• Nenhum resultado encontrado

DESCORTINANDO O UNIVERSO

12 KISHIMOTO, 1993 13 KRAMER, 1996

14 CHAVES, op. cit. 15 Ibid.

A edição, em 2000, da obra História das Crianças no Brasil, também organizada por Mary Del Priore,17 traz novas temáticas ligadas à infância, quando agrupa artigos de estudiosos que

vêem o mundo da criança brasileira sob diferentes perspectivas, a exemplo do capítulo Brincando na História, de Raquel Zumbano Altman,18 que constrói uma historiografia do brinquedo, comenta o intercâmbio no brincar, aponta alguns brinquedos entre os índios e cita outros que chegam ao Brasil, vindos do exterior. Seu objetivo é apresentar “[...] para além do lado escuro”, ou a “[...] história da criança simplesmente criança [...]”.19

Esses textos revelam-nos aspectos da vida da criança e também indicam os caminhos que trilharam ao longo da história brasileira, como foi, por exemplo, para as meninas e os meninos órfãos portugueses que vieram de Portugal com os primeiros colonizadores, ou as crianças ainda bem pequenas destinadas à escravidão no Novo Continente e aquelas que serviram como grumetes e mais tarde as que foram para a linha de frente da artilharia, defender a pátria na Guerra do Paraguai.

A obra Os Intelectuais na História da Infância, editada em 2002, organizada por Marcos Cezar de Freitas e Moysés Kuhlman Jr.,20 reúne quinze textos de autores brasileiros e estrangeiros, entre eles alguns estudiosos portugueses como Rogério Fernandes, que tem um longo percurso como pesquisador da educação e da infância. A obra trata de vários aspectos da infância e amplia a possibilidade de descortinamento de pontos ainda bastante nebulosos acerca do mundo da criança, a exemplo do número de concepções e definições sobre a criança e a infância e seu universo.

Esses autores buscam preencher lacunas ainda existentes na historiografia dessa faixa etária do ser humano. Para isso, direcionam seus estudos para a criança circunscrita num dado contexto, priorizando distintos aspectos, na tentativa de compor um quadro de imagens da infância na história. Assim o faz Marcos César Freitas,21 em seu artigo intitulado Da Idéia de

Estudar a Criança no Pensamento Social Brasileiro, estuda os trabalhos de Manuel Bonfim, autor que se preocupa com a criança no processo de escolarização infantil e já no início do século XX inscreve a criança como protagonista do processo social, juntamente com o povo, e não como uma massa

17 PRIORE, Mary del (Org.). História das crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 2000a.

18 ALTMAN, Raquel Zumbano. Brincando na História. In: PRIORE, Mary del. História das crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 2000. p. 230-272.

19 PRIORE, Mary del. Apresentação. In: PRIORE, Mary del (Org.). História das crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 2000b. p. 8-17. p. 14.

20 FREITAS, Marcos Cezar de; KUHLMAN Jr., Maysés (Orgs.). Os intelectuais na história da infância. São Paulo: Cortez, 2002.

21 FREITAS, Marcos Cezar de. Da idéia de estudar a criança no pensamento social brasileiro: a copntraface de um paradigma. In: FREITAS, Marcos Cezar de; KUHLMAN JR., Maysés (Orgs.). Os intelectuais na história da infância. São Paulo: Cortez, 2002. p. 345-372.

a ser modelada. Nesta obra, é analisado o pensamento social acerca da escolarização infantil e onde a criança está ou se situa no processo educativo social.

Um outro estudo, Educação da Infância Brasileira 1875-1983, compõe a obra organizada por

Carlos Monarcha.22 Ele nos traz, por meio de uma discussão a respeito da educação da infância,

elementos elucidativos sobre questões ainda pouco exploradas. Dessa forma, esses textos contribuem para que o universo da criança seja analisado numa perspectiva histórica, principalmente porque a investigação realizada pelos autores concentra-se no último quartel do século XIX, período que interessa a nosso estudo. Embora o conjunto da obra esteja circunscrito às experiências educacionais desse período, nos dá indícios da situação da criança brasileira nesse processo.

Várias são as situações vivenciadas pelas crianças brasileiras nas instituições escolares, submetidas a castigos e maus tratos. Com freqüência, o problema do preconceito foi discutido, como no texto de Zeila de Brito Fabri Demartini23 Crianças como Agentes do Processo de Alfabetização

no Final do Século XIX e Início do XX. Nesse artigo, a autora descreve as várias crianças que transitavam nos diversos espaços brasileiros, o que corrobora a idéia de que não há uma infância única e homogênea. A esse respeito ela comenta:

Para falar da história da infância é preciso, portanto, considerar que a esta sociedade, já extremamente estratificada no século XIX, vieram juntar-se outros grupos, também com suas hierarquizações internas. Não se pode, pois, falar de uma infância genérica. As infâncias foram muitas: as das crianças ricas, filhas de fazendeiros; as das crianças filhas de funcionários, profissionais liberais, comerciantes das cidades; as das crianças filhas de pequenos produtores rurais: os caipiras, caboclos, sitiantes etc. Origens diversas, experiências distintas, histórias que remetem a questões também diferentes, especialmente no tocante à educação.24

Assim, a autora reforça o entendimento de que, para se estudar e/ou analisar o mundo vivenciado pela criança faz-se necessário entender qual a criança e qual infância é a referência. Sem essa orientação, não se consegue ir além do delineamento de um quadro panorâmico de uma infância homogeneizada.

Tizuko Morchida Kishimoto25 faz um resumo histórico a respeito da condição da criança

e sua atividade lúdica desde os tempos antigos, focalizando-a, sobretudo, no cenário nacional. Para estudar os jogos tradicionais da infância no cenário brasileiro, a autora procurou na literatura — Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, Menino de Engenho, de José Lins do Rego —, em

22 MONARCHA, 2001.

23 DEMARTINI, Zeila de Brito Fabri. Crianças como agentes do processo de alfabetização no final do século XIX e início do XX. In: MONARCHA, Carlos (Org.). Educação da infância brasileira 1875-1983. São Paulo: Autores Associados/FAPESP, 2001. p.121-156.

24 Ibid., p. 124. 25 KISHIMOTO, 1993.

textos de folcloristas nacionais e em dados colhidos em crônicas de viajantes, historiadores e artistas registros que informavam como a criança brasileira se comportava nos engenhos de açúcar, no convívio com escravos e índios cativos. Este material permitiu-lhe entender como a sociedade de então percebia a criança e identificar as múltiplas raízes dos brinquedos e brincadeiras tradicionais presentes em nosso cotidiano lúdico.

De acordo com Tizuko Morchida Kishimoto, os jogos infantis tradicionais têm uma força que se explica pelo poder de se expressar pela oralidade e “[...] enquanto manifestação espontânea da cultura popular, os jogos tradicionais têm a função de perpetuar a cultura infantil e

desenvolver formas de convivência social”.26 Para essa autora, a brincadeira tem um importante

papel:

[...] propiciam a socialização, na medida em que permitem a apropriação da cultura infantil necessária para que cada um possa se incorporar a um determinado segmento social. A apropriação da cultura é o mecanismo pelo qual a criança seleciona elementos desta cultura, de imagens traduzindo o universo ambiental.27

Nessa mesma linha de raciocínio, Florestan Fernandes28 evidencia a importância do

folclore, porque há nele aprendizado para todos os indivíduos, sejam eles adultos ou crianças, porque há permanência das tradições culturais sem, contudo, haver cristalização de seus elementos, num fenômeno de inércia cultural. O autor faz referência ao papel educativo desempenhado pelos brinquedos cantados:29

Pelo jogo e pela recreação, a criança se prepara para a vida, amadurece para tornar-se um adulto em seu meio social [...] aprende a agir como “ser social”: a cooperar, a competir com seus iguais, a se submeter e a valorizar as regras sociais existentes na herança cultural, a importância da liderança e da identificação com centros de interesse suprapessoais etc. [...] introjeta em sua pessoa técnicas, conhecimentos e valores que se acham objetivados culturalmente.30

A brincadeira e os folguedos, portanto, possibilitam à criança assimilar elementos próprios do meio em que vive, contribuindo para a construção da cultura lúdica, de culturas da infância com especificidades relativas ao contexto em que esteja inserida, além de participar da produção da cultura geral, como veículo para permanências e mudanças dos elementos que a compõem.

A obra O Brincar e suas Teorias, organizada por Tizuko Morchida Kishimoto,31 é composta

de oito artigos, nos quais os autores trabalham a concepção do brincar nas seguintes áreas do

26 Ibid., p. 15. 27 Ibid., p. 56.

28 FERNANDES, Florestan. O folclore em questão. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

29 Segundo o autor, atividades lúdicas cantadas, como por exemplo, brincadeira de “brincar de roda”. 30 FERNANDES, 2003, p. 66-67.

conhecimento: sociocultural, filosófica e psicológica. A perspectiva desses autores acerca dos elementos que compõem o universo lúdico reforça nossa argumentação de que a criança se situa em seu mundo e no mundo do adulto por meio da realização de suas práticas lúdicas. Artigos como o de Gilles Brougère32 contribuem para ampliar nossa reflexão sobre a cultura lúdica, mostrando-nos como esta se forma e se diferencia da cultura geral, bem como o processo de mudança e permanência de elementos das tradições.

Tizuko Morchida Kishimoto,33 no artigo Froebel e a Concepção de Jogo Infantil, traz um outro ponto: a valorização da natureza livre infantil traçada por Froebel, constatando a importância do brincar enquanto fio condutor da pedagogia educativa para o desenvolvimento intelectual da criança, cujas discussões elucidam questões que serão analisadas no decorrer deste trabalho.

Dessa forma, esses pesquisadores foram descortinando um outro papel da criança como ser histórico-social e produtor de cultura. No entanto, nesse quadro, os jogos e as brincadeiras são vistos como elementos educativos de formação ou como meio de entender o desenvolvimento e o comportamento da criança no enfoque psicológico. Como se observa nesse corpus documental, os estudos voltados para a história da infância não tratam os elementos do universo lúdico, jogo, brinquedos e brincadeiras como lugar das relações sociais da criança que é o ponto de concentração desta pesquisa.