Na literatura científica são raros os estudos que abordam o conhecimento práticas e atitudes sobre tuberculose e HIV/aids, em especial entre travestis e mulheres transexuais. Os já existentes e os realizados com outras populações consideraram que o conhecimento sobre estes agravos da saúde é fundamental para a redução do estigma que os envolve (ROY et al.,2008; MACIEL et al.,2005).
Entre a comunidade de ajuda internacional há uma concordância de que a melhoria das condições de saúde das pessoas vivendo em situação de miséria e pobreza no mundo está sujeita ao entendimento correto dos aspectos socioculturais e econômicos. Este pensamento advém dos resultados obtidos através de vários estudos transversais que utilizaram como instrumento de pesquisa o questionário KAP, do inglês, Knowledge,
Attitudes and Practices (LAUNIALA, 2009).
Este instrumento teve sua origem na década de 1950 e foi desenhado para estimar a resistência entre as diferentes populações em relação à ideia do planejamento familiar. Estes estudos foram conduzidos em mais de uma centena de países sob a coordenação do "The Population Council" (Berquó, 2008).
Trata-se de um estudo representativo de uma determinada população com a coleta de informações sobre o que é conhecido, acreditado e feito em relação a um tema específico (WHO, 2006).
Na maioria das pesquisas KAP os dados são recolhidos através de uma entrevista, utilizando-se um questionário estruturado e padronizado, já utilizado em várias pesquisas no Brasil e também em outros países, e estabelecem os seguintes conceitos para conhecimento, atitudes e práticas:
1- O conhecimento constitui-se na lembrança de acontecimentos ou fatos transmitidos pelo sistema de educação do qual o indivíduo
participa, emitindo conceitos com o entendimento adquirido sobre determinado assunto ou evento (ALVES et al., 2008).
2- A atitude é a norma de proceder, opinar e crer sobre algum determinado argumento ou fato (ALVES et al., 2008).
3- Prática é um processo de tomada de decisão na execução de uma ação (ALVES et al., 2008).
O interesse das organizações de ajuda internacional pelas perspectivas da comunidade e do comportamento humano em resposta às abordagens de cuidados primários de saúde, fez com que o questionário KAP se transformasse num dos instrumentos mais utilizados para investigações sobre conhecimento, atitudes e práticas em saúde (HAUSMANN-MUELA et al., 2003; MANDERSON e AABY, 1992).
Neste sentido há o exemplo da parceria Stop-TB e fundo Global de combate à TB através da adoção do sistema DOT, do inglês Directly
Observed Treatment (Tratamento Supervisionado), ou DOTS – Directly Observed Treatment Supervised (Tratamento Supervisionado de curto
prazo). Esta estratégia estimulou a mobilização social e pesquisas que envolvem o conhecimento, práticas e atitudes da população em relação à TB na busca de informações sobre o conhecimento e crenças a respeito da doença (WHO, 2006).
Alguns destes estudos foram conduzidos pelos programas de tuberculose de vários países, onde há maior incidência da TB, com o objetivo de trazer a sustentabilidade social e mudança comportamental. Considera-se que a mudança de comportamento em relação à TB está diretamente relacionada ao conhecimento, práticas e atitudes em relação à doença (OTTOMANI et al., 2008; MAHER et al., 2007).
Por meio destas pesquisas os programas de controle da tuberculose têm a oportunidade de construir provas necessárias para demonstrar as contribuições de ACMS para o controle da TB, resultando no uso mais
eficiente dos recursos limitados e produzindo desejadas mudanças comportamentais em relação à doença. A pesquisa KAP pode ser concebida especificamente para reunir informações sobre temas relacionados à tuberculose, mas pode também incluir questões sobre as práticas de saúde geral (WHO, 2006).
Nas últimas décadas vários autores relataram que o conhecimento é um fator que influencia as práticas relacionadas à saúde e que os programas, em suas ações de prevenção junto às populações mundiais, devem abordar também fatores socioeconômicos, ambientais e estruturais em seus planejamentos (LAUNIALA e HONKASALO, 2007; FARMER, 1997; BALSHEN, 1993).
Outros concluíram que a socialização do conhecimento sobre a tuberculose, seus sinais e sintomas, formas de transmissão, prevenção, tratamento e cura podem colaborar para o controle da doença e adesão ao tratamento, bem como para a redução do estigma em relação aos doentes de TB em todo o mundo (WOITH et al.,2010; JITTIMANEE et al., 2009; MOHAMED, et al. 2007; MACIEL et al.,2005; SRIDHAR et al., 2000; SAVICEVIC et al., 2000).
Diversos estudos afirmaram que a sociedade civil, quando focada nas ações de ACMS, pode contribuir para a melhoria das condições de vida das pessoas afetadas pelos agravos da saúde, trazendo a sustentabilidade social e a mudança comportamental, reduzindo a prevalência da doença (SANTOS e GOMES, 2007; WHO, 2006). No caso da tuberculose estas ações podem contribuir para a procura de atendimento médico e para adesão ao tratamento (BIRUNGI et al.2010).
Um papel cada vez mais importante, e comum para as pesquisas KAP, é fornecer dados essenciais que demonstram o impacto das atividades de ACMS. Estes dados podem ser analisados quantitativamente ou qualitativamente, dependendo dos objetivos e desígnio do estudo. Os dados
da pesquisa KAP são essenciais no auxílio de planejamento e avaliação do trabalho de ACMS (WHO, 2006).
Uma pesquisa KAP - TB reúne informações sobre o que os participantes conhecem sobre a tuberculose, sobre as pessoas com TB ou sobre a resposta do sistema de saúde em relação à doença e ainda, o que eles realmente fazem em relação à procura de tratamento ou outras medidas relacionadas à doença. Pode também identificar os conhecimentos, crenças culturais ou comportamentais que podem facilitar a compreensão e ação, bem como identificar problemas, barreiras ou obstáculos criados nos esforços de controle da TB (FERREIRA et al., 2013; TARIQ, 2008; ROY et al., 2008).
Neste sentido a utilização do KAP possibilita conhecer se há falta de consciência em relação à tuberculose, as atitudes negativas e positivas associadas à doença e se o estigma da TB também pode influenciar no diagnóstico precoce, adesão ao tratamento e cura (PCI, 2010)
Desta forma, considerando-se as condições de vida e saúde deste grupo, o reduzido acesso à informação e aos serviços de saúde e a invisibilidade nos dados oficiais de saúde; a realização de estudos que abordem o conhecimento, atitudes e práticas sobre a tuberculose entre transgêneros e transexuais, poderão subsidiar o planejamento de ações e desenvolvimento de estratégias de prevenção, focadas no controle da doença.