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2. CONVERSANDO SOBRE JUVENTUDE

2.6. Juventude ou Juventudes

Com base em toda a discussão desenvolvida pela sociologia da juventude, compreende-se que conceituar juventude pode ser mais complicado do que se imagina a princípio. A juventude não possui aquele significado único divulgado pelos mass

media, em blocos de gerações ou décadas. A sociologia da juventude muito tem

produzido e discutido para contribuir no entendimento mais amplo da juventude - enquanto categoria de análise.

Sendo assim, diversos autores apresentam visões diferenciadas que também contribuem para uma compreensão do ‘ser jovem’. Essas visões nem sempre se apresentam relacionadas diretamente à ‘corrente geracional’ ou à ‘corrente classista’, a ‘unidade’ ou a ‘diversidade’, ou mesmo citam a ‘moratória social’ ou ‘vital’. No entanto, a partir dessas correntes e conceitos é possível entender as construções teóricas de alguns autores que trabalham com essa temática.

Nesse sentido, Dayrell (2003) nos diz que a juventude, entendida no sentido do ‘vir a ser’ da condição transitória, carrega um aspecto negativo: o que não chegou a ser. Negando o presente e esquecendo que toda a vida é um singelo ‘vir a ser’. ‘Vir a ser’ jovem, ‘vir a ser’ adulto e assim por diante.

Outra visão é a romântica, que se cristalizou na década de 1960, resultado do florescimento da indústria cultural e de um mercado de consumo dirigido aos jovens. A juventude se traduzia como liberal. A essa idéia se associa a visão de ‘moratória’, de um tempo dado ao indivíduo possibilitando-lhe o ensaio e o erro (DAYRELL, 2003). Ser jovem é um valor positivo em nosso tempo. Os mass media tem fortalecido a presença da juventude na sociedade. Assim, os meios de comunicação têm se preocupado não só em transmitir, mas também em difundir modelos ideais de indivíduos (CHMIEL, 1996).

Isso pode ser percebido no conceito utilizado por Kehl (2004, p.90) para afirmar que ser jovem "é um estado de espírito, é um jeito de corpo, é um sinal de saúde e disposição, é um perfil consumidor, uma fatia do mercado, onde todos querem se incluir". Esses modelos ideais de indivíduos carregam, quase sempre, aspectos ditos juvenis como mercadorias, que, se adquiridas, tornam as pessoas jovens e isso é bem visto.

Nesse sentido, Bourdieu (1983) afirma que, quando o sentido de limites desaparece, “se vê aparecer um conflito a respeito dos limites de idade, dos limites entre as idades” (p.121). Assim, o autor mostra como é importante ter o entendimento de idade, tomando cuidado com o sentido demarcatório estático, já que a idade é um dado manipulado e manipulável. É como se existisse uma pressuposta forma de ser jovem ou ser adulto, e as pessoas viessem ultrapassando essa ‘pseudo’ linha demarcatória. Nesse sentido, Menandro (2004, p. 04) afirma que mesmo havendo

[...] uma certa desvalorização da condição jovem com relação a suas supostas características de inconseqüência e transitoriedade, muitas sociedades contemporâneas produziram, pela via da cultura de massa, uma valorização da condição juvenil que elevou à condição internacional de modelo, de ideal a ser seguido, com evidentes repercussões para as economias de mercado desenvolvidas.

A mídia propaga a ilusão do tempo e a eterna juventude, não importando a idade biológica, mas o que se exterioriza através dos atos que afirmam a identidade comum. Até mesmo as palavras adquirem um significado próprio para os jovens. Eles as usam e a mídia acaba absorvendo e as propagando também (CHMIEL, 1996).

Além das palavras, o corpo, as roupas, a jovialidade, os locais freqüentados pelos jovens, como as academias, por exemplo, acabam sendo objetos de desejos propagados pelo mass media, como indispensáveis ao consumo daqueles que querem se manter ‘sempre’ jovens.

A noite, um outro exemplo, é um tempo hoje industrializado e dedicado ao consumo do ócio. Cada grupo de jovem se preocupa, simbolicamente, com lugares pelos quais expressam seus gostos e seus estilos. Essa relação - entre juventude e noite, e juventude e território - sugere diferenças objetivas e subjetivas (ELBAUM, 1996).

Diferentes tribos de jovens se organizam, a partir de afinidades, e elegem um território ou se diferenciam por esse território que habitam e pelos lugares que freqüentam. A escolha pelo lugar, às vezes, passa a ser a exclusão de outros espaços, por não querer ou não poder estar entre pessoas de outros grupos, que curtem outras músicas, por exemplo (ELBAUM, 1996).

Nesse sentido, Elbaum (1996, p. 158) diz que temos que nos preocupar ao agrupar artificialmente um grupo de pessoas por um único atributo em comum: existem distâncias sociais entre os indivíduos - o que permite superar a consideração de uma cultura juvenil única, “como fator condicionante de ser jovem”, exatamente o abordado pela corrente classista.

Ao abordarmos os aspectos da ‘moratória social’ vimos como a juventude tem se tornado um símbolo e signo de status, uma mercadoria propagada pelo mass media que expressa desejo de consumo.

No entanto, a juventude não desfrutou e nem desfruta sempre do mesmo significado na sociedade, pelo fato de haver sociedades em que os mais velhos tinham mais prestígio,

como na antiga China. Mas esse movimento não se refere só ao prestígio, mas também à integração dos jovens em grupos e movimentos (MANNHEIM, 1968).

Seguindo aproximadamente essa linha de raciocínio, Mannheim (1968), Spósito e Carrano (2003), Abramo (2005; 1997), Dayrell (2003), Novaes (2002), Levi (1996), Elbaum (1996), Castro (2004), Camacho (2007)28, entre outros, afirmam que

dependendo do contexto, chega-se a uma idéia de juventude diferente, entrando na definição questões diversas, como classe social, local em que vive, grupo em que se insere, entre outros aspectos, tornando-se necessária a denominação juventudes. Sousa (1999) reforça a compreensão afirmando que não podemos trabalhar com um conceito único de juventude, precisando, na maioria das vezes, mesclar a questão da faixa etária a aspectos sócio-culturais.

A ‘padronização’ do conceito de juventude, como sendo único, homogêneo e universal, é disseminado através da sociologia funcionalista, em que é possível compreender a juventude, o ‘ser jovem’, sem a relação com o contexto social concreto, entendendo-a como um momento de transição do ciclo da vida entre a fase da infância para a maturidade, que corresponde a um momento específico e dramático de socialização em que os indivíduos processam a sua integridade e se tornam membros da sociedade (ABRAMO, 1997), exatamente como é exposto pela corrente geracional.

Dessa forma, consideramos prudente entender a existência de ‘juventudes’, que se diferenciam por possuírem demandas e expectativas singulares, relacionadas à territorialidade, ao gênero, à cor; que sofrem interferência tanto de classe para classe, quanto de geração para geração, e são determinadas, tanto por aspectos biológicos e etários, quanto pela interferência cronológica, sócio-cultural e psicológica. Nesse sentido, a ‘corrente classista’ nos possibilita um olhar ampliado com relação às realidades das juventudes e nos auxilia em uma compreensão dialética e mais profunda do ‘ser jovem’. Observa-se, também, que o sentido abordado pela ‘moratória social’ e

28 Esse pensamento foi apresentado pela referida professora no Seminário organizado pelo NEJUP intitulado

Movimento, Juventude e Expressão em 12 de agosto de 2003. Publicado no artigo: A ilusão da moratória social para jovens das classe populares. In: SPOSITO, M. P. Espaços públicos e tempos juvenis: um estudo de ações do poder público em cidades de regiões metropolitanas brasileiras. São Paulo: Global, 2007.

‘moratória vital’ ao ‘período juvenil’ colabora na compreensão dos significados. A essa visão, associamos a noção da faixa etária de 16 a 35 anos, que, como veremos mais adiante, é o intervalo máximo utilizado pelos partidos políticos pesquisados.

3. PARTICIPAÇÃO POPULAR, DEMOCRACIA, DIREITOS E

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