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Karl Jaspers: nominalmente e exaustivamente citado

3. Por uma clínica das psicoses

3.2. Karl Jaspers: nominalmente e exaustivamente citado

Ao longo da Tese, Jaspers é um nome de destaque entre os autores da linha psicogênica citados por Lacan – Kraepelin, Kretschmer, Bleuler, Janet, Serieux e Capgras. Pelo uso desses autores, Lacan constroi um diálogo que toma um modo muito particular de apresentação dos argumentos clínicos, cujo ápice é o destaque dado à concepção jaspersiana de “„tipos clìnicos‟ definidos por sua estrutura psicopatológica e sua evolução” (Bercherie, 1989: 269) e que serve de apoio, como vimos, à proposta de apresentação de um único caso na Tese. Por meio das „lentes‟ jaspersianas, Lacan lê Kraepelin (Allouch, 1989: 74) e outros autores da linhagem psicogênica de modo a interpretar a oposição processo/desenvolvimento como ressonância de outra oposição – organogênese/psicogênese. Esse movimento torna-se interessante no corpo geral da Tese por possibilitar apresentar a psicose paranoica como efeito de um dado desenvolvimento da personalidade, sendo, portanto, psicogênica e reacional. Ora, esse deslocamento produz de maneira simples uma primeira inclusão do sujeito, a saber, a noção de desenvolvimento e de reação que implica ainda que minimamente uma resposta ativa do doente frente ao meio circundante.

19 No Seminário 3: as psicoses (1956-1957), momento posterior de sua teorização sobre a prática clínica com pacientes psicóticos e seu consequente questionamento sobre a noção de sujeito, Lacan fará duras críticas a Jaspers, mais especificamente em relação à compreensão como método. Por sua vez, Politzer terá seu nome citado muito esporadicamente ao longo da obra de Lacan, usualmente na condição de alerta crítico ao uso abusivo de psicologismos e abstrações.

20 Obviamente a prática clínica com pacientes psicóticos não era uma preocupação que se apresentava, nem mesmo minimamente, no horizonte crítico de Politzer. Sua inquietação girava em torno da construção das teorias psicológicas que reproduziam a mitificação presente na psicologia clássica ao tomar os fatos psicológicos como coisas. Cf. Politzer (1998).

Na obra de Jaspers a noção de reação surge como integrante de uma tríade – desenvolvimento/reação/processo –, em estreita relação com a noção de compreensão. Nesse contexto, o processo é compreendido como descontinuidade de um desenvolvimento, uma mudança da vida psíquica que não é acompanhada de desagregação mental, diferentemente do que defende a concepção organogênica. Ou seja, o argumento lacaniano busca situar o processo mórbido como inseparável da transformação da personalidade após o adoecimento, não podendo, portanto, ser considerado elemento heterogêneo21. Nessa disposição, a economia do patológico estaria calcada sobre a estrutura normal, de tal modo que o delírio pode ser apresentado como homólogo à personalidade.

A noção de processo – no sentido de descontinuidade – presente no argumento de Jaspers será retomada por Lacan em relação à causalidade. Esta será situada no registro do sentido pelo viés da significação; ou seja, a descontinuidade estaria vinculada ao registro da compreensão e não à vida do doente. A Tese tem, assim, seu recorte efetuado: a compreensão é uma relação de sentido, um modo de interpretação do mundo; e a paranoia, um todo positivo e organizado, sem distinção constitutiva entre normal e patológico.

(...) a exigência da análise global da psicose, por si só, vai situar o problema do

sentido e da compreensão no centro de sua problemática na Tese lacaniana, e

acarretar, no seu rastro, todo o malabarismo teórico necessário para reintroduzir a noção de sujeito na reflexão médica sobre a loucura (Simanke, 1993: 57).

Obviamente, os questionamentos de Lacan em torno da noção de sujeito não buscam contemplar os casos de psicose com comprovação orgânica ou quadros de

21 Cabe destacar que, ao tomar as relações de compreensão como relações de sentido, Lacan permite-se costurar seu argumento por meio da noção de interpretação, tomada de Serieux e Capgras. Para estes autores, a interpretação delirante em nada se distingue dos mecanismos normais da crença, da associação de ideias, do raciocínio errôneo e das modificações da atenção.

demência, mas tão somente as psicoses paranoicas nas quais “é impossìvel decidir se a estrutura do sintoma não é determinada pela experiência vital da qual parece ser o traço” (Lacan, [1932] 1975: 139). O que interessa a esse autor no movimento argumentativo da

Tese é destacar os possíveis sentidos construídos pelo sujeito em relação ao seu processo de

adoecimento, articulando significação e compreensão. Para poder pensar o discurso do paciente, o binômio compreender/explicar proposto por Jaspers22 no campo da psiquiatria mostra-se interessante, pois, sendo a compreensão considerada inter-humana, toma como ponto de apoio a noção de mundo humano – ou, nas palavras de Lacan, meio circundante social. Ou seja, cada indivíduo está imerso em relações de compreensão e constitui o mundo por meio dessa apreensão de sentido, que pode ser corrigida – de modo a distinguir normal e patológico – por meio da discordância em relação à medida comum dos sentimentos e atos humanos23. As relações entre doente e psiquiatra seguem a mesma lógica.

A introdução da noção de sujeito na psiquiatria proposta por Jaspers pode ser tomada como efeito de uma crítica conceitual sistemática do discurso psiquiátrico que visa a uma reflexão metodológica sobre a prática clínica no campo da psicopatologia24. Para

22 Para Jaspers, as conexões causais podem ser encontradas nas ciências naturais mediante “observações, experiências, reunião de muitos casos” (Jaspers, 1987: 362-363); no campo da psicopatologia, descobrem-se

conexões causais individuais ou, mais precisamente, apreende-se a significação, “a maneira porque o doente

se compreende a si mesmo” (Jaspers, 1987: 363). Nesse sentido, “a prática da profissão psiquiátrica se ocupa sempre do indivíduo humano todo. É um indivíduo humano todo que o psiquiatra tem sob sua assistência, seus cuidados e tratamento ou que ele recebe para consultas. Como é ainda de um indivíduo humano todo o laudo pericial que ele dá ao tribunal ou a outras autoridades ou para a história. Aqui todo o trabalho se relaciona com um caso particular” (Jaspers, 1987: 11).

23 “(...) Jaspers assinalou que essa alteração esquizofrênica, que haviam tentado compreender como incoerência, dissociação ou discordância, resumia-se afinal numa única impressão: a ininteligibilidade. Isso é que era sentido pelo observador como discordância, ao passo que, aos olhos dos doentes, „não era incompreensìvel em absoluto, mas lhes parecia, ao contrário, bem fundamentado e nem um pouco bizarro‟” (Bercherie, 1989: 267).

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Segundo Bercherie (1989: 263), a Psicopatologia Geral de Jaspers, publicada em 1913, seria a primeira obra (e única, em sua opinião) a fazer uma crítica conceitual sistemática do discurso psiquiátrico. Nesse

esse autor, “a formação nos métodos dá o senso crìtico seguro sobre o sentido e os limites de todo saber e favorece a naturalidade no reconhecimento dos fatos” (Jaspers, 1987: 59). É a própria definição de fato psíquico ou, mais precisamente, o que se permite reconhecer como fato no campo da psicopatologia, que é colocado em jogo. Nesse sentido, a apropriação lacaniana dos questionamentos jaspersianos25 revela-se aceitável no âmbito de uma tese de psiquiatria e, ao mesmo tempo, mostra-se bastante produtiva para sua argumentação por fornecer elementos críticos para a proposta de uma nova categoria psiquiátrica.

Se considerarmos, como afirma Bercherie (1989: 270), que “o espìrito que norteou toda a obra de Jaspers [era]: preservar tudo o que tivesse valor concreto e questionar tudo o que não passasse de elaboração secundária, mesmo provável (...)” terìamos um ponto de aproximação, ainda que terminológico, entre Jaspers e Politzer. As reflexões metodológicas que apontam para uma estreita articulação entre fato e método também seriam elementos de similaridade entre esses autores. No entanto, cabe relembrar que a introdução do sujeito na perspectiva fenomenológica jaspersiana implica o „colocar-se no lugar do outro‟, de modo a compreender suas reações, sejam estas de desconfiança, violência ou desespero. Esse „colocar-se no lugar do outro‟ não conduziria, de certo modo, ao retorno da introspecção, tão combatida por Politzer e arduamente evitada por Lacan ao longo da Tese?

sentido, Jaspers parece ser um bom guia para a proposta lacaniana de crítica das teorias vigentes na psiquiatria de seu tempo, que o conduzirá, como veremos adiante, para fora desse campo.

25

Leguil (1989: 19) alerta: “(...) a tese de Lacan está orientada (...) pelo método herdado de Jaspers, mas se mantém relativamente à distância das conclusões teóricas”.