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Ao definirmos a cidade que estamos estudando e sua relação com o “capitalismo periférico” nos vemos às voltas novamente com a obra de Henri Lefebvre (1991); apesar das particularidades que o modo de produção assume em nosso país, ainda permanece

identificado, em linhas gerais, com o capitalismo internacional, e consequentemente com a grande temática contemporânea da re-produção das relações sociais de produção. Ao trazermos essa discussão para nosso contexto urbano, estamos nos propondo a compreender o lugar da “cidade excludente” no atual estágio do capitalismo brasileiro.

Para Lefebvre, a re-produção das relações sociais de produção não coincide com a reprodução dos meios de produção, se realiza no cotidiano, por meio dos lazeres e da cultura, da escola e a universidade. Esta dimensão da vida social já nos foi sugerida por Vera Telles, mas com o autor ela ganha contornos mais precisos, que a concebe como o lugar onde os fluxos globais da divisão socioespacial do trabalho e da acumulação e dominação capitalistas se materializam, adquirem sentido, redefinem e embaralham a escala local dos lugares e de suas fronteiras.

Ele [o cotidiano] se torna o plano sobre o qual se projetam os claros e os escuros, os vazios e os cheios, as forças e as fraquezas dessa sociedade. Forças políticas e formas sociais convergem nessa orientação: consolidar o cotidiano, estruturá-lo, torná-lo funcional. [...] O Novo, de alguns anos para cá, é que as consequências da industrialização, numa sociedade dominada pelas relações de produção e de propriedade capitalistas (um pouco modificadas, mas conservadas em sua essência), se aproxima de seu termo: uma cotidianidade programada num ambiente urbano adaptado para esse fim. A cidade tradicional explode, enquanto a urbanização se estende, o que permite hoje semelhante empresa. A cibernetização da sociedade corre o risco de produzir-se por este caminho: organização do território, instituição de vastos dispositivos eficazes, reconstituição de uma vida urbana de acordo com um modelo adequado (centros de decisão, circulação e informação a serviço do poder) (LEFEBVRE, 1991 p.73).

Ao tomar a cotidianidade como objeto tanto no plano teórico como político, Lefebvre acrescenta outra problemática cara ao marxismo, a construção de hegemonia. Promove a discussão acerca da relação entre a produção de hegemonia e a produção social do espaço enquanto lugar e expressão fundamental da re-produção.

O conceito de hegemonia, introduzido por Gramsci [...] permite ainda analisar a ação da burguesia, em particular no que concerne ao espaço [...]. A hegemonia se exerce sobre a sociedade inteira, cultura e saber incluídos, o mais frequente por pessoas interpostas: os políticos, personalidades e partidos, mas também muitos intelectuais, cientistas. Ela se exerce, portanto, sobre as instituições e sobre as representações. [...] Como a hegemonia deixaria de lado o espaço? Este seria apenas o lugar passivo das relações sociais, o meio de sua reunificação tendo tomado consistência, ou a soma dos procedimentos de sua recondução? Não. Mais adiante se mostrará o lado ativo (operatório, instrumental) do espaço, saber e ação, no modo de produção existente. Será mostrado que o espaço serve e a hegemonia se exerce por meio do espaço constituindo, por uma lógica subjacente, pelo emprego do saber e das técnicas, um ‘sistema’ (LEFEBVRE, 2006, p.29).

As principais concepções de sua obra que gostaríamos de incorporar a este trabalho são a ideia da realidade social, enquanto um processo, a noção de totalidade, o cotidiano como lugar onde se realizam as práticas socioespaciais e, por fim, a hegemonia. Cremos que a partir

delas teremos condições de abordar o processo de produção da cidade de Curitiba como um processo total, que compreende diversas esferas da vida social. Mantendo em mente que a apreensão da dinâmica da re-produção das relações sociais de produção, bem como da dinâmica de produção de hegemonia, demanda a compreensão do papel do espaço social junto à dinâmica de re-produção das relações sociais de produção.

Em nossas periferias são os mercados imobiliários informais que consolidam, estruturam e atribuem funcionalidade ao cotidiano, e o inserem no processo de produção de nossas cidades. Abordar essa dimensão a partir dos MIS nos dá a chance de superar as duas principais críticas feitas por Kowarick aos estudos urbanos desenvolvidos no país: de apresentar uma estrutura sem sujeitos; e de realizar um estudo limitado ao nível micro, localizado e pouco generalizável. Faremos isso ao focar nossa análise na atuação dos próprios moradores no processo de produção de seu bairro, por meio de sua participação na organização do MIS durante o movimento de ocupação da região.

O próprio Kowarick trabalhou nesse sentido, ao procurar instrumentos teóricos que lhe permitissem apreender os sentidos das ações dos sujeitos em meio aos processos em andamento, com a atualização da noção de “espoliação urbana” (2000), esperava superar as limitações das perspectivas teóricas que monopolizavam a Sociologia Urbana no país. Ao reposicionar a noção, passa a pensar a reprodução urbana dos trabalhadores para além da questão da reserva de mão-de-obra160, deixando de atrelar a análise das condições urbanas de existência unicamente à expansão capitalista, e de deduzir as lutas sociais da precariedade que as caracterizam; ao invés disso, indaga o significado que essa materialidade tem para os indivíduos no mundo social. Com isso a subjetividade ganha peso, em seu sentido social, da percepção coletiva do conjunto de extorsões espoliativas.

“Subjetividade social”, na acepção de produção simbólica realizada por atores coletivos que vivenciam, interpretam, confeccionam discursos com seus sinais positivos e negativos sobre uma determinada situação concreta: o ensaísmo da questão da dignidade, as reflexões advindas da filosofia política sobre o tema dos carecimentos e a historiografia, marxista ou não, que ao refletir sobre as dinâmicas da insubordinação ou da obediência, introduzem a problemática da economia moral e da justiça, constituem alguns empenhos que procuram discutir a vasta e aberta problemática dos movimentos e das mudanças sociais (KOWARICK, 2000 p. 106).

Não basta falar dos efeitos nocivos da exploração sofrida em termos quantitativos, mas focar, principalmente, no significado que são atribuídos a esses processos. A questão _______________

160Esta uma noção presa às determinações macroestruturais.

passou a ser como são produzidas as experiências coletivas daqueles que vivenciam essas formas de exclusão161,

trata-se de alargar a noção de exclusão social e econômica: ela não é apenas a materialidade objetiva que decorre primordialmente do processo de venda de força de trabalho e do seu desgaste, que no caso das cidades supõe também o acesso aos bens de consumo coletivo (KOWARICK, idem p. 83).

A análise da vida urbana deve privilegiar a forma como os sujeitos vivem, aí que o autor recorre à experiência na acepção de Thompson, porque, segundo ele, essa é uma realidade que só pode ser entendida quando observada também em sua magnitude valorativa e simbólica162. Essa é uma categoria que nos possibilita analisar comportamentos, condutas e costumes em sua relação com a cultura particular de uma época ou de uma classe social, datada histórica e geograficamente.

A experiência de classe é determinada, em grande medida, pelas relações de produção em que os homens nasceram - ou entraram involuntariamente. A consciência de classe é a forma como essas experiências são tratadas em termos culturais: encarnadas em tradições, sistemas de valores, idéias e formas institucionais. Se a experiência aparece como determinada, o mesmo não ocorre com a consciência de classe (Thompson, 1981 p. 10).

Nós também a trazemos para nosso trabalho; ela nos possibilita abordar a cultura da cidade de Curitiba e das pessoas que participaram do movimento de ocupação que originou o Bolsão Audi-União. Veremos como, através de suas próprias experiências, homens e mulheres se tornam sujeitos: indivíduos que vivenciam as situações e relações produtivas determinadas como necessidades e interesses, e ainda como antagonismos, e em seguida trabalham essas experiências em sua consciência e cultura para agir sobre determinadas condições sob as quais existem. Por relações determinadas entendemos as relações estruturadas em termos de classe, dentro de formações sociais particulares. Ao entender a cultura como componente ativo de análise histórico-social, Thompson reconhece que a experiência vivida, além de pensada, é sentida pelos sujeitos.

As pessoas não experimentam sua própria experiência apenas como idéias, no âmbito do pensamento e de seus procedimentos [...]. Elas também experimentam sua experiência como sentimento e lidam com esse sentimento na cultura, como normas,

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161Social, econômica ou política.

162 A reprodução da força de trabalho não se esgota no equacionamento da funcionalidade da exploração capitalista, deste modo crianças, jovens, mulheres apresentam potencial de historicidade quando vistos por um olhar que não os reduz ao elo mais fraco da cadeia que engrena o exército industrial de reserva com a mão de obra engajada na produção.

obrigações familiares e de parentesco, e reciprocidades, como valores ou (através de formas mais elaboradas) na arte ou nas convicções religiosas (Thompson, 1981, p.

189).

Sua utilização modifica a perspectiva inclusive sobre elementos centrais do meio urbano, como a “casa própria”. Kowarick argumenta que essa não pode apenas ser vista como mero abrigo que protege os trabalhadores contra as intempéries do sistema econômico, nem simplesmente um recurso do “capitalismo periférico” para rebaixar os custos de reprodução da força de trabalho. Ela é muito mais do que isso. Se fosse assim tão limitada pelas determinações macroestruturais, qualquer alternativa histórica estaria negada de antemão.

Numa aproximação entre Lefebvre e Thompson nos arriscamos a dizer que a experiência cotidiana dos excluídos nos apresenta outros significados para a “casa própria”, bem como para o processo de produção social da cidade.

Com esse reposicionamento da noção, Kowarick espera tê-la adequado aos vários aspectos das exclusões sofridas pelos moradores e trabalhadores das cidades, principalmente no que se refere ao lento e oscilante processo de institucionalização de direitos – uma discussão que também nos é muito cara e será realizada nos próximos capítulos. Na verdade, essa é a grande questão que tem se afirmado no meio urbano nas últimas décadas: apesar do país ter avançado em vários pontos como na consolidação de um regime democrático, isso não foi acompanhado pela ampliação dos direitos sociais.

Em particular, da igualdade perante a lei, da própria integridade física das pessoas e dos direitos sociais – acesso à moradia digna, serviços médico-hospitalares, assistência social, níveis de remuneração adequados. Isto para não falar no desemprego, nas múltiplas modalidades arcaicas e modernas de trabalho precário, autônomo e assalariado, ou na enorme fatia das aposentadorias que produz uma velhice muitas vezes marcada por acentuados graus de pobreza. Em suma:

vulnerabilidade em relação a direitos básicos, na medida em que os sistemas públicos de proteção social não só sempre foram restritos e precários como também, em anos recentes, houve desmonte na perda de direitos adquiridos (KOWARICK, 2009, p. 67-68).

Nossa conceituação de “cidade excludente” segue essa orientação, tomando exclusão não apenas no sentido econômico, mas também no tocante aos direitos básicos. Pois o espaço das periferias é cada vez mais o lugar por excelência do que o autor define como subcidadania, uma condição de vulnerabilidade no que diz respeito aos direitos básicos dos cidadãos.

Irregularidade, ilegalidade ou clandestinidade em face de um ordenamento jurídico-institucional que, ao desconhecer a realidade socioeconômica da maioria, nega o acesso a benefícios básicos para a vida nas cidades. Não se trata apenas do

inconsciente perverso de tecnocratas bem-intencionados. Trata-se de um processo político que produz uma concepção de ordem estreita e excludente e, ao fazê-lo, decreta uma vasta condição de subcidadania urbana (KOWARICK, 2000, p. 54).

Chegamos então a uma definição mais elaborada da “cidade excludente”: a cidade produzida pelo processo de urbanização empreendido sob o “capitalismo periférico” no Brasil, que possui como principal propriedade a exclusão, infringida a uma parcela significativa da sociedade em termos econômicos, políticos, sociais e espaciais. Esses excluídos são submetidos a uma condição de subcidadania, através do expediente da espoliação urbana. Para nossos fins esta definição basta, embora seja apenas um princípio para debates mais aprofundados sobre os sentidos da exclusão social no meio urbano brasileiro. Nossa construção metodológica está próxima do fim; definimos o lócusde análise e possuímos as categorias que nos permitem conduzir uma análise contemplando as dimensões macro e micro. Mas ainda necessitamos de conceitos para caracterizar as ações dos sujeitos sociais e localiza-las em meio aos processos que se desenvolvem de forma concomitante, para isso recorreremos a outro autor da mesma escola teórica que Thompson.