4.2 A caverna subvertida e a crítica ao esclarecimento em O cheiro do ralo
4.2.3 A lógica da razão subvertida
A próxima cena a ser abordada, devido aos elementos que a compõem, sintetiza, de certo modo, as discussões que viemos desenvolvendo até aqui. Vejamo-la, pois.
Ah, doutor, se eu contar o meu vício, o senhor vai acabar ficando mais viciado que eu.
Isso é impossível. Ah, é?
É.
E como o senhor tem tanta certeza?
É que só existem dois caminhos, o vício e a virtude, e eu sou um homem de virtudes.
[...]
Entrego o dinheiro ao cientista louco.
Seus olhinhos de bêbado chegam a faiscar. Ele seleciona a maior das notas entre as que lhe dei. Aí, ele olha pra mim. Seu rosto está iluminado, disforme do tanto que ri. Estica a nota. Apóia a nota na escrivaninha. Esfrega. Tenta deixá-la como nova. Ele me olha e diz:
Eu estou pronto, doutor, e o senhor? Pode começar quando quiser. Então tá.
Agora seu rosto se fecha em estado de plena concentração. Sua boca distorce, como se ele estivesse pronunciando um U. Segura a nota com ambas as mãos.
Só polegar e indicador, movimento de pinça, feito a Ilha das
flores.
E aí ele rasga. E rasga de novo. Fica eufórico.
Pula na cadeira batendo com a bunda, feito criança brincando de cavalinho. Ele baba, ele agora emite o som do seu U. Ele é doido de pedra.
Vamu lá, doutor, everybody, vamos lá, doutor, todos juntos.
Apanho uma nota na caixa dos cubanos, não custa tentar. Imito seus movimentos com precisão. É indescritível o prazer. Agora é ele de novo.
E agora sou eu.
Agora os dois num ato simultâneo. E segue assim.
Eu já tô de pau duro, doutor! O meu já fisgou.
Vamos ver quem chega primeiro, doutor. Vamos ver.
Quem chegar primeiro é o vencedoOOoarghhuhlffff. Ele ganhou (MUTARELLI, 2011, p. 161-162).
O símbolo do dinheiro aqui é contundente. Ele surge como lei máxima na sociedade capitalista, como força superior. O Capitalismo, inclusive, parece ser lido, no presente romance, como sinônimo de racionalismo, uma vez que ambas as ideias funcionam como fundações da realidade que engloba toda a narrativa, postulando-se ao
redor e sobre todas as personagens. Sendo assim, rasgar dinheiro, na perspectiva mutarelliana, é, em essência, retirar-lhe o poder; não só o poder de compra, como é óbvio, mas, acima de tudo, o poder de controle sobre o indivíduo. E, ao fazer isso, o sujeito se pronuncia efetivamente enquanto sujeito, no sentido de que age, de que tem vontade própria e não se submete aos desmandos de uma força invisível acima de si.
Temos plena consciência de que, também na perspectiva platônica, o homem cujos ideias sucumbem diante do poder monetário é visto como um homem menor14. Ele
deve ser tido não como um ideal, mas como um sujeito a quem se deve criticar; um indivíduo cuja conduta de ser julgada como tirana e verdadeiramente distante de ser tocada pela ideia do bem. Essa perspectiva é fortemente discutida principalmente no primeiro livro d’A República, no qual se começa a refletir sobre as noções de justiça e injustiça e suas relações com o comportamento dos homens.
No entanto, sob o olhar mutarelliano, segundo o que podemos interpretar em O cheiro do ralo, a perspectiva platônica – ou, de outro modo, a perspectiva do que é considerado correntemente como realidade organizada, tendo em vista que Platão em si não seja mencionado textualmente na obra do romancista paulistano – parece ser lida como uma espécie de mentira, de verdade falseada, um mecanismo argumentativo que visa enganar os sujeitos que participam da realidade racionalista, levando-os a crer que a razão – tocada pela ideia do bem – é superior ao interesse própria, à cobiça, ao proveito egoísta, quando, em verdade, aquela seria submissa a esses. Essa perspectiva parece ser, inclusive, um dos principais fundamentos da atitude violentamente subversiva do narrador-personagem desse romance.
Sendo assim, quando a personagem diz que só existem dois caminhos, o da virtude e o do vício, e o caminho dele é o da segunda natureza, ele não está sendo incorreto, mas sim coerente com a visão de mundo dele. Segundo a sua perspectiva, é o mundo esclarecido que segue o caminho do vício: o vício no controle, a obrigação da obediência, o império da razão. Segundo essa tortuosa visão, razão e dinheiro são símbolos irmanados.
14A título de ilustração, vejamos o que diz Platão sobre o governo dos bons: [...] os bons não querem
governar nem por dinheiro nem em troca de honras; nem reclamando abertamente uma recompensa pelo exercício de seu cargo querem merecer o nome de assalariado, nem o de ladrões [...]. E tampouco lhes interessam as honras, porque não são ambiciosos. Precisam, pois, ser induzidos e coagidos a governar pelo temor ao castigo; [...]. O maior castigo está em ser o que recusa; governado por um homem mais perverso. E é esse temor, segundo me parece, que induz os bons a governar – não porque assim o desejem, mas porque não têm outro remédio; e tampouco com a ideia de que irão tirar proveito disso [...] (PLATÃO, 2011, p. 39).
Temos, então, na cena em questão, a presença de todos os elementos importantes do discurso subterrâneo mutarelliano: a subversão da lógica corrente, o apreço à distorção dos símbolos e a imagem do sujeito que “atesta a realidade” – a tortuosa, imprecisa e criada realidade – do outro.
Quando o “cientista maluco” seleciona a nota de maior valor e trabalha para deixar com aparência de nova, vemos a imagem da realidade corrente sendo reconstruída a partir do símbolo da nota: o maior e mais organizado dos valores. Por sua vez, quando essa mesma nota é rasgada, num ritual que parece emular o autoerotismo – a concentração, a distorção das expressões faciais, a euforia do ato –, vemos essa mesma realidade sendo simbólica e concretamente subvertida, destruída. Desse modo, é possível perceber que a realidade proposta pelo vício do cliente se configura enquanto o prazer simbólico de subverter as leis da realidade ao seu redor. Num geral, esse prazer parece ser caracterizado enquanto atitude íntima e particular. No entanto, quando essa experiência passa a ser compartilhada com o outro – o protagonista, no caso –, vê-se o fator de euforia escalonar drasticamente: as personagens alternam-se no frenesi da destruição, chegam mesmo a criar uma espécie de jogo erótico, de competição, e a experiência culmina, por fim, no gozo – e novamente aqui ressurge a ideia de autoerotismo, agora acompanhada também do voyeurismo. É como se, ao compartilharem o ato vicioso e desviante, as personagens atestassem uma a realidade da outra, suportando-se, incentivando-se coletivamente na perspectiva subversiva, destrutiva. O mesmo movimento ocorre, por exemplo, na cena com o cliente dos soldadinhos de chumbo, que já há muito discutimos.
Vemos então que toda a narrativa parece culminar para a ideia da desconstrução, da subversão, da ruptura destruidora da lógica e dos valores burgueses e capitalistas – ruptura essa que é lida aqui com tons de prazer, de libertinagem ou mesmo de libertação. É o fim absoluto do mundo iluminado, do mundo esclarecido, do mundo civilizado; atingido em suas funções mais fundamentais, o mundo capitalista rui diante da existência dessas personagens. Um dono de uma loja de penhores que nada vende e baseia suas compras em valores outros que não os do mercado; um homem que vende objetos valiosos única e exclusivamente para alimentar o vício de rasgar dinheiro (ação subversiva ao ponto de ser considerada crime). O direito a propriedade privada é posto em questão aqui, ele é subvertido: se eu possuo o dinheiro, se eu possuo o objeto, não
cabe também, portanto, a mim, como possuidor, como proprietário, o direito de destruir esse mesmo produto, esse mesmo objeto, essa mesma “coisa”?