4.1 ESTUDO I – PERFIL DOS PARTICIPANTES E APRENDIZAGEM DE LÍNGUAS
4.1.2 A aprendizagem de línguas estrangeiras
4.1.2.1 Línguas estrangeiras: interesses e crenças
Os primeiros pontos que levantamos para que os alunos refletissem foram a valorização da aprendizagem de LEs e o interesse em aprender outras línguas.
Ao apreciarmos os dados fornecidos pelos participantes, observamos que sete dos nove (7/9) aprendizes valorizam a aprendizagem de uma LE, com exceção de A2 e A6, que dizem também não ter interesse em aprender alguma língua estrangeira.
Quadro 7 – Valorização da aprendizagem de línguas estrangeiras
Valoriza a aprendizagem de uma língua estrangeira?
A1 A2 A3 A4 A5 A6 A7 A8 A9
Sim X X X X X X X
Não X X
Fonte: Elaborado pela autora.
De maneira semelhante, seis dos nove (6/9) participantes têm interesse em aprender, principalmente, a língua inglesa, seguida do espanhol. A8, apesar de valorizar a aprendizagem de uma língua estrangeira, declara não ter interesse em aprendê-la, assim como A2 e A6.
Quadro 8 – Interesse em aprender línguas estrangeiras
Tem interesse em aprender outras línguas? Qual (is)?
A1 A2 A3 A4 A5 A6 A7 A8 A9 Sim X Inglês Espanhol X Não mencionou X Inglês X Inglês Espanhol X Inglês Espanhol X Inglês Não X X X
Fonte: Elaborado pela autora.
Dos seis (6) participantes que têm interesse e valorizam a aprendizagem de LEs, somente cinco (5) se projetam como usuários/falantes de uma ou mais línguas.
Quadro 9 – Projeção como usuário/falante de LEs
Você consegue se ver como usuário/ falante de uma ou mais línguas estrangeiras?
Sim Não Por quê?
A1 X “Acredito que me esforço bastante. Posso aprender as duas que
considero mas importantes: inglês e espanhol” [sic]. A2 X “por que não tem interesse”
A3 X “por que pretendo procuro uma maneira de aprende outras línguas” [sic].
A4 X “porque quando agente quer uma coisa nos temos que fazer de tudo
para que aconteça e falar inglês é uma delas” [sic].
A5 X “por priorizar outras áreas e talvez também por falta de
oportunidade suficiente” Via Whatsapp, em 07/03/16, ele
acrescentou: “Tenho vontade de ter um conhecimento maior da língua inglesa, mais em relação a interpretação de textos, a questão da fala não priorizo tanto”.
A6 X “pela falta de interesse mesmo”.
A7 X “pelo interesse que tenho hoje, acredito que vou conseguir com certeza”.
A8 X “Não porque se interesse não tem como” [sic].
A9 X “sim, para poder se comunicar com alguém em outra língua” [sic]. Fonte: Elaborado pela autora.
Diante das falas apresentadas acima, podemos observar que as palavras destacadas demonstram engajamento e vontade de obter sucesso na aprendizagem de línguas estrangeiras e parece haver uma motivação intrínseca para isso. As frases “fazer de tudo”, “acredito com
certeza” e “me esforço bastante” representam quase que uma obstinação com que os
aprendizes perseguem seus objetivos. Em contraste, está A5 que, embora valorize e tenha interesse em LEs, parece acreditar que não existem condições que possibilitem que ele se projete como falante, mas acredita que pode ler textos.
O interesse (apresentado no Quadro 8 e no Quadro 9) sugere que os sujeitos têm alguma motivação para aprender. Embora para Ellis (1994) e Lightbown e Spada (1999) seja difícil comprovar se é a motivação que faz resultar em uma aprendizagem de sucesso ou se o sucesso na aprendizagem é o que a alimenta, as pesquisas de um modo geral, segundo Lightbown e Spada (1999), apontam que existe uma relação entre atitudes positivas, motivação e sucesso na aprendizagem. Algumas das descobertas do estudo de Gardner e Lambert (1972 apud ELLIS, 1994, p. 119) mostram que “motivation and attitudes are important factors , which help to determine the level of proficiency achieved by different
learners […],”e que “the level and the type of motivation is strongly influenced by the social context in which learning takes place […]”87
.
A respeito de a motivação ser influenciada pelo contexto social, Aragão (2011), sob a perspectiva da Biologia do conhecer de Maturana (2001), ressalta que as ações (a conduta, a postura ou atitude) de um indivíduo são moldadas pelas suas emoções socialmente constituídas nas relações com os outros. Ou seja, as experiências vividas por um indivíduo e os conceitos que a sociedade constrói podem justificar a postura diante das situações. Cyr (1998) entende que a motivação não é um fenômeno unicamente interno, ela também é afetada por uma série de fatores externos, como, por exemplo, as práticas pedagógicas, as práticas de avaliação e as exigências do meio.
Ainda a respeito dos dados fornecidos pelos Quadros 7 e 8, o grupo revela uma distinção interessante acerca da valorização e do interesse sobre as LEs. Quando perguntamos sobre a valorização da aprendizagem das línguas estrangeiras, os participantes relacionam principalmente ao acesso a outras culturas e pessoas pela interação entre elas, ou seja, ao contato intercultural. Percebemos neles o desejo de expandir os horizontes em termos culturais de uma maneira generalizada, portanto, parece haver uma motivação integrativa (GARDNER; LAMBERT, 1972 apud CYR, 1998; LIGHTBOWN; SPADA, 1999).
A1 – “Saber mais da cultura desses países. Outra porta para conhecer novas pessoas, a cultura, a questão do trabalho”.
A4 – “Porque nos deixa por dentro das coisas e das culturas que existe no mundo” [sic]. A8 – “Podemos aprender outras culturas”.
A9 – “Valorizo, pois hoje precisamos aprender novas línguas além da que falamos”.
Quando perguntamos por que eles têm interesse em aprender línguas estrangeiras, o objetivo passa a ser específico e em termos práticos e instrumentais de uso da língua. A maioria do grupo tem interesse por questões relacionadas ao trabalho, pois acredita que a aprendizagem de LEs agrega qualificação profissional (A1, A7 e A9), caracterizando uma motivação instrumental (GARDNER; LAMBERT, 1972 apud CYR, 1998).
Embora, nesse momento, A5 tenha apenas demonstrado interesse em aprender porque diz se identificar com a cultura de outros, ele também afirma utilizar constantemente a língua inglesa na área de informática.
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“a motivação e as atitudes são fatores importantes que determinam o nível de proficiência alcançada por diferentes aprendizes” e que “o nível e o tipo de motivação é fortemente influenciada pelo contexto social no qual a aprendizagem ocorre” (tradução nossa).
A1 – “pois é muito necessário no mercado de trabalho”.
A7 – “Acredito que a profissão que quero seguir torne isso indispensável”.
A9 – “pois, principalmente na área de informática precisamos traduzir certos nomes em inglês nos componentes” [sic].
Constatamos nas falas que elas se remetem às ideias socialmente construídas de que aprender um idioma é importante para conhecer outras culturas e também geram melhores oportunidades de trabalho e, por isso, causam um interesse e valorização pela maioria dos participantes.
Outra observação que podemos fazer a partir dos dados apresentados pelo Quadro 8 é acerca de quais idiomas os aprendizes têm mais interesse em aprender. Cinco (5) mencionaram que querem aprender a língua inglesa e três (3), o espanhol, provavelmente pelo espaço que essas duas línguas têm ocupado no cenário mundial.
Sob outra perspectiva, Souza (2011) analisa que, no caso da língua inglesa, ela possui grande valor simbólico na sociedade brasileira de status social e de identificação com uma sociedade poderosa, no caso a americana. Segundo ele, esse valor simbólico é alimentado pela iniciativa estratégica dos cursos de idiomas, que reforçam as representações da sociedade, mantendo o desejo de consumo por esse tipo de serviço. Essa análise é confirmada pelo relato dos alunos mais à frente.
Dando continuidade à análise, os participantes foram questionados sobre o que pensam a respeito da aprendizagem de LEs no Brasil. Conforme mostra o Quadro 10, todos concordam que a aprendizagem é favorecida pelo contato direto com falantes de outras línguas.
Quadro 10 – Favorecimento da aprendizagem de LEs
O que você acha das afirmativas que seguem abaixo? (1=concordo; 2=discordo; 3=não sei)
A aprendizagem de línguas estrangeiras... 1 2 3
1. é favorecida pelo contato direto com falantes de outras
línguas. 9/9
A1, A2, A3, A4, A5, A6, A7, A8, A9 Fonte: Elaborado pela autora.
Mesmo assim, todos também acreditam que é possível aprender uma língua estrangeira sem sair do país, como mostra o quadro abaixo.
Quadro 11 – Possibilidade de aprender LEs sem sair do país
Você acredita que é possível aprender e/ou compreender alguma língua estrangeira sem ter saído do seu país?
A1 A2 A3 A4 A5 A6 A7 A8 A9
Sim X X X X X X X X X
Não
Fonte: Elaborado pela autora.
Entretanto, ao analisarmos as justificativas de cada aprendiz, observamos que 6 dos 9 (A2, A3, A6, A7, A8 e A9) atribuem a responsabilidade por aprender uma língua estrangeira aos cursos de idiomas. Os outros citam o esforço pessoal, independentemente das condições de aprendizagem (A1), e os profissionais (A4). Somente A2 menciona a escola regular.
A1 – “Acredito que uma pessoa é capaz sim em aprende o inglês” [sic]. A2 – “Porque tem cursos e escolas”.
A3 – “Através de cursos” .
“Lá no curso é mais profundo: mais aprofundado: eu não estaria me preocupando com outras matérias” ((Notas de campo – NC)).
A4 – “porquê tem ótimos profissionais que nos ensina como se eles mesmos fossem estrangeiros” [sic].
A5 – “Porém a mais dificuldade do que ir para o país de origem da língua, onde se relaciona diretamente com falantes da língua” [sic].
A6 – “Pode fazer estudo na escola específica para língua estrangeira e por em prática, para não perder o conhecimento no que [foi] ensinado” [sic].
A7 – “Com o nível que os cursos estão hoje, isso é bem possível”. A8 – “Hoje em dia tem muitos cursos”.
A9 – “Através da TV dá internet ou frequentando cursinhos pode-se sim aprender novas línguas”.
Essas falas nos permitem avaliar que os alunos não veem a escola como um espaço onde é possível desenvolver habilidades e competências que os tornem capazes de agir no mundo por meio das línguas. Os PCNs (1999, p. 148) apontam esse fato e o atribuem à carência de docentes com formação adequada e à escassez de material didático. Por causa disso, o documento ressalta que a aprendizagem de línguas estrangeiras na escola regular passava “a pautar-se, quase sempre, apenas nos estudos de formas gramaticais, na memorização de regras e na prioridade da língua escrita e, em geral, tudo isso de forma descontextualizada e desvinculada da realidade”. Souza (2011, p. 142-143), ao analisar a narrativa 1488, corrobora os PCNs, ao apontar que existe uma “ausência de políticas educacionais consistentes para a formação de professores de línguas” e acrescenta que “as
88 A narrativa 14 é o relato de um aprendiz de LEs frustrado com o ensino na escola pública regular. Esse relato é analisado por diferentes especialistas sob distintas perspectivas.
políticas públicas parecem ter assumido tacitamente a escola como espaço monolíngue”. Esse monolinguismo, segundo ele, está na contramão da mídia e da cultura popular manifestada em vários idiomas por meio da televisão, música, cinema e das novas tecnologias.
Até aqui apresentamos um grupo em que a maioria valoriza a aprendizagem de LEs, tem interesse em aprender, se projeta como um usuário/falante da língua algum dia, percebe que pode aprender outras LEs a partir do conhecimento da sua língua materna, acredita que é possível aprender LEs sem sair do Brasil, mas atribui esse papel aos cursos de idiomas. Passamos agora a analisar a experiência desse grupo com a língua inglesa para entender o que leva esses aprendizes a crerem que inglês não se aprende na escola e como se avaliam quanto à sua aprendizagem.