Capítulo III – MEMÓRIA E GENEALOGIA DA MODERNIDADE
3.6 Koselleck e o “futuro passado dos tempos modernos”
O historiador Koselleck (2006) concebeu uma forma original de demarcar as fases originais dos tempos modernos, referendo-se, em princípio, ao famoso quadro do pintor Albrecht Altdorfer, a Batalha de Alexandre110. Koselleck (2006) lança, então, a pergunta: o que aconteceu
nos trezentos anos que separavam o pintor, Altdorfer e o filósofo, Schlegel? Essa questão sintetiza sua tese. Nos três séculos entre os anos de 1500 e 1800 ocorreu uma temporalização da História que apresentou, ao seu final, uma forma peculiar de aceleração que caracteriza a modernidade. Desenvolveu-se, naquele período, uma concepção de futuro através das sucessivas gerações que veio a chamar de futuro passado.
O marcos do início e do fim do período considerado pelo historiador foi a Reforma e a Revolução Francesa, sendo esta derivada daquela. Uma precipita um conjunto de situações de mudança e a outra os condensa. Parte de duas personagens essenciais dos processos, quando
110 Pintado em 1528, sob encomenda do Duque Guilherme IV da Baviera, a obra revela tanto uma
contemporaneidade quanto uma dimensão atemporal. Quase trezentos anos depois, o filósofo Friedrich Schlegel ao admirá-lo, confere à obra uma dimensão temporal que faltara ao seu autor, ao perceber que nos três séculos que os
afirma que Lutero acreditava que os acontecimentos que precipitara foram comprimidos em uma única década e essa abreviação temporal indicava que o fim do mundo se aproximava com uma velocidade maior, embora não se pudesse precisar a sua data. A outra questão é trazida através de Robespierre, em 1793, no famoso discurso sobre a Constituição revolucionária, onde afirma que:
“o progresso da razão humana preparou esta grande Revolução, e vós sois aqueles sobre os quais recai o especial dever de acelerá-la.” Koselleck (2006) assim os resume:
(...) Para Lutero, a abreviação do tempo é um sinal visível da vontade divina de permitir que sobrevenha o Juízo Final, o fim do mundo. Para Robespierre, a aceleração do tempo é uma tarefa do homem, que deverá introduzir os tempos da liberdade e da felicidade, o futuro dourado. Ambas as posições, assim como o fato de que a Revolução derivou da Reforma, marcam o início e o fim do período de tempo aqui considerado. (p. 25).
A linha que une um ponto ao outro é o fato de que a Reforma alterou a hierarquia entre Religião e Política, pois até então, a Igreja Romana conseguia manter sob o mais rígido controle todas as visões e todos os visionários. Os casos contemporâneos da proibição da doutrina joaquimita do Terceiro Reino, das condenações à fogueira de Joana D’Árc e de Savonarola, atestam que as profecias pós-bíblicas tinham de ser dizimadas. A unidade da Igreja não podia ser ameaçada e a sua unidade se fundava na garantia de ordem até a chegada do fim do mundo e ela, somente ela, detinha o monopólio de antevê-lo para assegurá-lo. O eschaton sob seu rígido controle era a condição da unidade, porém se as figuras do Apocalipse se temporalizassem o efeito gerado seria o contrário- desintegrador. Diz-nos o autor:
(...) Assim, na qualidade de elemento constitutivo da Igreja e configurado como o possível fim do mundo, o futuro foi integrado ao tempo; ele não se localiza no fim dos tempos, em um sentido linear; em vez disso, o fim dos tempos só pode ser vivenciado porque sempre fora colocado em estado de suspensão pela própria Igreja, o que permitiu que a história da Igreja se perpetuasse como a própria história da Salvação. (p. 26).
Os processos desencadeados pelos reformadores, Zuinglio e Calvino, puxados por Lutero, irão fugir de qualquer controle eclesial. Já não mais se identificam “paz” e “unidade religiosa”, pois não houve apenas a quebra da unidade, mas sobretudo a Política irá sobrepor-se, quase sempre de maneira sangrenta, à Religião. Convém agregar aqui, apenas para reforçar a tese de
Koselleck (2006), a expressão do historiador francês, Delumeau (1999), reportando-se ao mesmo tema:
[…] o protestantismo se servira do Apocalipse como de uma arma contra o catolicismo ao afirmar – e eu penso que no espírito de Lutero e de muitos protestantes não se tratava só de argumentos polêmicos mas de verdadeira convicção – que o papa era a Besta do Apocalipse, e Roma, a Babilônia moderna.A partir desse diagnóstico, você compreende que se podia dizer tudo contra a Igreja Católica. Esta portanto procurou abafar os discursos que se voltavam contra ela. A partir do Concílio de Trento a Igreja Católica se recobra, se desembaraça de alguns de seus defeitos internos e insiste mais no julgamento particular do que no Juízo Final, associado demais às profecias escatológicas. ( p. 97).
No momento em que as querelas e os conflitos religiosos são submetidos aos interesses imediatistas, portanto temporais dos chefes políticos, Koselleck (2006) apresenta duas questões, argüindo sobre as conseqüências em que a nova hierarquia entre religião e política se forjou para formar a experiência moderna do tempo e que tipo de deslocamento do futuro ajudou a moldar. Alinha, então, os cinco pontos que se seguem:
Em primeiro lugar: depois de mais de um século de conflitos sangrentos, houve o reconhecimento de que as guerras civis religiosas não prenunciavam o Juízo Final, mas anulava o que no passado se acreditava. Confirmando um processo que já vinha se desenvolvendo, constituiu-se uma nova concepção de futuro, tanto que as idéias sobre o fim do mundo iam, com freqüência cada vez maior, sendo adiadas.
Em segundo lugar: o importante papel desempenhado pela astrologia, tendo atingido o seu apogeu no Renascimento e se deixado aproximar pelas ciências naturais, sendo por elas desbancadas111 e, por conseqüência, as previsões escatológicas foram lançadas para momentos cada vez mais distantes e por causações naturais.
Em terceiro lugar: o empalidecimento das previsões do fim dos tempos retira do Sacro Império Romano-Germânico, a sua função escatológica. O Tratado de Paz da Westfália (1648) evidencia que a paz -mesmo que a paz possível- tornou-se uma tarefa do sistema europeu de Estados. Merece destaque a figura de Jean Bodin112, o criador do moderno conceito de soberania,
111 Dá o exemplo de Nostradamus que formulou um conjunto de oráculos não datados, no que veio a aumentar o
fascínio sobre o futuro.
112 BODIN, Jean. Recueil journalier de tout que s’este négocié en la compagnie Du tiers Estat de France, en
l’assemblée génerale des trois Etats assignez par le Roy en la ville de Blois au 15 novembre 1576. Paris, Bibliotheque Nationale de France.
que além de ter tido o mérito de desmembrar a história sacra, a história humana e a história natural, transformou a questão do fim dos tempos em um problema de cálculo, fosse astronômico ou matemático. Destacando a história humana, Bodin dessacraliza e legitima o Estado moderno, desde que submetesse os partidos religiosos, pois por não ter meta a atingir, é o campo da probabilidade e da manifestação da inteligência humana.
Em quarto lugar: o nascimento do Estado absoluto autônomo veio acompanhado de uma permanente luta contra as profecias religiosas e políticas de todo tipo. Essa repressão sobre as visões antecipatórias, as profecias apocalípticas e astrológicas, fez o nascente Estado moderno apropriar-se do monopólio que anteriormente era da velha Igreja Católica, o de controlar e manipular o futuro. O que anteriormente era fator basilar da unidade religiosa é substituído pelo simples cálculo político: “Em vez do fim do mundo previsto, um tempo diferente e novo foi
inaugurado”, afirma Koselleck (2006).
Em quinto lugar: foi possível referir-se ao passado como a uma idade média. Já estava assentada, desde o Humanismo, a divisão triádica Antiguidade, Idade Média e Idade Moderna que foi disseminada na segunda metade do século XVII. Embora parcialmente válido conforme as diferenças nacionais e de classes, o homem europeu adquiriu a consciência de viver na modernidade. Completava-se a temporalização da História.
As previsões e as profecias entraram em colapso, os esboços do porvir, porém, ganharam novas formas e vieram a substituir a idéia do futuro como fim. Koselleck (2006) apresenta-nos dois tipos que, embora de formas diferentes, ainda remetem às antigas profecias sagradas: o prognóstico racional e a filosofia da história.
Contrapondo-se a elas, a previsão racional, o prognóstico, deriva da difícil arte do cálculo político, especialmente desenvolvida na Itália renascentista e nos gabinetes das cortes européias dos séculos seguintes. Aponta como motto dessa arte uma citação de Aristóteles lançada na literatura política por Guicciardini113: “De futuris contingentibus non est determinata veritas”
{“Permanece indeterminada a verdade sobre acontecimentos futuros}), ao que agrega o seu
próprio comentário de que, embora o que se escreva sobre o futuro possa ser de agradável leitura, revela pouca ou nenhuma utilidade “uma vez que, ao longo dessas considerações, cada
conclusão é derivada de outra, o edifício inteiro pode ruir, no caso de apenas uma delas estar errada.”(p 35).
O número de probabilidades oferecido pelo futuro torna-se limitado, o que não se
distancia muito da percepção de Jean Bodin em sua história humana. O cálculo político se desvia da compreensão de futuro admitida pelos partidos religiosos. Em sua certeza da iminência do Juízo Final era natural, para eles, a alternativa entre o Bem e o Mal, como condutora das ações humanas. Aos políticos, o julgamento moral orientava-se pela medida de um mal maior ou menor. Um claro exemplo é o do realismo político do cardeal Richelieu que se assegurava da capacidade de prever os acontecimentos e ousava afirmar ser mais importante pensar no futuro do que no presente. Koselleck (2006) assim o sintetiza:
(...) O prognóstico é um momento consciente da ação política. Ele está relacionado a eventos cujo ineditismo ele próprio libera. O tempo passa a derivar, então, do próprio prognóstico, de uma maneira continuada e imprevisivelmente previsível. O prognóstico produz o tempo que o engendra e em direção ao qual ele se projeta ao passo que a profecia apocalíptica destrói o tempo, de cujo fim se alimenta. […] Por seu caráter variável, as profecias podem ser prolongadas a qualquer momento. Mais ainda: a cada previsão falhada, aumenta a certeza de sua realização vindoura. Um prognóstico falho, por outro lado, não pode ser repetido nem mesmo como erro, pois permanece preso a seus pressupostos iniciais. (p. 32).
O advento da filosofia da história permitiu o desligamento do passado, ainda sob regimes absolutistas emergiu uma consciência de tempo e de futuro, combinando política e profecia. Um futuro agora inédito inaugura a modernidade. O século XVIII foi pródigo em produzir prognósticos racionais e previsões salvacionistas. Tanto que irão influenciar, sobremaneira, a filosofia do progresso, considerando um dado que reforça a mudança de hierarquia, da religião para a política.
Do mesmo modo que o não-advento do fim do mundo havia consolidado a permanência e a unidade da Igreja, forjando um tempo estático, percebido como tradição, o cálculo político moderno, na forma de prognóstico, teve de manter esse caráter estático, também para manter-se. Koselleck (2006) o traduz bem nesse trecho: “O prognóstico implica um diagnóstico capaz de
inscrever o passado no futuro.” (p. 45) E acrescenta que o futuro desse progresso contém dois
momentos: uma aceleração com que se põe à nossa frente, primeiro; depois, por possuir um caráter desconhecido. Daí que:
(...) O tempo que assim se acelera a si mesmo rouba ao presente a possibilidade de se experimentar como presente, perdendo-se em um futuro no qual o presente, tornado impossível de se vivenciar, tem que ser recuperado por meio da filosofia da história. Em outras palavras, a aceleração do tempo, antes uma categoria escatológica, torna-se, no século XVIII, uma tarefa do planejamento temporal, antes ainda que a técnica assegurasse à aceleração um campo de experiência que lhe fosse totalmente adequado. (p. 37).
A aceleração dos eventos irá provocar uma tentativa de adiamento, contribuindo para a antecipação do tempo histórico, alternando reação e revolução. No século XVIII, reação ainda era empregada de forma mecanicista, uma tentativa de deter a mudança, a palavra revolução – que por largo tempo foi usada na descrição do movimento dos astros e usada em história para a descrição de ciclos- adquire, justamente o significado de mudança, de direção irreversível.
O problema é que a projeção dos atores em uma situação final determinada gerou um pretexto para que o processo histórico se furtasse ao olhar dos homens do presente. Ainda é pertinente um prognóstico que venha a ultrapassar o cálculo racional da política, relativizando o projeto da filosofia da história, nascida naquele contexto que propôs um projeto que não se realiza ou nunca se realiza por inteiro. Implica em continuar a indagar como Tocqueville que, algumas décadas mais tarde, afirmava em seu livro “A Democracia na América” 114: “Eu
percorro os séculos até a mais remota Antiguidade; não percebo nada que pareça ao que há sob meus olhos. Se o passado não ilumina o futuro, o espírito marcha nas trevas.” Sobre tais
argumentações prosseguiremos a análise.