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Juventudes presentes, expectativas futuras

II. ALGUMAS REFLEXÕES TEÓRICAS ACERCA DAS CULTURAS

3.1 LAZER E MÍDIA NAS VOZES DOS JOVENS

3.1.1 Manifestações das Culturas Juvenis no cotidiano

3.1.1.3 Juventudes presentes, expectativas futuras

Esta categoria reúne as perspectivas para o futuro que abarca um conjunto de dois “sonhos”, ordenados segundo a importância dada pelos jovens, identificada a partir da recorrência e ênfase nas falas: i) o emprego/trabalho como

desdobramento da formação profissional (estudo) e ii) família. As prioridades foram citadas nesta ordem, provavelmente, pelo imperativo de se garantir a subsistência inclusive para possibilitar o acesso/permanência/conclusão de um curso na universidade para depois, estabelecido profissional e financeiramente, formar uma família sob sua responsabilidade e com condições de dignidade.

Numa entrevista, quando solicitado dos jovens verbalizar os seus sonhos e projetos de vida, houve grande silêncio. A princípio, reformulei a questão, mesmo assim, ainda percebi um misto de exitação e constrangimento. Será que estes jovens não sonham? Será que eles não esperam nada do e para o futuro? Estão completamente sem perspectivas? Como lembra Eduardo Galeano62 “todos os pecados têm redenção, menos o pecado contra a esperança". Ou os sonhos são só seus e não devem ser compartilhados com estranhos?

Neste contexto, me valho do discurso de Melucci (2001, p. 104 a 105) que discorre sobre as características das juventudes dizendo sobre

uma outra característica, repetidamente evidenciada na cultura juvenil, é a falta de projeto, a provisoriedade dos interesses, das agregações, das escolhas. Descendemos de uma cultura na qual a história se apresentava como um desenho dirigido para um fim e o presente tinha somente o valor de um ponto instrumental de passagem. A ação no presente encontrava o seu sentido apenas no que diz respeito ao resultado final perseguido e à luz dele (...). Nas sociedades pós-industriais, nas quais a mudança se torna condição quotidiana de existência, o presente assume um valor inestimável. A história, portanto, a possibilidade de mudança, não é orientada para fins últimos mas por aquilo que ocorre já hoje. A cultura juvenil exige, então, da sociedade o valor do presente como única condição de mudança; exige que aquilo que vale se afirme no aqui e no agora; reivindica o direito à provisoriedade, à reversibilidade das escolhas, à pluralidade e ao policentrismo das biografias individuais e das orientações coletivas. E, por isso, não pode desencontrar-se com as exigências do sistema que impõem previsibilidade, redução da incerteza, estandatização.

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Enfim, os jovens falaram sobre os seus sonhos na perspectiva de garantir o presente e como condição de continuar existindo.

Sobre o emprego/trabalho, trago duas falas representativas de um conjunto que se caracterizou fria e secamente pela necessidade de organizar condições materiais de subsistência; desta perspectiva, avultou-se a necessidade primeira de competir no mundo do trabalho:

Se não tiver emprego, um bom salário como é que vive? E para ter um bom trabalho é preciso estudar muito.

Ter que correr atrás porque não tá fácil. Meu primo disse que emprego não tem. Então tem que fazer concurso em cima de concurso... não tá nada fácil... até conseguir passar em algum. O maior sonho é ter um emprego. (Grifo meu)

Da necessidade de garantir um bom emprego atrela-se outra perspectiva que gira em torno da formação profissional. É comum às falas almejar ascensão social via escolarização. Daí que a possibilidade de estudar em uma universidade está presente em grande parte dessas falas, numa idealização de ascensão profissional e financeira advindas da formação profissional através de um curso superior. As falas, neste sentido, são unívocas. Eis algumas delas:

Eu quero fazer ou ciência da computação ou história. Preciso pensar primeiro no meu futuro do que em mim mesmo. Acho que vou fazer computação que está na área de informática que dá dinheiro e depois história pra me satisfazer mesmo.

Formar numa faculdade e ter uma boa profissão.

Bom eu quero terminar de estudar, fazer faculdade para enfermagem, se Deus quiser eu vou passar, conseguir e talvez continuar cuidando da fazenda dos meus avós ... depois que eu me aposentar...

Destas falas, percebe-se uma questão interessante sobre a escolarização e formação profissional. O ensino médio não é visto como o fim dos estudos, ainda que seja o nível escolar obrigatório. Adentrar o universo de um curso superior não é visto como um ganho no sentido de prêmio para quem o alcançar, mas é uma perspectiva necessária para o futuro, um sonho ainda que exista consciência das dificuldades de acesso, pois nem todos conseguem. No Brasil, a educação é um direito de todos e dever do Estado ainda que as perspectivas a encaminhem para o estatuto de serviço, com o Estado se desobrigando e tornando a educação em produto para ser comercializado indistintamente.

A preocupação com o estudo parece fundamental, uma vez que também há significativa inquietação com a qualidade no processo da educação formal. A valorização da instituição escolar atravessou as falas dos sujeitos ainda que com sérias críticas ao sistema. A persistência no processo de escolarização deixou visível que existe uma representação interiorizada dos discursos políticos, familiares e dos meios de comunicação de massa que atribuem à educação a saída para a profunda crise do (des) emprego e, ainda, o grau de escolarização como um valor simbólico na obtenção de maior prestígio social. Reproduzo abaixo uma fala representativa deste sonho que diz:

Na minha concepção todos os jovens querem para si uma educação melhor, com certeza, um ensino melhor porque o que nós fazemos hoje estamos plantando para amanhã. Entendeu? Ter bons professores, é isto!

Ainda sobre a formação profissional, tanto para nível técnico quanto superior, houve uma numerosa indicação para o curso de enfermagem. Depreende- se daí que há uma perspectiva de continuar em Cáceres visto que com a instalação

do Hospital Regional de Cáceres e oferecimento de curso técnico e superior em enfermagem aliam-se possibilidade de formação com um futuro emprego.

Vários jovens, porém, têm seus sonhos baseados na carreira militar, curiosamente, pois parece algo já “fora de moda”. Talvez seja por influência do 2º Batalhão de Fronteiras e da Marinha do Brasil através da Agência Fluvial de Cáceres instalados na cidade,. Estes jovens sonham com a possibilidade de, completado o serviço militar, seguir carreira e, na impossibilidade desta, cursar o ensino superior.

Eu quero ingressar no exército e seguir carreira.

Eu quero entrar no exército (...) mas se não der certo, quero formar em algum curso feito enfermagem, medicina...

Eu? Quero ser marinheiro e se não der certo na marinha, vou tentar medicina.

O segundo dos sonhos, a formação de uma família, pareceu ser um item relevante da lista dos sonhos, as falas são brandas, românticas, com traços de nostalgia. A formação da família constitui-se num passo importante e, a preocupação primeira é reunir condições de sustento, daí que a afirmação “formar primeiro, arranjar um bom trabalho digno que ajude depois casar e construir uma família” denota a valorização do convívio familiar e da importância de ter condições dignas para formar esta família. A seguir, exponho uma fala significativa quanto à relação familiar:

Quando jovem nós fazemos bastante bagunça, namoramos também mas sonho mesmo é ter uma família, ficar quieto num canto, sair de vez em quando...

Outras perspectivas de futuro se apresentaram, ainda com grande ênfase no estudo (formação profissional) e emprego como condição para a realização dos demais sonhos:

Estudar agora, batalhar, para depois ter um emprego e poder fazer as coisas que eu quero: viajar e conhecer outros lugares. No começo é difícil (...) mas depois tem uma recompensa.

Fazer o curso [superior] é essencial, batalhar o emprego, ganhar dinheiro, fazer outras faculdades, vai do teu interesse, viver feliz com a família, formar uma família, realizar os sonhos, viajar, conhecer a Disney, outros países, outras línguas...

Ainda que arrojados, “curtidores” da vida quando jovem e sonhadores, percebe-se traços de um discurso moralista, que se expressa em críticas em relação à postura de alguns jovens, diferente das suas próprias, aos comportamentos julgados inadequados, lendo uma realidade diferente do que projetam os seus sonhos:

Bom... têm uns jovens que pretendem alcançar seus objetivos, arrumar um emprego, terminar uma faculdade, tem uns que já quer mais bagunça, badalação, não estuda, só quer saber de curtir a vida, ir aos bailes, tomar cachaça, tomar muito álcool, fumar, então depende da consciência de cada um, né? Mas assim, quem quer buscar mesmo alguma coisa, um objetivo de vida que é um trabalho, que é construir família, essa pessoa se ela quiser, consegue!

Tem alguns jovens, eu pelo menos quero estudar exercer uma profissão ser alguém na vida, e têm outros que só querem festa bagunça somente os filhinhos de papai, não se preocupam com o futuro - pô papai tem grana, só vou sair, me divertir, não tão nem aí com a vida.

Mas, para além destes sonhos e talvez sintetizando-os, os jovens “sonham em ter um futuro melhor” que lhes garanta “mais divertimento”, uma vida simples, digna e feliz. A próxima temática trata das questões ligadas às práticas culturais de lazer, visto ser esta uma das características das culturas juvenis.