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LÍNGUAS ANDINAS

No documento Giane da Silva Mariano Lessa (páginas 138-141)

Na apresentação de sua crônica, Guaman Poma assinala a diversidade e a heterogeneidade cultural e linguística andina, do período colonial, ao enumerar 17 variedades nativas que ele insere na crônica, e que, ao mesmo tempo, aludem às diferentes etnias: “Escogí la lengua e fracis castellana, aymara, colla, puquina, conde, yunga, quichiua, ingá, uanca, chinchaysuyo, yayo, andesuyo, condesuyo, collasuyo, cañari, cayampi, quito” (POMA DE AYALA, 2005: 17 [Presentación 10])91. Tais

descendência e os famosos feitos dos primeiros reis e senhores e capitães, nossos avós e de seus principais e vida de índios e suas gerações e descendência desde o primeiro índio chamado Uiracocha runa, que descendeu de Noé do dilúvio (…).

90 Tradução: ser humano.

91 Tradução: escolhi a língua e frase castelhana, aymara, colla, puquina, conde, yunga, quichiua, ingá, uanca, chinchaysuyo, yayo, andesuyo, condesuyo, collasuyo, cañari, cayampi, quito.

línguas representam a testemunhalidade da coletividade andina nas narrativas orais que por meio delas circulavam.

Essa diversidade de línguas e culturas e sua cosmovisão constituem o patrimônio imaterial que conforma a base de suas fontes orais, às quais fez referência e das quais pôde compilar as narrativas devido ao fato de ser um intérprete, um “língua”. A explicitação da diversidade de línguas e etnias e de um novo ponto de vista é um modo de manifestar que a língua castelhana e a cultura espanhola são uma entre outras, para além das culturas europeias.

O cronista reitera sua habilidade de transitar entre linguagens, línguas e culturas ao explicitar a compilação das narrativas a partir de suas fontes orais, expressas na diversidade étnica, cultural e linguística, inseridas em “El Primer Nueva Corónica y Buen Gobierno”:

Prólogo al lector Cristiano que leyere de este dicho libro, viendo la ocasión en las manos al escrito para sacar en limpio estas dichas historias hube tanto trabajo por ser sin escrito ni letra alguna sino nomás de quipos y relaciones de muchos lenguajes, ajuntando con la lengua de la castellana y quíchua, ingá, aymara, puquina, colla, canche, cana, charca, chinchaysuyo, andesuyo, collasuyo, condesuyo, todos los vocablos de indios, que pasé tanto trabajo por ser servicio de dios nuestro Señor y de su sacra católica magestad rey don Felipe el tercero (POMA DE AYALA, 2005: 17 [Presentación 11])92.

A elucidação de um mundo andino diverso vai de encontro à construção homogeneizante que dá sustentação às dicotomias europeu x andino, branco x índio, inerentes ao debate sobre a humanidade dos povos ameríndios e que radica no item lexical “índio”. O texto escrito, que parte de cultura e línguas alheias, se vê impregnado de fontes orais e etno-saberes e patrimônio cultural que atestam a organização social, econômica e política dos povos andinos, asseverando, portanto, a existência de uma civilização.

No fragmento a seguir, o cronista indígena menciona as línguas gerais quéchua e aymará, fazendo referência às práticas culturais, como as canções e músicas. O registro dessas práticas culturais, bem como de suas fontes orais, constitui as memórias e o patrimônio imaterial:

92 Tradução: Prólogo ao leitor Cristão que vier a ler este dito livro, tendo a oportunidade de ter nas mãos para o escrito para passar a limpo estas ditas histórias tive tanto trabalho por não ter escrita nem letra alguma a não ser nada mais do que quipos e relatos de muitas linguagens, juntando à língua castelhana e quíchua, ingá, aymara, puquina, colla, canche, cana, charca, chinchaysuyo, andesuyo, collasuyo, condesuyo, todos os vocábulos de índios, que me custou tanto trabalho [escrever] por ser serviço de Deus nosso Senhor e de sua sacra católica majestade rei dom Felipe o terceiro.

canciones y música del Inga y de los demás señores de este reino y de los indios, llamado harui y uanca, pignollo, quena quena, en la lengua general quichiua, aymara, dice así: haray haraui acoyraquicho coya raquiriuanchic Tiyoy raquicho nusta raquiriuanchic Cicllallay (...) (POMA DE AYALA, 2005: 239 [317;319])93.

Guaman Poma também introduz léxico das línguas andinas ao referir-se aos cantos das festividades. Assim, ele descreve manifestações culturais que se expressam e se organizam por meio da oralidade e de gêneros orais:

La fiesta de los Collasuyos desde El Cuzco cantan y danzan. Dice el curaca principal: quirquiscatan mallco quirquim cápac omi, desde Cauina, Quispillacta Pomacanchi, Cana, Pacaxi, Charca, choquiuito, chuquiyapo, y todo Hatun Colla, urocolla. Comienzan, tocan el tambor y cantan las señoras y doncellas; dice así: huisca mallco capaca colla hauisca hila colla sana capaca sana ynca pachat ti apachat mallco sana capaca colla sana hila uiri mallco uiri quirquiscatan mallco aca marcasan pachasan tiusa hunpachitan Nuestra Señora taycasan hunpachiucin hauisca malco pacha cutipan hanilla quimti aca marcasan ychauro quirquiscatan collaypampa sanchalli. De esta manera prosigue todo el cantar y fiesta de todo colla, cada uno su natural cantar. Cada ayllo hasta los indios de Chiriuana, Tucumán y Paraguay; cada uno tiene sus vocablos, y en ellas cantan y danzan y bailan, que las mozas doncellas dicen sus arauis, que ellos les llama uanca, y de los mozos quena quena; de esta manera dicen sus danzas y fiestas cada principal y cada indio pobre en todas las provincias del Collau, en sus fiestas grandes o chicas hasta Potosí (POMA DE AYALA, 2005: 245 [325;327])94.

Guaman Poma explicita a dimensão da extensão geográfica e cultural do mundo andino, referindo-se conscientemente às diferenças linguísticas, por meio da diversidade de categorias, que variam de acordo com cada região e suas culturas. Como fontes orais, as línguas andinas são introduzidas, portanto, por meio da referência às práticas culturais. O cronista registra o patrimônio imaterial dos povos andinos, dando a conhecer a diversidade de gêneros orais que organizam as sociedades andinas.

93 Tradução: canções e música do Inca e dos outros senhores deste reino e dos índios, chamado harui e uanca, pignollo, quena quena, na língua geral quichiua, aymara, diz assim: haray haraui acoyraquicho coya raquiriuanchic Tiyo e raquicho nusta raquiriuanchic Cicllallay (...)

94 Tradução: A festa dos Collasuyos desde Cuzco cantam e dançam. Diz o cacique principal:

quirquiscatan mallco quirquim cápac omi, desde Cauina, Quispillacta Pomacanchi, Cana, Pacaxi, Charca, choquiuito, chuquiyapo, y todo Hatun Colla, urocolla. Começam, tocam o tambor e cantam as senhoras e donzelas; diz assim: huisca mallco capaca colla hauisca hila colla sana capaca sana ynca pachat ti apachat mallco sana capaca colla sana hila uiri mallco uiri quirquiscatan mallco aca marcasan pachasan tiusa hunpachitan Nossa Senhora taycasan hunpachiucin hauisca malco pacha cutipan hanilla quimti aca marcasan ychauro quirquiscatan collaypampa sanchalli. Desta maneira prossegue todo o cantar e festa de todo colla, cada um com seu canto natural. Cada ayllo (comunidade) até a dos índios de Chiriuana, Tucumán e Paraguay; cada um tem seus vocábulos, e nelas cantam e dançam e bailam, que as moças donzelas recitam seus haravis, que eles chamam huanca, e dos moços quena quena; desta maneira fazem suas danças e festas cada principal e cada índio pobre em todas as províncias do Collau, em suas festas grandes ou pequenas até Potosí.

No seguinte fragmento, Guaman Poma reproduz um canto entre um homem e uma mulher, descrevendo e refletindo mais um gênero oral andino e referindo-se aos lugares sociais e às correspondentes práticas referentes a cada gênero. O autor faz outra referência às diferenças de categorias e línguas:

de manera que las cuatro partes tienen sus vocablos y taquies y los Quichuas, aymarays y Collas, Sorasy algunos Condes tienen un vocablo; y así; los collas dice así: malco Castilla pari quirquicitan chunaca uamillanaca quirquim mocza quirquicina; aca fiesta Diosa pachapan quirquis canapi hacausin cama; niatipi quirquisi hiuirinaca hamcacamca cochocim. El haylli aymarana dice así: moyoristi tomani mama tuinirste aruini mama. Todos cantan a este tono; luego dice el hombre: chuna, responde la mujer oy, uayta, oy chucho, oycanto, oy (POMA DE AYALA, 2005: 245; 248 [327;329])95.

No documento Giane da Silva Mariano Lessa (páginas 138-141)

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