser jovem mulher no espaço público?
Na pesquisa com jovens pobres é fundamental considerar que tal juventude vive em um circuito entre a comunidade, a escola, a igreja, o serviço de saúde, o projeto social, a casa (a família), os/as amigos/as. Entre a casa e a rua? As experiências de amizade acontecem nesse “entre-lugar” (SCHWERTNER, 2010), entre o espaço público e aquilo que é tido como espaço privado (PRIMO, 2015; SCHWERTNER, 2010).
Em levantamento bibliográfico foi possível perceber que alguns estudos sobre juventude tocam levemente nas relações de amizade, poucos são os que se debruçam e aprofundam tal discussão. Esperamos fazê-la apontando para uma contribuição aos estudos sobre a questão da juventude, ao mesmo tempo em que aos estudos da amizade, no âmbito da psicologia. Para tanto a seguir nos deteremos na discussão teórica da amizade.
49