1. Entre os canteiros da desconstrução
1.2 Desconstrução e a anti-arte
1.2.1. Kraus, Benjamin e a Sprachekritik
Um escritor que parece ter previsto essa situação de degradação e ironia da linguagem denunciada pelos autores da desconstrução foi o austríaco Karl Kraus. Sua capacidade de chocar e zombar da sociedade da época era impressionante:
O mundo está surdo das cadências. Tenho a convicção de que os acontecimentos absolutamente não acontecem mais, mas de que os clichês continuam trabalhando automaticamente. Se, ainda assim, os acontecimentos devessem acontecer, sem serem intimidados pelos clichês, eles cessariam quando os clichês fossem destruídos. A coisa começa a apodrecer da língua. O tempo já cheira mal dos clichês (KRAUS, 2010, p.127).
Kraus viu, em meio a toda confiante frivolidade dos salões da belle époque, prematuramente um tipo de eclipse da linguagem. A filosofia, as artes, a procura pela verdade e a comunicação pública estavam sendo minadas. A propaganda, os instrumentos gerados pelo consumo de massa, os jargões dos publicitários, dos burocratas, dos educadores – tudo isso tornava as pessoas cada vez mais incapazes de dizer a verdade: “A hipocrisia com que os cegos falam das cores é grave” (KRAUS, 2010, p.130).
Todo esse dilúvio de mentiras resultado das propagandas e das mídias de massa formou todo um discurso de ódio e de morte. No meio desse dilúvio, Kraus surgiu com seus aforismos sarcásticos e melancólicos. Seus principais alvos eram a hipocrisia sádica da imprensa, a verborreia dos debates políticos e a erudição vazia disfarçada de algum tipo de argumento filosófico ou de crítica literária. O mundo que Kraus zombava e ria era um mundo enlouquecido por uma tagarelice vazia mas contagiosa. A desvalorização da palavra, segundo o autor, representava fortemente a desvalorização das esperanças e das necessidades humanas. A circulação em massa da palavra apagou tudo o que poderia haver de autêntico nela. Era como se a verdade tivesse ficado muda: “a relação dos jornais com a vida é mais ou mesmo a mesma das cartomantes com a metafísica” (KRAUS, 2010, p.56). A bíblia do homem ocidental da época tinha se tornado o jornal. Kraus usou seu talento como escritor para atacar e parodiar as linguagens artificiais da imprensa. Para ele, a imprensa representava uma infantilização da percepção humana, que preenchia o cotidiano com bestialidades e falsidade, o final do uso responsável da linguagem na busca da verdade e a transformação de todo pensamento e de toda a arte em mercadoria que deve ser negociada. O evangelho nos diz que no começo era o Verbo e Kraus completou dizendo que no seu tempo no começo era a imprensa.
Contemporâneos de Kraus, os positivistas lógicos pretenderam fazer demarcações primárias no interior da linguagem para mostrar que o significado dizia respeito apenas a proposições que poderiam ser verificadas ou falsificadas empiricamente. Dessa forma,
proposições de ordem metafísica – que não eram nem verificáveis e nem eram tautológicas como as da lógica formal – estavam mais próximas da poesia e da narrativa ficcional do que da verdade. Por mais fascinantes e maravilhosas que sejam, não passam de nonsenses. São preposições que se relacionam com o imaginário, o subjetivo e o irracional do ser humano. O metafísico e o teólogo é como alguém irresponsável que nunca conseguiu sair da adolescência filosófica. O prefácio do Tractatus de Wittgenstein, a bíblia dos positivistas lógicos, diz o seguinte:
O livro traça a linha da fronteira do pensamento ou melhor ainda – não do pensamento mas da expressão do pensamento, uma vez que para desenhar para desenhar a linha da fronteira do pensamento deveríamos ser capazes de pensar ambos os lados dessa linha (deveríamos ser capazes de pensar aquilo que não se deixa ser pensado. (...) Assim a linha da fronteira só poderá ser desenhada na linguagem e o que jaz para lá da fronteira será simplesmente não-sentido (WITTGENSTEIN, 1985, p.27).
O grande objetivo dessa Spraschkritik analítica era fazer claramente a distinção entre esses dois mundos de uso da linguagem, para garantir de uma vez por todas a fundamentação das ciência exatas ou naturais, e definir tudo o que pode ser dito ou não de forma demonstrável como sendo verdadeiro ou falso. Para ela, o que possui sentido deve ser capaz de gerar provas. Falar do ser e de transcendência ou da alma e do espírito, como tantas outras coisas que se falava desde o começo do pensamento filosófico, passou a ser visto como uma fofoca metafísica que possui a força de bolhas de sabão. Nenhuma afirmação metafísica pode ser comprovada. Os enunciados científicos podem.
O que não recebeu a devida importância dos lógicos do Círculo de Viena foi o final silencioso do Tractatus de Wittgenstein. Aquilo sobre o que devemos calar é justamente aquilo que a lógica formal e a predicação científica não é capaz de dar conta e é o que há de mais importante. As grandes questões que atormentam a humanidade e todos os dilemas morais dizem respeito a esse silêncio que as ciências e a lógica não dão conta. A transparência gelada e a pureza lógica do discurso analítico surgem, de certa forma, a partir da existência indefinível daquilo que devemos calar. Sobre todas essas questões o positivismo lógico impôs um tipo de mística do silêncio e do nonsense.
Walter Benjamin, o filósofo que sempre chegou cedo demais e o mais francês dos filósofos alemães, também chegou cedo demais para a desconstrução. Sua recusa das formas estabelecidas, sua busca por espaços teóricos alternativos, mais pessoais e mais complexos, em parte aforístico, em parte em prosa, em parte poético e surrealista, tudo isso casaria muito bem com o melhor da desconstrução. Também em razão dos seus usos das artes, não apenas para enfeitar os textos, mas como uma parceira íntima na composição do texto. O fato de boa parte
de seu trabalho teórico permanecer incompleto o faz combinar ainda mais com a imperfeição de muitos textos da desconstrução. Com as portas da academia fechadas, muito cedo Benjamin parou de publicar coisas em sentido sério. Em parte, seu motivo era radical: o autor buscava chegar a uma nova forma de escritura, com novas relações entre as línguas, as citações, o texto e a cidade. Podem existir precedentes e contemporâneos análogos a esse tipo de trabalho, mas creio que Benjamin continua vivo e fundamental.
Uso Walter Benjamin para afirmar o seguinte: toda a vez que a escritura se esforçar para alcançar novas possibilidades, toda a vez que as velhas categorias e as velhas metáforas (no sentido rortiano) forem desafiadas por uma compulsão genuína do escritor, ele irá tentar aumentar seu repertório recorrendo às demais formas de discurso humano (a literatura, a teologia, o cinema). No seu mais importante ensaio sobre a linguagem, Benjamin diz que a linguagem comunica apenas a si mesma, a própria essência (Wesen):
O que comunica a língua? Ela comunica a essência espiritual que lhe corresponde. É fundamental saber que essa essência espiritual se comunica na língua e não através da língua. Portanto, não há falante das línguas, se se entender por falante aquele que comunica através dessa língua (BENJAMIN, 2011, p.52).
Dessa forma, o escritor que tem algo novo a dizer, como era o seu caso, deve construir o seu próprio discurso à revelia, em uma espécie de confronto com a própria linguagem. E sempre que a escrita se aproxima dos limites das suas formas expressivas, chegamos até a praia do silêncio. Não há nada de místico aqui. Toda a vez que o escritor investe contra as grades da linguagem, ele pode descobrir outras dimensões que não podem ser circunscritas pela linguagem que tinha a sua disposição. É por isso que o silêncio sempre teve um papel central no trabalho filosófico do autor alemão.
O que estou dizendo sobre manifestações artísticas e sobre teóricos da linguagem é importante para vermos como uma série aparentemente descontínua e idiossincrática de ataques ao reinado da linguagem, que começa com o dadaísmo e passa por Benjamin, Kraus e o Círculo de Viena, vai desembocar numa nova forma de tratar a linguagem. Estou chamando essa nova forma de desconstrução. Se temos presentes todos esses acontecimentos nas artes e nas críticas da linguagem, podemos ver como a desconstrução, como o sol de cada manhã, era praticamente inevitável.