6 ASPECTOS METODOLÓGICOS
6.3 LÓCUS DO ESTUDO
A organização onde se realizou o estudo empírico é um hospital público, de grande porte, 256 leitos, que atende serviços de saúde de média e alta complexidade. Este foi selecionado por possuir um quadro de enfermeiras de 196, sendo que apenas 97 estão em exercício, as demais estão com desvio de função. Estas características atendiam ao que o estudo exigia (enfermeiras com contrato de trabalho por tempo determinado e enfermeiras
com contrato de trabalho por tempo indeterminado). Além deste aspecto, a organização é familiar à pesquisadora que atua profissionalmente neste serviço como funcionária e professora da disciplina Estágio Supervisionado II do Curso de Graduação em Enfermagem, da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).
Embora a organização hospitalar (lócus em que a pesquisa foi realizada) não tenha sido em sua totalidade objeto da investigação, ela fornece um importante determinante para a compreensão dos resultados da pesquisa.
O Hospital Geral Cleriston Andrade, organização hospitalar pública de grande porte, foi fundado em 15 de março de 1984 pelo então governador do Estado da Bahia, João Durval Carneiro. O nome do Hospital foi uma homenagem ao ex-candidato ao governo do Estado, Clériston Andrade, que morreu em acidente aéreo 43 dias antes das eleições para governador, sendo substituído pelo Sr. João Durval Carneiro.
Inicialmente foi contratada uma equipe de trabalho composta por 330 funcionários, dos quais 30 eram enfermeiras. Seu funcionamento estava previsto para julho de 1984, porém,
em decorrência de uma epidemia de gastrenterite seu funcionamento foi antecipada. O HGCA iniciou atendimento numa situação de crise da saúde pública no Estado, crise esta que vem se mantendo principalmente no que diz respeito à disponibilidade de recursos e gerenciamento. A partir desse momento, Feira de Santana ganhou um hospital, regional, estadual, público e vulnerável às pressões e interferências políticas de partidos que estão em situação decisória favorável.
Segundo dados publicados pela Assessoria Geral de Comunicação Social do Estado da Bahia (AGECOM, 2006), a organização hospitalar foi inicialmente considerada como hospital regional, passando em 1998 à condição de Hospital Geral, para atender as demandas de Feira de Santana e cidades circunvizinhas e receber recursos correspondestes aos serviços ofertados e necessários. Para tanto, foram realizados investimentos técnicos, físicos e de recursos humanos.
Atualmente o HGCA é referência para Feira de Santana, municípios circunvizinhos e região Sul, Sudeste e Centro-Oeste baiano, atendendo cerca de 127 municípios e disponibilizando 256 leitos. Funciona como hospital-escola para diversos cursos de nível superior e médio, abrangendo tanto a área de pesquisa quanto a assistência. O hospital conta com os seguintes serviços: ultra-sonografia, radiologia, eletrocardiograma, tomografia computadorizada, endoscopia digestiva, banco de leite, banco de sangue,
laboratório de patologia clínica, fisioterapia, ambulatório, atendendo várias especialidades, a exemplo de otorrinolaringologia, neuropediatria, cardiologia, ginecologia, urologia, proctologia, cirurgia geral, terapia intensiva adulto, pediátrica e neonatal, clínica médica, cirurgias de grande, médio e pequeno porte, planejamento familiar, serviço de pré-natal, curativos entre outros.
Na estrutura física, dispõe de uma área de aproximadamente 9.000 m², edificado de forma horizontal (em nível térreo). A capacidade instalada é de 264 leitos, cuja taxa de ocupação média supera sua capacidade, com freqüentes internações na unidade de emergência, em macas ou cadeiras.
O quadro funcional é composto por 1.164 servidores, dos quais 196 são enfermeiras (97 estatutárias e 49 com contrato por prazo determinado) e 306 são técnicos ou auxiliares de enfermagem7. Conforme escalas de serviço, estavam atuando na unidade, no período da coleta dos dados apenas 59 enfermeiras estatutárias, devido à licença prêmio, licença médica e disposições para outras unidades do Estado.
A planta física é ampla, com ambulatório, ala administrativa, biblioteca, auditório para 50 lugares, banco de leite humano, pavilhão de fisioterapia e bio-imagem, laboratório de patologia clínica, UTIs adulto com capacidade de 10 leitos; pediátrica com 08 leitos e neonatal com 05 leitos. A unidade de emergência com capacidade instalada de 50 leitos adultos e 30 pediátricos, abriga, entretanto, em geral, o dobro da capacidade. As unidades de Clínica Cirúrgica e Clínica Médica têm capacidade para 44 leitos cada. A unidade Materno- infantil está localizada no mesmo bloco da unidade pediátrica com 22 leitos e 30 respectivamente. Além destas, existem a unidade de Bloco Operatório com Centro Cirúrgico e Centro Obstétrico, UTI Neonatal, Berçário de Neonatologia, Central de Esterilização, Serviço de Nutrição, Refeitório, Oficina, Almoxarifado e Farmácia. Não se deve deixar de registrar o papel fundamental da equipe de enfermeiras lotadas no HGCA e da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (SESAB) na implantação, inauguração e em todas as fases de funcionamento e implementação de novos serviços.
Ao analisar o funcionamento do HGCA desde sua fundação, observam-se algumas situações críticas já enfrentadas a exemplo de: sucessivas mudanças de diretoria, das quais duas foram exercidas por enfermeiras, ambas externas ao quadro de enfermeiras estatutárias. Somaram-se nestes 22 anos, 19 diretores e 12 coordenadoras do Serviço de
Enfermagem8, o que equivale a aproximadamente 1,2 anos para cada diretor geral e 1.8 anos para cada coordenadora do Serviço de Enfermagem.
Entre os vários problemas vivenciados pelas enfermeiras que compõem o quadro permanente, encontram-se especialmente o que diz respeito à indicação para o cargo de coordenação e supervisão de enfermagem. Em 1989, as enfermeiras realizaram processo eleitoral para os cargos, entretanto o resultado não foi acatado pela diretoria, que decidiu por ocupar o cargo uma enfermeira externa ao quadro de pessoal. Tal situação provocou revolta entre os membros da categoria, resultando na realização do 1° Encontro de Enfermagem do HGCA, com presença da Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn/seção Bahia); Conselho Regional de Enfermagem (COREN) e Sindicato de Enfermagem. O resultado deste encontro gerou descontentamento da diretoria que respondeu aos apelos com a transferência de uma das enfermeiras para hospital psiquiátrico, como medida para inibir a revolta do grupo. Estes processos também atingiram outras categorias, a exemplo da diretoria médica, pois três nomes concorriam ao cargo e um quarto nome foi nomeado pelo Governador do Estado.
Isso indica que a interferência político-partidária tem exercido forte influência na gestão e nas decisões referentes à ampliação da estrutura física, assim como a composição dos recursos humanos, no qual a opção tem sido a terceirização (serviço de segurança, nutrição e transporte interno de usuários “maqueiros”); cooperativas (serviço médico) e contrato por prazo determinado para as demais áreas e serviços.
No decorrer dos 22 anos de fundado, o HGCA vem ampliando serviços e estrutura física com freqüência, a exemplo de: em 1987, foi implantada a Comissão de Controle de Infecção Hospitalar; em 1990, foi implantada a residência médica vinculada a SESAB; a primeira UTI adulto foi criada em 1990, primeira Unidade de Terapia Intensiva pública no interior da Bahia com 4 leitos, remanejada em 1992 para área mais apropriada, comportando 5 leitos; em 1992, foi reorganizada a Unidade Pediatriátrica para permitir acompanhantes para menores de 12 anos, em atendimento à exigência do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) ou Lei N. 8.069/90 (LIBERATI, 2006).
Em 1997, foi inaugurada a nova Unidade de Emergência; em 1999, inauguração do setor de Bioimagem (Tomografia e Ultrassonografia); em 2000, deu-se a transferência da emergência (para local mais amplo e a implantação do serviço de Buco-Maxilo-Facial. Em
2003, foi inaugurado o serviço “Mãe Canguru” em área construída com esta finalidade. Em 2004, implantou a UTI neonatal (UTIn) e, em 2005, a UTI adulto ganhou nova estrutura que também abriga a unidade de UTI pediátrica. A implantação mais recente deu-se em 2006, com a inauguração do serviço de endoscopia digestiva. Todas as estruturas citadas atendem as especificações técnicas do Ministério da Saúde e foram realizadas com recursos do REFORSUS9.
Em todas as fases do funcionamento desta organização hospitalar, o papel das enfermeiras foi estratégico, integrando a definição do modelo assistencial a ser oferecido a comunidade, entretanto a contratação de profissionais com vínculos de trabalho temporários tem provocado uma freqüente rotatividade, que pode ser uma das causas de possíveis insatisfações e de interferência no comprometimento.
Em relação ao gerenciamento da organização hospitalar, o Governo do Estado e do Município na ocasião da coleta dos dados, eram do mesmo partido político, o que facilita a integração de uma organização estadual com uma gestão municipal.
Diante dessa realidade, o Hospital Geral Clériston Andrade é considerado uma unidade de representatividade na prestação de assistência de média e alta complexidade em todo o interior da Bahia.