4. JUVENTUDE E TRAJETÓRIAS DE VIDA
4.2 Juventude, risco e “adrenalina”
Ao conversarmos com os reclusos tentamos
compreender o porquê de eles, mesmo após terem passado pela experiência da prisão, ainda assim continuarem a traficar. Evidentemente, sabemos que fatores de ordem econômica podem ser determinantes, principalmente para a recorrência no crime, todavia tentamos encontrar outros agravantes que possam condicionar a permanência no tráfico. Um dos reclusos, Mateus, aponta quais razões o levaram a entrar para o movimento e quais condicionam a sua participação:
Acho que (entrei) meio como todo mundo. Tem as amizades que influenciam, aí se o cara já usa droga uma coisa chama a outra, depois tem a fase que o cara quer ostentar, mostrar que tá podendo e não tem da onde tirar dinheiro, na adolescência tu quer pegar a mulherada e tudo é dinheiro... tu entra nessa vida pelo dinheiro, mas o que te mantém nela é gostar, gostar da adrenalina, do perigo, isso é que não deixa o cara largar, porque se fosse só dinheiro o cara traficava um tempo, juntava uma grana montava um negócio e aí largava o crime, mas na real o que não deixa o cara largar é que o cara gosta da emoção, o bandido tem um estilo de vida próprio, que é diferente, a gente vive o hoje, o agora. (Mateus, 23 anos, preso no artigo 121 - homicídio)
O uso de drogas é o fator mais presente nos discursos. Apenas um deles começou a traficar sem antes ser usuário, e todos os demais sinalizaram que o tráfico veio como consequência direta do uso de drogas, principalmente como uma forma de manter o vício e ganhar mais dinheiro. Mas, como Mateus expos, se fosse só pelo dinheiro eles poderiam trabalhar e investir em algum negócio lícito que, ao mesmo tempo, que permitisse largar o tráfico possibilitasse também que eles não fossem mais empregados. Contudo, o dinheiro do tráfico, ao mesmo tempo em que vem muito rápido, também se vai com a mesma agilidade, isso em parte pela relativa facilidade que há
na entrada do dinheiro, levando a que não haja um controle dos gastos.
Outro ponto é com relação à ausência de um projeto de vida, que somado à identificação ao ideal do jovem hedonista faz com que o tráfico seja o trabalho perfeito para atender suas necessidades, independente dos riscos a que se esteja sujeito. Como já foi relatado no item anterior, esses jovens, apesar de não terem vivenciado diretamente práticas de violência, acostumaram-se desde muito novos a conviver com a morte. De acordo com Feffermann:
É provável que no imaginário desses jovens, morrer como bandido signifique glória, mesmo porque os bandidos costumam ser lembrados por suas transgressões, coragem e desafio a um sistema. O risco e o estigma, na periferia, rodeiam mesmo aqueles que não se inscrevem na criminalidade, o que pode leva-los a correr o risco de viver de forma compulsiva tudo que for possível pelo tempo que sobreviverem. (FEFFERMAN, 2006, p.323)
Drogas, violência, risco e “adrenalina” são elementos sempre muito presentes na sociabilidade dos jovens entrevistados. Entretanto, a naturalização da violência também parece contribuir significativamente com a participação no crime. Enquanto uns relatam não saber exatamente o que os levou à ligação com o crime, outros parecem notar que esta opção ocorreu quase que naturalmente, como se fosse a mais óbvia e certa , e não só pela falta de oportunidades, mas porque o estilo de vida do crime ia ao encontro da sua opção pessoal. É como se esta fosse decorrente de uma escolha baseada nas suas preferências, como podemos notar na fala de Renato:
[...] hoje vejo que a minha forma de me relacionar com o mundo era através da violência, do risco, da adrenalina, do desafio, eu nunca me encaixei naquele perfil da pessoa que consegue ter uma vida tranquila, de trabalho, estudo, casar, ter filhos, sempre achei isso muito cansativo, chato, aí eu hoje
vejo que eu sempre procurei amigos, que também não gostassem dessa vida assim, sempre gostei de gente que vivesse o dia de hoje como se fosse o último, sem se preocupar se no dia seguinte tem que acordar cedo para trabalhar, ou se isso é certo ou errado. Agora depois de cair pela segunda vez, e parando de usar drogas eu fico tentando entender por que eu sempre fui assim... Porque nunca liguei muito para minha mãe e meus irmãos, tudo bem que eles também nunca ligaram muito pra mim, mas nenhum deles virou bandido nem usuário de droga, na família eu só tive um tio que veio preso por tráfico, mas que logo depois parou de traficar com medo de cair de novo e ter que cumprir 3/5 da pena. E eu caí pela segunda vez e nem sei se vou ou se quero parar. (Renato, 24 anos, preso no artigo 155 e 33, respectivamente furto e tráfico)
É indispensável salientar que o uso de drogas favorece esse comportamento mais ousado descrito por Renato, e inclusive ele foi um dos entrevistados que ressaltou ter graves problemas de dependência química. Quando iniciou-se o trabalho na instituição, ele havia decidido parar com as drogas havia dois dias, tendo já parado com o crack na primeira vez em que foi preso. Em outro momento ele descreveu que nunca soube usar drogas com moderação, que sempre teve um comportamento excessivo, fosse usando drogas e testando qual era o seu limite, fosse extinguindo totalmente o seu uso.
Através do que foi exposto por Renato, fica evidente a busca por relações com pessoas que compartilham da mesma forma de ver o mundo e de vivê-lo, e que optem por viver de forma arriscada e sem perspectiva de futuro.