Conforme assinalado anteriormente, distinto da experiência com a língua materna, à qual atribuímos a função de capturar o infans em seu funcionamento a partir da imersão deste, que ainda não possui nenhum recurso linguageiro para sua expressão, em seu campo, o encontro com uma língua estrangeira se configura como uma experiência efetivamente nova e original para o sujeito, por se caracterizar como uma outra modalidade de apreensão de elementos do campo simbólico: uma aprendizagem.
De fato, além de se constituir como matéria de uma prática complexa, a língua estrangeira se configura, ainda, como um objeto de saber e de uma aprendizagem guiada pela racionalidade, como um conhecimento intelectual que, acionando mecanismos conscientes, demanda uma ação do sujeito em direção a sua apreensão, seja em situações de imersão, seja em contextos tradicionais de ensino e aprendizagem. Por outro lado, no que diz respeito à língua materna, o sujeito tem o sentimento de não tê-la aprendido jamais, devido à naturalidade que parece estar contida no processo de captura.
Aprender uma língua estrangeira, assim, faz com que o sujeito se confronte com sua própria língua e com os diversos elementos a ela associados. Implica, também, que o sujeito seja capaz de inventar novas maneiras de lidar com seu corpo, além de solicitar um rearranjo de elementos abarcados em seus processos de percepção e conhecimento.
Este tipo de embate requer esforços do sujeito, pois, o deslocamento dos elementos da língua materna em relação aos pontos onde foram originalmente marcados
propõe desafios às dimensões física, psíquica e afetiva14 – dimensões que jamais convivem pacificamente ou colaboram umas com as outras (REVUZ 2002) – no sentido de uma assimilação mais ou menos eficiente da nova língua. Sobre isso, Revuz (2002) indica que o
sujeito deve pôr a serviço da expressão de seu eu um vaivém que requer muita flexibilidade psíquica entre um trabalho de corpo sobre os ritmos, os sons, as curvas entoacionais, e um trabalho de análise e de memorização das estruturas lingüísticas (p. 217, grifo da autora).
Revuz (2002) afirma, ainda, que as situações de aprendizagem de uma língua estrangeira fazem com que o sujeito se movimente, imaginariamente, em direção a seu estado de prematuração primordial, algo que, além de uma transgressão, impõe elementos da ordem de uma regressão, que o colocam na situação de não-saber absoluto e o remetem a seu estágio de infans, assinalando sua impotência em se fazer compreender. E em tal movimento de retroação, aspectos das três dimensões acima referidas – física, psíquica e afetiva – se fazem presentes.
No que se refere à oralidade, ao corpo do sujeito são solicitadas habilidades articulatórias (pronúncia) e perceptivas (compreensão auditiva) de fonemas, entonações e ritmos distintos dos abarcados pela língua materna.
A aptidão física plena para esta tarefa parece, entretanto, uma liberdade há muito já esquecida pelo aparelho fonador, tendo em vista ser atribuída aos bebês, durante a primeira infância, a capacidade de articular e pronunciar todos os sons de todas as línguas. Esta habilidade, porém, se perde após o contato com os elementos da língua materna, os quais prevalecem: “o bebê pode pronunciar todos os fonemas de todas as línguas. A aquisição da língua materna vai, portanto, se realizar pela eliminação dos fonemas que não pertencem a essa língua” (RASSIAL, 2005, mímeo).
Lado a lado aos apelos ao corpo está, ainda, a dimensão afetiva, para a qual se colocam questões referentes ao deslocamento do real que a língua materna marca. Nomear e predicar em língua estrangeira, assim, confrontam o aprendiz com um recorte do real diferente do estabelecido pela língua que o causou, recorte que não traz consigo a mesma
14 Cabe observar aqui que a divisão proposta pela autora só é possível na dimensão do Imaginário, tendo em
carga afetiva inerente aos termos que foram cunhados pela língua materna.
Neste sentido, um sujeito nomeia os elementos com o auxílio da língua estrangeira sem que, simultaneamente, predicados sejam a eles conferidos, como acontece na operação com a língua materna. Por este motivo, cada novo termo na língua estrangeira precisa receber um novo sentido e se atar a um novo afeto.
No que diz respeito à esfera psíquica, é uma movimentação do sujeito em relação à língua que o constituiu que se faz imprescindível, tendo em vista que toda e qualquer tentativa de aprendizagem de uma língua estrangeira tende a provocar uma subversão: questionamentos, perturbações, modificações nas inscrições originais, gravadas pela língua materna. Tanto a linha argumentativa deste trabalho quanto minha concepção deste processo não permitem, pois, que todas as marcas e afetos já inscritos no sujeito pela língua materna sejam ignorados ou desconsiderados quando de seu encontro com uma língua estrangeira, pois tais elementos se impõem a esse encontro como aspectos de máxima relevância.
Assim sendo, defendo neste trabalho que é graças à história particular de cada sujeito com sua língua materna, língua que o constituiu e o causou, e graças, também, aos efeitos por ela suscitados, que o encontro com a língua estrangeira ganhará suas configurações.
É de uma nova perspectiva de posição subjetiva que se trata quando do encontro do sujeito com uma língua estrangeira. E estar em uma posição estranha àquela demarcada pela língua constitutiva pode suscitar sentimentos antagônicos e se revelar para o sujeito como perda, como oportunidade única para que a língua materna se renove ou se relativize, ou como uma irresistível descoberta de um novo e promissor espaço de liberdade subjetiva (REVUZ 2002).
Revuz (2002) também aponta que a prática da língua estrangeira solicita algo mais do sujeito, uma vez que questiona seu modo de se relacionar com os outros e com o mundo que o cerca, pois ele se encontra numa nova posição subjetiva, que lhe foi conferida por esta outra língua, e que jamais é a mesma daquela em que ele se encontrava originalmente, forjada pela língua materna.
Além disso, a língua estrangeira desloca o modo de relação imaginária que o sujeito mantém consigo mesmo, com seu ‘corpolinguagem’, com suas marcas originais:
a aprendizagem de línguas estrangeiras esbarra na dificuldade que há para cada um de nós, não somente de aceitar a diferença mas de explorá-la, de fazê-la sua, admitindo a possibilidade de despertar os jogos complexos de sua própria diferença interna, da não coincidência de si consigo, de si com os outros, de aquilo que se diz com aquilo que se desejaria dizer (REVUZ 2002, p. 230).
Sem refletir sobre isso, sem pensar a respeito de si e de sua relação com a língua estrangeira, como é possível a um professor auxiliar os aprendizes a desvendar tais aspectos, explorar e admitir as diferenças, tomá-las em auxílio de sua expressão? Sem considerar a língua estrangeira sob este ponto de vista, como lidar, ao mesmo tempo, com o prazer extremo de alguns aprendizes, flexíveis a e jubilosos com este encontro, e com o pavor de outros em romper com as correntes que os mantêm ligados a sua língua materna?
Para estas questões não há uma resposta pronta, mas há uma indicação: considerar o aprendiz como sujeito irremediavelmente afetado por linguagem, pela língua materna, e pelo que uma língua estrangeira pode demandar. Afinal, como afirma Moraes (1999), cada sujeito, no que se refere às línguas, se posiciona de forma completamente original. E isso, há que se respeitar.
Ainda a este respeito, analisaremos, a seguir, algumas especulações sobre as possíveis posições nas quais o sujeito pode ser colocado pela língua materna a partir da entrada em jogo da língua estrangeira, e as conseqüências que este encontro pode implicar.