2 CAMINHOS TEÓRICOS: LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS E LÍNGUA
2.2 LÍNGUA(S), BIMODALIDADE E VARIAÇÃO: APRENDER PARA ENSINAR
A diversidade linguística é evidente em todo o mundo. Por mais que essa diversidade se caracterize em distintas regiões, todas as línguas possuem certas semelhanças e contrastes (SILVA, 2003; BORTONI-RICARDO, 2011, 2014). Esse panorama precisa estar presente na escola. Compreender as sincronias e diacronias
20 É entendido esse conceito, também, a partir das prescrições da Base Nacional Comum Curricular.
(BRASIL, 2018). Um exemplo sobre a competência linguístico-cognitiva pode ser verificado a partir da leitura, que, além de uma atividade social, também é um processo cognitivo constituído de sentidos construídos por pessoas inseridas em práticas sociais, num tempo histórico, numa dada cultura (KLEIMAN, 1995, 2005; SOARES, 2003, 2004; COELHO, 2009).
das diferentes línguas é necessário para que se entenda que a língua(gem) se transforma e se encontra em inúmeros contextos, não apenas na gramática (MARCUSCHI, 2003, 2010). Assim como as línguas orais variam de diferentes formas (SILVA, 2003; BORTONI-RICARDO, 2011, 2014), as línguas de sinais também variam, dependendo do espaço e do tempo em que se encontram (SILVA, 2014; CASTRO JÚNIOR, 2011; QUADROS; KARNOPP, 2004).
As línguas viso-espaciais e as línguas orais “passam pelo processo contínuo e gradual de variação e mudança, seja por motivações internas, seja por contato com outras línguas de sinais ou orais” (SILVA, 2014, p. 3). Na língua de sinais, essas variações podem ser referidas de diferentes formas, a partir de seus parâmetros linguísticos (SILVA, 2014; CASTRO JÚNIOR, 2011; QUADROS; KARNOPP, 2004). Sendo assim e pensando em variações que emergem nas línguas, o “processo de interface entre a modalidade oral-auditiva e modalidade viso- espacial não pode ser considerado uniforme. A percepção visual do gesto articulatório do interlocutor não é homogênea, pois a fala não é uma linguagem homogênea” (CASTRO JUNIOR, 2011, p. 38). Logo, essas variações podem se dar em todos os níveis linguísticos: fonético, fonológico, semântico, sintático e pragmático.
Observar essas diferenças que caracterizam e enriquecem as línguas podem valorizar e significar as práticas escolares. Uma vez que o professor de língua(s) inclui outros conhecimentos linguísticos21 além dos gramaticais no percurso da aula, esta pode se tornar mais reflexiva. Para compreender as transformações e manifestações da língua, é preciso identificar fatores históricos, sociais, cognitivos, sincrônicos e diacrônicos. Desse modo, “é relevante no espaço escolar conhecer e valorizar as realidades nacionais [...] da diversidade linguística e analisar diferentes situações e atitudes humanas implicadas nos usos linguísticos, como o preconceito linguístico” (BRASIL, 2018, p. 70).
21 Em continuidade com a abordagem do conhecimento linguístico, partimos e seguimos o trabalho e
as práticas de linguagem cercadas pela leitura, pela fala, pela escrita e pela sinalização de modo que os alunos possam, de acordo com as prescrições dos Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa “pensar sobre a linguagem para poder compreendê-la e utilizá-la apropriadamente em situações e aos propósitos definidos” (BRASIL, 1998, p. 19). Nesse sentido, na pesquisa-ação propomos, com o apoio da BNCC, que o trabalho reflexivo com os conhecimentos e competências linguísticas necessita de “[...] mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho” (BRASIL, 2018, p. 8).
Atuando no Ensino Médio desde 2014, destaco que a variação linguística é entendida como conteúdo do currículo do 1º ano do Ensino Médio Politécnico. Logo, quando discuto as relações e contrastes entre os tipos de linguagem e da língua, nas aulas de Português, noto que os alunos não estão habituados a esse modo de discussão. Além disso, quando questiono sobre suas relações com as aprendizagens na disciplina de língua portuguesa, evidencia-se que as questões que se distanciam da gramática normativa são consideradas como errôneas por grande parte dos alunos. Nesse sentido, entendo que a aula de língua portuguesa, além de ser reflexiva (MIKUKAMI, 1996; VEIGA, 2007, 2008), precisa estar firmada em demandas reais e locais de uma comunidade. Dessa maneira, integrar dúvidas e aspirações dos discentes só gera benefícios quando se adota uma perspectiva interdisciplinar, de acordo com as necessidades e problemas contemporâneos (FREIRE, 1987; MARCUSCHI, 2003, 2010).
Refletindo sobre as potencialidades no ensino de língua portuguesa, como já mencionado, abordar os tipos de linguagem é compreender as diferentes manifestações e expressões sobre a linguagem e a linguística. Normalmente, quando questiono os educandos sobre os tipos de linguagem, logo identificam a Libras como uma linguagem verbal. Nessa ótica, cabe ao professor salientar que a modalidade desse idioma é diferente de uma modalidade oral, que o que é verbal numa língua pode não ser em outra. Assim é o sinal, que na Libras faz parte de uma linguagem verbal, pois é a palavra dessa língua. Já, numa língua oral, o sinal se enquadra em uma linguagem não verbal. Os estudos linguísticos apontam três modalidades de língua. A primeira modalidade está nas línguas orais-auditivas. A segunda modalidade é a visual-gráfica ou viso-espacial, que se estabelece mediante o uso de sinais. A terceira e última modalidade se evidencia nas línguas a partir da representação escrita (GROSJEAN, 1994a, 1994b; SWANWICK, 2000; QUADROS; KARNOPP, 2004; FLORES, 2015; FONSECA, 2015).
Essa primeira análise pode ser pertinente para identificar semelhanças e diferenças entre as línguas orais e as línguas de sinais. Na língua portuguesa, temos a palavra enunciada de forma oral ou escrita; na língua de sinais, há o sinal e a sua representação escrita22. Essa possibilidade de discussão já é introdução para uma 22 No Brasil, usamos o SignWriting para materializar de forma escrita a Libras. É importante destacar
que o SignWriting é utilizado como recurso de escrita por poucas comunidades surdas. Aqueles que mais fazem uso são os surdos das universidades, já que essa modalidade da língua de sinais, no
prática interdisciplinar, integrando uma concepção bimodal nas aulas de língua portuguesa. A Libras, como uma língua viso-espacial, é um sistema do qual a comunidade surda do Brasil faz uso para as mais diversas formas de interação e comunicação (QUADROS; KARNOPP, 2004; FLORES, 2015; FONSECA, 2015). Pensar nela e em suas possibilidades de integração nas aulas de língua é reconhecer as potencialidades de ensino que, enquanto professores, podemos empreender na escola. Uma vez que falamos dessa língua, torna-se pertinente compreender alguns de seus aspectos linguísticos.
Nesse constructo, é interessante destacar que, em minhas interações com diferentes pessoas, muitos pensam que a Libras se trata de gestos e que esses representam as línguas orais-auditivas. As referências que serão apresentadas a seguir mostram que é possível comparar essas línguas. No entanto, a compreensão se dá a partir de sua modalidade. Entre esses e outros mitos sobre a Libras, ‘desconstruí-los’ é um processo que demanda estudos específicos em língua de sinais, pois, como qualquer língua e suas especificidades, a língua de sinais brasileira faz uso de movimentos gestuais e expressões faciais que, quando expressas, percebemo-las pelos olhos a partir da visão, assim como os sons emitidos na língua portuguesa são percebidos pelos ouvidos a partir da audição (GROSJEAN, 1994a, 1994b; QUADROS, 1997; LACERDA; GÓES, 2000; QUADROS; KARNOPP, 2004; CASTRO JÚNIOR, 2011; FIGUEIRA, 2011; FLORES, 2015; FONSECA, 2015; RUIZ; DIAS, 2016). Cabe ressaltar que outras experiências de língua podem ser entendidas, como as experiências das pessoas surdocegas, que fazem uso de diferentes recursos comunicacionais, a fim de exteriorizar o seu pensamento, por meio da Libras tátil23.
Embora possamos analisar essas diferenças, elas não consistem apenas na utilização de diferentes canais para que aconteça e se entenda o processo de comunicação, mas as distinções também se encontram nas estruturas gramaticais,
Brasil, se concentra, em suma, nas pesquisas acadêmicas. Em muitos casos, os surdos, em seu percurso de escolarização e em seu envolvimento com a modalidade de língua escrita, recorrem ao português, língua que lhes é ofertada nas escolas em seu percurso de aprendizagem (LACERDA; GÓES, 2000; QUADROS; KARNOPP, 2004; LODI et al., 2009).
23 Pessoas surdocegas não possuem os sentidos da visão e da audição, ou seja, não escutam (língua
oral) ou veem (língua de sinais) uma língua. Logo, a língua de sinais sinalizada na mão, ou Libras tátil, é uma forma sensorial de compreender uma língua de sinais. No caso das pessoas surdocegas, a comunicação pela Libras tátil caracteriza a forma como elas sentem a língua para entender o mundo. Novamente, podemos potencializar as formas da comunicação entre os humanos, entendendo que sempre caminhamos na busca de uma língua(gem) para nos fazermos entender num determinado espaço e tempo.
específicas de cada língua: possuem unidades mínimas que, em conjunto, constituem unidades mais complexas e materializam o pensamento (GROSJEAN, 1994a, 1994b; QUADROS, 1997; LACERDA; GÓES, 2000; QUADROS; KARNOPP, 2004; CASTRO JÚNIOR, 2011; FIGUEIRA, 2011; FLORES, 2015; FONSECA, 2015; RUIZ; DIAS, 2016). Em outras palavras, tanto as línguas orais quanto as de sinais possuem níveis linguísticos que as caracterizam a partir de suas modalidades, como o nível fonológico, o morfológico, o sintático, o semântico e pragmático (QUADROS; KARNOPP, 2004; FIGUEIRA, 2011).
Nas formas fonológicas da língua portuguesa, podemos encontrar os fonemas, que possuem valor contrastivo e se combinam para formar os morfemas e, assim, as palavras. No Português brasileiro, os fonemas /d/, /s/, /r/, /a/ e /u/ formam a palavra SURDAS. Uma vez que encontramos as unidades mínimas do som, que são os fonemas, na morfologia podemos encontrar as menores unidades de significação: os morfemas. Os morfemas da língua são denominados de desinência, raiz, radical, afixo, tema e vogal temática. No nível fonológico, a palavra exemplificada anteriormente {SURD-} {-A} {-S} possui morfemas específicos, separados pelas chaves; cada uma dessas estruturas é dotada se significação específica. O radical {surd-} caracteriza o conceito surda e não ouvinte, logo o morfema {-a} indica o gênero feminino, e o morfema {-s} possibilita compreender que se trata de uma ideia relacionada ao plural dessa palavra (SILVA, 2003).
No nível da sintaxe, é possível considerar que as palavras podem se combinar com outras, a fim de formar frases, períodos e orações. Além disso, “precisa ter um sentido em coerência com o significado das palavras em um contexto, o que corresponde aos níveis semântico (significado) e pragmático (sentido no contexto: em que estão sendo utilizadas essas palavras)” (FIGUEIRA, 2011, p. 29). Logo, o sentido semântico precisa ir ao encontro do sentido morfossintático. Com essas considerações sobre a língua oral, denota-se que o que consideramos palavras, na língua oral-auditiva, na língua de sinais, o sinal é então esse item lexical. Ressalta-se que, ao conhecer a língua visual, não devemos considerar apenas “ver, discriminar, memorizar, mas um trabalho (meta) linguístico do sujeito sobre a língua, os movimentos enunciativos aos quais o sujeito recorre, a subjetividade que põe em evidência as escolhas lexicais, a construção sociocognitiva do sentido” (CASTRO JÚNIOR, 2011, p. 29) que essa difunde. Portanto, o trabalho (meta) linguístico do sujeito sobre a língua(gem), os movimentos
enunciativos que os sinalizantes recorrem corrobora para o processamento linguístico da Libras (CASTRO JÚNIOR, 2011).
Os itens lexicais da Libras são formados a partir de diferentes combinações, as quais denominamos como parâmetros da Língua Brasileira de Sinais. Esses parâmetros são: configuração da mão, ponto de articulação, orientação, movimento e expressões faciais ou corporais. A partir da combinação desses parâmetros, na língua de sinais, ocorre o processo de sinalização, a fim de formar palavras, frases, períodos e orações (QUADROS, 1997; LACERDA; GÓES, 2000; QUADROS; KARNOPP, 2004; CASTRO JÚNIOR, 2011; FIGUEIRA, 2011; FLORES, 2015; FONSECA, 2015; RUIZ; DIAS, 2016).
A configuração da(s) mão(s) é um dos elementos da fonologia da Língua Brasileira de Sinais. Elas são as formas que as mãos assumem a fim de sinalizar uma palavra. Esse processo pode ocorrer através de mecanismos datilológicos (utilizando o alfabeto manual), como também por meio de outras configurações articuladas através da mão para representar diferentes sinais.
Na Figura 1, têm-se sessenta e quatro configuração da(s) mão(s), que representam uma das especificidades fonético-fonológicos da Libras (PIMENTA; QUADROS, 2010; CASTRO JÚNIOR, 2011; FIGUEIRA, 2011).
Figura 1 - Configurações de mão na Libras
A configuração da mão associa-se a outros parâmetros linguísticos no ato de sinalização. A quantidade de configuração de mão já esteve abaixo das 64 ilustradas pelo Quadro 1. Na medida em que, a partir do uso, percebem-se novas configurações, estas vão sendo incorporadas ao conjunto de configurações de mão já estabelecido por meio de pesquisas e estudos dedicados à Libras (PIMENTA; QUADROS, 2010; CASTRO JÚNIOR, 2011).
Na Figura 1, podemos ver como se configuram as mãos para o processo de sinalização de diferentes sinais. Os sinais USAR e NOME possuem configuração da mão 24, porém o movimento é diferente, como indicam as setas de orientação nas figuras a seguir.
Figura 2 – Sinal da palavra NOME
Figura 3 - Sinal da palavra USAR
Fonte: Elaborada pelo autor
Como é possível verificar, nas Figuras 2 e 3, na sinalização de NOME e USAR, é preciso formar a configuração da mão 24. Contudo, o movimento realizado diferencia e caracteriza o sentido atribuído aos sinais a partir das convenções linguísticas. Quando ensino Libras para os ouvintes, sempre menciono que, de fato, as configurações de mão caracterizam-se como o ‘alfabeto’ da língua de sinais, já que, em grande parte, suscitam as possibilidades de construção de outros sinais. É preciso salientar, contudo, que a Libras se constitui também por outros elementos, como será discutido na sequência.
O ponto de articulação, então, é outro parâmetro da língua de sinais. Este se caracteriza por ser o lugar onde se localiza a mão configurada, que pode ir ao encontro do corpo, tocando-o ou não. Uma vez em que a mão não toca o corpo, esta se encontra em um espaço neutro vertical (da metade do corpo até a cabeça), bem como podemos localizá-la em um espaço neutro horizontal (à frente de quem está sinalizando) (FIGUEIRA, 2011; CASTRO JÚNIOR, 2011; QUADROS; KARNOPP, 2004). Como exemplos, os sinais PRONTO, USAR e CASA, Figuras 4, 2 e 5, respectivamente, são realizados em um espaço neutro, à frente do corpo.
Figura 4 - Sinal da palavra PRONTO
Fonte: Elaborada pelo autor Figura 5 - Sinal da palavra CASA
Fonte: Elaborada pelo autor
Por sua vez, os sinais ENTENDER e CONSCIÊNCIA (Figuras 6 e 7) são realizados na testa, quando as mãos a tocam.
Figura 6 - Sinal do verbo ENTENDER
Fonte: Elaborada pelo autor
Figura 7 - Sinal do substantivo CONSCIÊNCIA
Fonte: Elaborada pelo autor
As Figuras 3, 4 e 5, então, representam a configuração do sinal no espaço neutro. O sinal PRONTO é sinalizado seguindo a ordem da configuração da mão 34, entrecruzando para a 64. O sinal CASA, enunciado com o uso da configuração da mão 61, bem como o sinal USAR, apresentado anteriormente, não necessita tocar o corpo para que seja compreendido o seu sentido. Por isso, seu ponto de articulação
é neutro. Isso é diferente para o sinal ENTENDER, (Figura 6), configuração da mão 64, e CONSCIÊNCIA (Figura 7), enunciados a partir da configuração da mão 18a, os quais precisam tocar o corpo, em específico a cabeça e a testa, para corresponder a seu significado.
O movimento é outro parâmetro da língua de sinais. Na Libras, um sinal pode ou não ter movimento. Os sinais ENTENDER e CONSCIÊNCIA não possuem movimento, mas, para a produção de USAR e NOME, há movimentos. O movimento para o sinal USAR é circular, como demarcam as setas de orientação da Figura 2. Na Figura 3, o sinal NOME é feito pela configuração da mão 24, e um movimento da esquerda à direita.
A(s) orientação ou direcionalidade(s) são marcadores que mostram as direções acionadas no processo de sinalização, ou seja, a direção que a mão toma para denotar uma significação em um item lexical. “Assim, [...] alguns sinais [...] se opõem em relação à direcionalidade, como os verbos SUBIR e DESCER, ACENDER e APAGAR [...]”, conforme aponta Figueira (2011, p. 30), ilustrados na sequência.
Figura 8 - Sinal do verbo SUBIR
Figura 9 - Sinal do verbo DESCER
Fonte: Elaborada pelo autor Figura 10 - Sinal do verbo ACENDER
Figura 11 - Sinal do verbo APAGAR
Fonte: Elaborada pelo autor
A orientação e a direcionalidade são importantes no processo constitutivo da(s) língua(s) de sinais, porque a produção de um sinal com movimentos esdrúxulos24 ou com difícil execução não é viável, "já que a tendência das línguas é a economia e a agilidade na compreensão entre emissor e receptor" (CASTRO JUNIOR, 2011, p. 110).
Por fim, as expressões faciais ou corporais também são importantes para a realização e a compreensão adequada dos sinais. De acordo com esse parâmetro, por exemplo, podemos “movimentar as bochechas, os olhos, a cabeça, as sobrancelhas, o nariz, os lábios, a língua e o tronco” (CASTRO JUNIOR, 2011, p. 35). Vê-se que muitos dos sinais citados acima, para um sentido completo, em sua configuração, devem valer-se das expressões, como no caso do sinal COITADO. Há sinais feitos apenas com a bochecha, como a palavra INDIGNAÇÃO. As Figuras 12 e 13 ilustram algumas das expressões que fazem esse papel.
24 Movimentos esdrúxulos são aqueles extravagantes ou densamente carregados, dificultando a
Figura 12 - Sinal de COITADO
Fonte: Elaborada pelo autor
Figura 13 - Sinal do conceito INDIGNAÇÃO
Fonte: Elaborada pelo autor
Como é possível verificar pelas Figuras, as expressões são relevantes para a compreensão e formação do sinal, como no caso de COITADO, Figura 12, quando, além da sinalização utilizando a configuração da mão 35a em contato com o peito, a expressão de tristeza se faz necessária. No caso de INDIGNAÇÃO, Figura 13, contudo, estabelece-se a convenção e o sentido apenas pela expressão. As
expressões são unidades fundamentais, pois constituem todo o ato comunicacional, pois as expressões carregam emoção a fim de transmitir e comunicar a partir da língua(gem).
Na língua oral, a entoação é um dos elementos relevantes para compreender as emoções emitidas pela fala. Na língua viso-espacial, neste caso, a Libras, a expressão denota esse sentido. Assim, as expressões demarcam os estados emocionais da língua de sinais, mediante o sentido que o locutor quer transmitir ao interlocutor. Outros estudos gramaticais também podem ser efetivados a partir de diferentes olhares e pontos de vista. Levando em consideração as reflexões mencionadas, ao encontro de estudos de Quadros e Karnopp (2004), Castro Júnior (2011) e Figueira (2011), ressaltamos que as estruturas dessas línguas possuem suas características para dar conta de suas funcionalidades, e para seus emissores poderem fazer uso, bem como interagir a partir delas.
Portanto, vejo que a diversidade cultural e de linguagens perpetra o(s) letramento(s) bimodal e bicultural. A partir do contato entre as línguas na sala de aula que, em comunhão, convergem para o multiletramento, entende-se que a ideia do multiletramento é viável neste estudo. Para compreender e situar tal conceito, é necessário conhecer as produções de significados presentes nas interações das juventudes, nos modos de ser e nas formas como os alunos vêm se envolvendo com as linguagens contemporâneas presentes nos espaços sociais e digitais. Nas próximas reflexões, haverá um alinhamento entre o(s) (multi)letramento(s), tecnologia(s), escola e juventude(s) na contemporaneidade, pautadas pela língua e pela linguagem.
2.3 CONHECENDO AS JUVENTUDES, A(S) LÍNGUA(GEM) E OS SENTIDOS DA