2.2 O QUE KEN WILBER TEM CHAMADO DE ESPIRITUALIDADE?
2.2.2 ESPIRITUALIDADES E A PSICOLOGIA INTEGRAL/TRANSPESSOAL DE
2.2.2.1 KEN WILBER E AS PSICOLOGIAS TRANSPESSOAIS
Ken Wilber sempre se destacou nos estudos escolares e acadêmicos. Formou-se na graduação de química e biologia com notas suficientes para uma bolsa de pós-graduação em bioquímica/biofísica na universidade de Nebrasca. Mas seus interesses viscerais estavam nas filosofias e religiões orientais, psicologia e metafísica ocidentais. (LIMA, 2014)
O diálogo entre teoria e prática em busca de um “Conhecimento Maior” intensificou as descobertas e percepções de um mundo além do racional. Não bastava ler e ser sensibilizado pela leitura, Wilber foi à procura do toque suave de dimensões até então não vivenciadas. (LIMA, 2014, p. 61 e 62)
Nesse intenso estudo sobre as diversas perspectivas de leitura do humano, Wilber começa a perceber uma variedade de ideias e pensamento ao mesmo tempo que também observa aproximações. A grande questão começa a se delinear: como compreender os fenômenos se as teorias, as explicações existentes davam conta apenas de pequenas fatias de algo que se arquitetava muito além? O transcendente, para Wilber, é muito mais do que o ir além, transcender estar na ordem da compreensão consciente de que não apenas dado somatório de pensamentos dariam conta de interpretar um fenômeno. Wilber prevê uma trama interpretativa que
está atenta a limitação processo de interpretação. O que não faz de sua teoria, ou de sua perspectiva integral a solução para os problemas de interpretação que hoje e sempre vivemos. O diferencial talvez esteja na consciência que se deve ter ao usar tais ideias de que não é possível dar conta de toda uma leitura fenomênica sem considerar os limites que inevitavelmente experimentaremos para dado movimento. E ainda:
Uma coisa é colocar todos os padrões de uma pesquisa transcultural sobre a mesa e dizer: “Todos são importantes!”, e outra, bem diferente, é localizar os padrões que realmente conectam todos esses dados. Descobrir os profundos padrões que conectam é a grande conquista da Abordagem Integral. (WILBER, 2006, p. 34) O que transferimos de pronto para esta dissertação. Para a investigação que propusemos realizar sabemos que compreender as espiritualidades nas perspectivas dos e das estudantes de psicologia das IES, FAFIRE e UFPE, e as implicações deste tema com o seu processo formativo está fadada a uma leitura interpretativa limitada. O que nos exercitamos em fazer foi apontar as limitações que pudemos perceber, sabendo que outras existem e que esse movimento de descoberta é também propulsora de outras pesquisas e assim sucessivamente, na proposta de perceber os padrões que conectam essas ideias e visões. O movimento torna-se dinâmico. Não há um diagnóstico para ser apresentado, há contingências de interpretação e leitura. Esta limitação não está apenas em níveis mais objetivos, como de teorias, aspectos comportamentais, fisiológicos, estruturas sociais e adjacências. Ela também se encontra na cultura, no individual e mais íntimo, nas organizações mais subjetivas que poderemos apontar e ainda em outras dimensões que hoje ainda não temos acesso. Assim sendo ter consciência e apresentá-la, no contraponto de restringir, amplia a leitura já que se sabe ser necessário o constante e dinâmico movimento de estudo, investigação, vivência, ciência.
Wilber estruturou sua vida a partir do aperfeiçoamento em dois planos: o pessoal (Gestalt e psicanálise) e o transpessoal (Zen). Nesse momento percebeu, tanto empiricamente quanto conceitualmente, que a consciência humana já apresentava esses dois níveis e que isso acontecia também na filosofia entre o existencialismo e o transcendentalismo. (LIMA, 2014. p. 62)
Wilber transfere esses níveis de maneira genérica para as perspectivas teóricas que teve acesso sobre a organização do humano: um pessoal e outro transpessoal. Percebendo que havia uma relação entre eles “o nível transpessoal englobava o pessoal, mas o inverso não ocorria” (LIMA, 2014, p. 62).
Ao avançar em seus estudos, observou, mesmo dentro do nível pessoal, perspectivas díspares entre as escolas de psicologia, cada uma trabalhando um aspecto peculiar do humano, e, consequentemente, apresentado funções psicoterapêuticas específicas e constituindo um nível de consciência. [...]No que diz respeito ao nível transpessoal, existe também uma subdivisão em pelo menos dois subdomínios de transcendência, no qual o mais complexo envolve o menos complexo. Assim, a consciência transpessoal transcende todos os níveis da esfera pessoal, o nível transpessoal mais complexo transcende o anterior e todos os níveis pessoais. (LIMA, 2014, p. 63)
Um dos motivos que nos remonta ao estudo da teoria de Ken Wilber para esse texto é a perspectiva de integralidade na compreensão dos fenômenos, além da inclusão da dimensão espiritual nesse contexto. Ele propõe um Sistema Operacional Integrado (do inglês Integral Operating System - IOS), deslocando a ideia de uma sistema de operação integrada em um software para a interpretação de fenômenos de maneira geral e de inter-relação entre pessoas, culturas, sociedades.
Ao usar a Abordagem Integral – um mapa ou sistema operacional integrados –, conseguimos facilitar e acelerar dramaticamente os conhecimentos inter e multidisciplinares, criando assim a primeira comunidade de aprendizagem realmente integral do mundo. (WILBER, 2006, p. 16)
Wilber (2006) propõe uma leitura AQAL7 dos fenômenos. Uma estrutura de desenvolvimento que tangencie os modelos pré-pessoais, pessoais e transpessoais e os compreenda integradamente. O que não significa dizer que as outras formas de pensar as psicologias transpessoais e sues outros teóricos e outras teóricas não dariam conta dessa discussão, muito contrariamente. O que nos limita é a necessidade da escrita em um dado espaço de tempo que precisa dar conta de alguns objetivos estabelecidos, assim a teoria wilberiana por nossa afinidade na estrutura de pensamento e na organização das discussões, nos leva ao referido autor.
Wilber se distancia das psicologias transpessoais e diferencia seu trabalho do movimento conhecido como New Age. Wilber afirma que é crítico com relação a este movimento porque, embora considere que a maioria aponte para a direção certa, não chegam a lugar nenhum. (WILBER, 2010, em entrevista) “Ele se colocou como sujeito e objeto se sua própria pesquisa e, mediante alcance de níveis de
7 AQAL é a abreviação de “todos os quadrantes, todos os níveis, todas as linhas, todos os estados, todos os tipos” (...) AQAL é um outro termo para IOS ou mapa integral; porém usado para designar essa abordagem específica. (WILBER, 2006, p. 34)
consciências mais complexos, pretendeu abordar isso tudo em seus livros. Existe uma intenção espiritual em seu trabalho.” (LIMA, 2014, p. 66) Ele também separa-se do movimento da psicologia transpessoal e continua suas pesquisas e escritos em torno da psicologia integral. Utilizamos o termo abordagem integral/transpessoal porque abrange os escritos de antes e depois de sua cisão total com a transpessoal.
2.2.2.2 A PSICOLOGIA INTEGRAL/TRANSPESSOAL DE KEN WILBER E AS