2.2 L OCALIZANDO O PERCURSO INSTITUCIONAL DOS ACADÊMICOS K AINGANG E
2.2.2 Kaingang
Vindos de três Terras Indígenas localizadas no norte do Paraná e já apresentadas aqui, os alunos Kaingang fazem seus deslocamentos diários para a cidade de Londrina até a UEL. Todos matriculados em cursos noturnos, trabalham durante o dia nas aldeias.
Apenas uma de minhas interlocutoras Kaingang mora em Londrina e lá cumpre seu estágio obrigatório.
59 As menções sobre a rigidez da professora e a proibição do guarani também estão presentes na memória de Bruno, destaco, porém, a ênfase que coloca no desejo em estar na escola e próximo dos conhecimentos que pode adquirir a partir dela, considerando que sua trajetória e percepção sobre a educação escolar ainda estão presentes no modo como lida com suas dificuldades e desejos.
Marcela, Kaingang da T.I. São Jerônimo, nem sempre morou em Londrina. No início de sua vida acadêmica, em 2006, quando ingressou no curso de Direito na UEL, Marcela fazia o percurso diário com uma van que saia da cidade de São Jerônimo da Serra. Entretanto, as divergências com o curso e professores fizeram com que ela se afastasse da universidade. Em determinada situação, um professor, em meio a aula lhe disse que se era uma aluna indígena seria necessário, então, retornar à floresta, sendo lá o seu lugar.
Afastando-se por um ano da universidade, Marcela retornou para UEL e solicitou transferência para o curso de Serviço Social, junto de outra amiga Kaingang. Em 2014, Marcela passou para o último ano de graduação, que será dividido com os cuidados de sua filha, nascida no início do mesmo ano.
Mariana, da T.I. Apucaraninha iniciou seus estudos em Ibirama – SC. Ainda na infância mudou-se com a família para a Terra Indígena Mangueirinha (PR), onde fez a 3° série, mas foi na T.I Ivaí onde finalizou a 4° série. A 5° série, Mariana fez na cidade de Manoel Ribas, terminando o ensino fundamental na cidade. O ensino médio foi concluído no supletivo, pois nesse período teve suas filhas. Após terminar o ensino médio, Mariana começou a trabalhar pela APEARTE (Associação Projeto Educação do Assalariado Rural Temporário) ONG constituída pela Comissão Pastoral da Terra – CPT em 1992, que tinha por objetivo principal alfabetizar uma população rural, como bóias frias e que acabou alcançando os Kaingang do Apucaraninha. Nessa época conseguiu uma bolsa integral para cursar Direito na Faculdade Maringá, lá permaneceu por um ano, contudo, acabou retornando para a aldeia, pois não tinha como se manter na cidade e estava longe de suas filhas. Mariana prestou o primeiro Vestibular Indígena em 2002, realizado em Guarapuava para o curso enfermagem, mas passou apenas no ano seguinte no curso de pedagogia.
A família de Mariana tem na mãe, Dona Gilda, a referência principal, que mesmo sendo Xokleng é a mais forte liderança no Apucaraninha. Sua luta está ligada à educação bilíngue Kaingang, tendo contribuiu na formulação do dicionário Kaingang.
Atualmente, Dona Gilda está no curso de História à distância na UEM, para onde vai acompanhada por uma das filhas que cursa o primeiro ano de psicologia. O irmão mais velho de Mariana é formado em Direito pela UEM, atuando politicamente nas discussões sobre a construção das barragens no Rio Tibagi. Sua outra irmã é formada em enfermagem também pela UEM e um dos irmãos é desistente da UEL. Mariana prestou vestibular na UEL por três vezes, 2003, 2009 e 2013, tentativas feitas para o
mesmo curso, Pedagogia, permanecendo por menos de um semestre. Até o final de minha pesquisa em Londrina, Mariana aguardava a transferência para o curso de Pedagogia à distância na UEM.
Também de Apucaraninha, Roberto atuava como professor indígena em Rio das Cobras, em 1994, antes mesmo de concluir o ensino médio. Em 1996 foi trabalhar na T.I. Apucaraninha, onde constituiu sua família e lá permaneceu. A conclusão do ensino médio, assim como no caso de Mariana foi através da APEARTE em 2002. Ainda em 2013, Roberto atua como professor bilíngue nas duas escolas em sua aldeia durante o dia e a noite segue para Londrina. A primeira tentativa de vestibular indígena foi em 2006 na UEM, mas perdeu o prazo de matrícula. Em 2009 foi aprovado em Educação Física na UEL, porém desistiu e retornou em 2011 ainda no mesmo curso. No início de 2013, Roberto solicitou sua transferência para Artes Visuais. Entretanto, ainda em 2013 tinha planos de dar continuidade na graduação através do ensino à distância.
Diferente do efeito “Ensino à Distância” que tem aumentando na T.I.
Apucaraninha e também em outras aldeias, Ângelo, Kaingang da T.I. São Jerônimo, continua na tentativa do curso presencial, mesmo já tendo cogitado a transferência para Cursos à Distância.
Antes de entrar na universidade, Ângelo fazia bicos de servente na cidade e trabalhava na roça. Atualmente está vinculado ao instituto Kamé, que tem projetos de construção de casas nas áreas indígenas da região norte do Paraná60. A conclusão de seu ensino médio foi na cidade de Cambará – norte do Paraná – no Colégio Agrícola.
Sempre interessado nas ciências da terra, sua primeira opção de curso superior foi em Medicina Veterinária, em 2009.
Contudo, as dificuldades encontradas em um curso integral, somado aos gastos que tinha sozinho em um apartamento e, sobretudo, a preocupação gerada ao nascerem suas duas filhas gêmeas, fez com que Ângelo repensasse suas escolhas e, buscando outra possibilidade, transferiu seu curso para Educação Física, no ano seguinte.
Sua mãe, formada em Letras pela UENP, onde também ingressou pelo Vestibular Indígena, sempre está presente em encontros e reuniões com caciques na UEL. Seu pai foi por muito tempo professor bilíngue das escolas de São Jerônimo. Com um extenso histórico de luta pela educação indígena, atualmente seu pai é representante da FUNAI no escritório de Cornélio Procópio.
60 Para mais informações sobre o instituto ver o site institutokame.org.br
Todos inseridos em algum campo de trabalho: nas escolas, em projeto ou no estágio, distanciam-se do cenário precário de trabalho nas regiões de suas T.Is, como comenta Ângelo sobre a situação de São Jerônimo da Serra:
“é meio difícil arrumar serviço pra índio aqui, o que tem mais de emprego hoje lá na cidade é pra parte feminina, que trabalha nas casas, tipo diarista, isso tem bastante aceitação, mas índio mesmo [homem] que trabalha na cidade é difícil. Geralmente é só servente de pedreiro. Hoje eles [índios de São Jerônimo] estão trabalhando mais na parte do eucalipto né, aí tem que plantar, arrumar terra, aí tem bastante gente que mexe com isso hoje.”
Para Marcela – também da T.I. São Jerônimo – o trabalho informal esteve presente antes e após a entrada na Universidade, trabalhando como babá, garçonete e diarista. Para os homens os trabalhos de boia fria e pedreiro são mais recorrentes.
Apenas na T.I. Apucaraninha que os acadêmicos já trabalhavam como professores bilíngues nas escolas. Em outras T.Is o cargo de professor e de agente de saúde, na maior parte dos casos, acaba sendo ocupado após a entrada na Universidade.
As experiências dos Kaingang em suas formações educacionais demonstram diversos caminhos que trilharam e de modos diferentes. Na T.I. Apucaraninha a experiência da APEARTE com o projeto PERI é constantemente relembrada pelos Kaingang. Trata-se de um grande momento de formação escolar nas aldeias, que contribuiu na formação de três desses Kaingang e na preparação para atuação profissional nas escolas, onde começaram a atuar como professores bilíngues, inclusive trabalhando junto à equipe do Projeto PERI.
Por outro lado, Marcela apresenta uma relação conflituosa com a escola na cidade que irrefletidamente propagava a “folclorização” da cultura indígena, que se manifestou de maneira ofensiva. Sem maior preocupação da equipe escolar em trabalhar com as diferenças que não se encontravam apenas em sala de aula, mas em outros momentos cotidianos, o constrangimento tornou-se o principal sentimento de Marcela durante as apresentações:
“Por a gente morar em cidadezinhas próximas à aldeia, eles discriminam muito a gente (...) nisso a gente vai se reprimindo, eu lembro que a gente tinha um grupo de dança e a gente ia se apresentar lá na escola que eu estudava, eu tava na 8ª série, nossa, todo mundo vaiou, eu fiquei super mal, com vergonha, não queria mais voltar pra escola, aí, por isso, a gente se reprime.”
Estar na escola significou para muitos ficar entre o controle do corpo e da linguagem, pois em diversos momentos relembravam dos desvios feitos do caminho da
escola para brincarem no rio e em árvores, das proibições em sala de aula61 (principalmente no caso dos Guarani), assim como o controle sobre o que se falava e como se falava. Por outro lado, há quem olhe para a escola e reconheça nela o espaço que marcou os momentos mais especiais que puderam ser vivenciados, onde cada conquista nas disciplinas e mudança de série significava a superação de desafios e abertura de novas oportunidades.
São poucos os acadêmicos aqui mencionados que não se formaram pelo ensino regular: frequentavam a escola na T.I., onde permaneciam até a 5ª série e depois davam continuidade aos estudas na cidade, a fim de concluir o ensino médio. Dos interlocutores Kaingang, quatro deles é que traçaram outro caminho na formação básica por diversas complicações familiares ou relacionadas ao trabalho que, para alguns, tornava-se prioridade.
Esse processo formativo e de relações primeiras com a escola são percebidos nas relações e percepções que constroem na e sobre a Universidade, sendo esse o espaço em que passam a lidar com as expectativas de outro futuro, que não o trabalho braçal na roça e o trabalho agrícola. Os sentidos atribuídos à Universidade, tomando como base os dados aqui apresentados, serão desenvolvidos no terceiro capítulo, aonde irei me aprofundar nas vivências e sonhos construídos durante os anos de graduação. Nesse próximo capítulo, essas informações relativas às flutuações ou “prolongamento da graduação” serão observadas sob o ponto de vista institucional, buscando compreender também os sentidos da “cobrança” e das provocações de participação mais efetiva dos acadêmicos indígenas nos espaços da Universidade.