CAPÍTULO II – CULTURA, JUVENTUDES E CULTURAS JUVENIS
2.2 Juventudes e Culturas Juvenis
2.2.1 Juventudes: dimensões identitárias e existenciais
Ao buscar uma conceituação da palavra juventude nos dicionários de língua portuguesa, perceberemos que há uma convergência em classificá-la como passagem da vida infantil para a vida juvenil ou da vida juvenil para vida adulta.11
Entretanto, são muitos os caminhos trilhados na literatura das ciências sociais para definir, conceituar, diferenciar ou marcar o começo e o final dos períodos caracterizados como juventude. Podemos afirmar que esta não é uma terminologia nova, pois remonta à Grécia antiga.
Quadro 1: Momentos históricos.
Grécia antiga até século V No governo de Augusto, os meninos de 16 anos eram inseridos em uma classe denominada “príncipes da juventude”
Por volta do século VI e VII Juventude (de 22 a 30 nos) apenas aos 40 anos, os homens podiam participar dos cargos políticos, porque esta idade representava o fim da idade dos perigos.
A partir do século XVIII Com Rousseau começa a surgir uma visão mais sociológica da juventude
Fonte: (GUIMARÃES; GRINSPUN, 2008, p. 1-2).
E mesmo recorrendo à conceituação contemporânea, Sandoval coloca que ela é bem variável.
Por exemplo, entre 7 e 8 anos em El Salvador; entre 12 e 26 anos na Colômbia; entre 12 e 35 na Costa Rica; entre 12 e 29 no México; entre 14 e 30 na Argentina; entre 15 e 24 na Bolívia, Equador, Peru, República Dominicana; entre 15 e 25 na Guatemala e Portugal; entre 15 e 29 no Chile, Cuba, Espanha, Panamá e Paraguai; entre 18 e 30 na Nicarágua; em Honduras, a população jovem corresponde aos menores de 25 anos (CEPAL/OIJ, 2004, p. 290-291). No Brasil se utiliza a faixa entre 15 e 24 anos de idade, por instituições como o IPEA e o Instituto Cidadania (SANDOVAL, 2005, p. 53).
Há muito tempo o conceito de juventude vem sendo discutido na tentativa de se encontrar um conceito que não reproduza a hegemonia cartesiana. Porém, com
11 Segundo Minidicionário contemporâneo da língua portuguesa (2009, p. 478), “Juventude (ju-ven-tu-
de) sf. 1 Qualidade ou condição de jovem: o vigor da juventude. 2 Fase da vida que começa na
adolescência e termina na idade adulta; mocidade; juventude. [Ant.: velhice]. 3 Os jovens como um todo; mocidade: a juventude dos anos 70”. Nas definições em dicionários de português há uma ambiguidade de conceitos por não levarem em consideração a complexidade conceitual que a palavra juventude encerra.
surgimento das classes burguesas, no século XIX, é que se deu o início da caracterização da juventude.
Somente ao fim do século XIX, surge, nas classes burguesas o termo adolescência, como o resultado de uma sociedade capitalista e industrializada, com a intenção de demarcar o início da segunda infância, definindo a idade para além dos 13 anos. Esta sociedade caracterizou uma juventude que almeja a maturidade precoce, chegando a envergonhar-se de sua condição juvenil (GUIMARÃES; GRINSPUN, 2008, p. 2).
Há uma tendência em conceituar a categoria juventude como transição para a fase adulta, ou etapa de preparação dos sujeitos para a vida adulta, com a predominância de um modelo universalista de vida adulta, não havendo o reconhecimento das condições diferentes de vida da juventude como categoria atuante no espaço social e sua capacidade de participação nos diversos contextos sociais.
A faixa etária é uma maneira corriqueira de classificar, de conceituar os jovens, muito utilizada em vários países e organizações governamentais como parâmetros cronológicos, muitas vezes associados aos psicológicos, buscando compreender o que é ser jovem. Para a Organização Pan-Americana da Saúde e, também, para a Organização Mundial da Saúde (OPS/ OMS), a juventude apresenta-se como categoria sociológica por meio da qual os jovens são preparados para assumir seus papéis de adulto. Para esse período preparatório, essas organizações consideram a faixa etária de 15 aos 24 anos de idade.
Já a Organização Internacional do Trabalho (OIT) considera a faixa de 16 a 29 anos, considerando, inclusive, os jovens que nela se encontram como aptos para o mercado de trabalho. No Brasil, a Política Nacional de Juventude (PNJ) considera como jovens aqueles sujeitos que estão entre 15 e 29 anos de idade, subdivididos em três grupos. No primeiro deles encontram-se os jovens adolescentes que estão entre 15 a 17 anos; no segundo, os jovens de 18 a 24 anos; e no terceiro, os jovens adultos de 25 a 29 anos.
Outro fato muito comum é classificar a adolescência e a juventude a partir do conceito biológico. Essa confusão é bem comum quando não se demarca o campo conceitual da pesquisa, o que, geralmente, leva à configuração de uma coisa e de outra, como sinônimos. Porém, ao pesquisá-los é preciso compreender a partir de que campo ele está sendo pesquisado, já que na biologia evolutiva ele é
conceituado como estando em uma transição de crescimento cronológico, de amadurecimento do aparelho reprodutor e cognitivo, fase na qual tem início todo o processo de identidade individual e grupal.
Nas ciências sociais diversos autores buscaram compreender a juventude a partir de questões culturais, considerando-a, inclusive, em sua diversidade de pensamentos, sentimentos, expressões e práticas, saindo da condição heterônoma para a autônoma como categoria de análise. Logo, falar
[...] em juventude no singular não abrange a diversidade e a complexidade do fenômeno nas sociedades contemporâneas. A juventude, consensualmente entendida na sua pluralidade por diferentes autores, constitui uma categoria cujos sentidos divergem conforme as condições de classes sociais, culturais, de gênero, territoriais, dentre outras. Utilizar o termo juventudes supõe considerar dimensões formativas do sujeito na sua singularidade de ser jovem e não apenas uma passagem ou transição de vida e nesse sentido, a juventude assume importância em si mesma... (CAVALCANTE, 2010, p. 50).
Ao compreender a complexidade da palavra juventude no plural, estamos considerando os diferentes significados que ela assume a partir do contexto histórico, social, econômico e cultural vigentes, tanto que, mesmo sendo incluído em faixas etárias, cada agrupamento juvenil possui características próprias de acordo com os contextos em que vivem e com os sentimentos de pertença dos agentes aos grupos por meio dos quais se distinguem e se identificam, seja pela determinação de gênero, etnia, classe, entre outros determinantes, configurando uma identidade que não se reduz a um único modo de ser jovem.
Para Bourdieu (2003), a idade não passa de uma forma discriminatória socialmente aplicada à competição entre jovens e velhos, marcando simbolicamente a distinção presente ou futura em um jogo cronológico de classificação. Ou seja, para esse autor, a juventude é apenas uma palavra e as
[...] divisões entre a idade é arbitrária. É o paradoxo [...] não se sabe em que idade começa a velhice... De fato, a fronteira entre juventude e velhice é em todas as sociedades uma parada em jogo de luta... Percebe-se a específica distinção, feita pelo autor, entre jovem e adulto, sendo esta uma seleção que pode ser manipulada tendo como variantes dois fatores importantes: [...] É-se sempre velho ou jovem para alguém [...] e [...] Juventude e velhice não são dados, mas construídos socialmente... (BOURDIEU, 2003, p. 152)
Dependendo da idade de duas ou mais pessoas em relação comparativa, pode-se afirmar que ser jovem ou velho é característica, categoria aplicável a uma mesma pessoa. Por exemplo, podemos dizer que um jovem na faixa etária de 21 anos tem atitudes e ações como um adulto de 40 anos e vice-versa. Para o autor, a complexidade existente na relação entre as idades social e biológica desaparecem, por exemplo, com a proximidade dos jovens ao pólo de poder.
Para Leontiev (1978, apud GUIMARÃES; GRINSPUN, 2008, p. 6), “[...] o jovem adquire uma identidade social por ser capaz de assumir representações, significados e interpretações diferenciadas pelos homens inseridos na sociedade contemporânea.” Neste sentido, os jovens apresentam maior domínio de pensamento, reflexão e ação sobre si mesmos no mundo em que estão inseridos, conhecendo criticamente a realidade social que os cerca.
Dessa discussão, entendemos a juventude como parte de um processo mais amplo de constituição de sujeitos, mas que tem especificidades que marcam a vida de cada um. A juventude constitui um momento determinado, mas não se reduz a uma passagem; ela assume uma importância em si mesma. Todo esse processo é influenciado pelo meio social concreto no qual se desenvolve e pela qualidade das trocas que este proporciona. Assim, os jovens pesquisados constroem determinados modos de ser jovem que apresentam especificidades, o que não significa, porém, que haja um único modo de ser jovem nas camadas populares. [...] É nesse sentido que enfatizamos a noção de juventudes, no plural, para enfatizar a diversidade de modos de ser jovem, existentes (DAYRELL, 2003, p. 42).
Na Sociologia, por um lado, o conceito de juventudes é abordado a partir da compreensão deste como abordagem classista e geracional, pois as juventudes apresentam uma fase de evolução biológica, cronológica e de valores geracionais que podem ser desconstruídos, reconstruídos ou criados, na medida em que esses agentes não ficam alheios à sua realidade, inserindo-se nela como construtores de seu próprio mundo. Por outro lado, na abordagem classista encontramos os problemas advindos da divisão de classes e de suas desigualdades sociais, sendo, os jovens, produtos dessa desigualdade.
Por mais que haja desigualdades sociais não se pode negar que os jovens são seres sociais que estão em constante relação dialógica com o mundo que o cerca, construindo sua própria história a partir de sua interpretação do mundo, dando-lhe sentido concreto, produzindo e sendo produzido pelas relações sociais que estabelecem com o outro.
Dada essa configuração da juventude no mundo contemporâneo, e tendo-se como referência as mudanças que ocorrem nas várias dimensões da vida cotidiana, em sociedade, exige-se que haja redobrada atenção teórico-metodológica para se conceituar o que é ser jovem, hoje. Para Duarte,
[...] é nesse cenário que os estudos recentes relativos aos jovens em seus diferentes espaços expressam a preocupação de apreender quem são esses agentes, quais seus modos de pensar e agir, suas necessidades e perspectivas e suas relações com as agências socializadoras (DUARTE, 2012, p. 71).
A juventude, na contemporaneidade, é um segmento importante da sociedade. Tem forma própria de pensar, de agir, de estar no mundo, que é construído a partir de sua vivência na sociedade e das condições que estas lhes dão e, até mesmo, da dinâmica do espaço geográfico a que pertence, pois são estes espaços sociais e geográficos que se alteram, historicamente, a partir das transformações da sociedade que acabam por imprimir aos jovens as diferentes formas de viver o tempo presente.