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L ES A SPIN E A R EVISÃO DE B AIXO PARA C IMA

No documento I NTERVENÇÃO NOA FEGANISTÃO :U (páginas 31-34)

1.3 A D ÉCADA DE 1990

1.3.5 L ES A SPIN E A R EVISÃO DE B AIXO PARA C IMA

Quando o presidente William (Bill) Clinton (1993-2001) nomeou Leslie (Les) Aspin seu secretário de Defesa em 1993, ao novo secretário foi dada a missão de definir a estratégia militar norte-americana para o contexto do pós-Guerra Fria. Aspin iniciou um processo chamado “Revisão de Baixo para Cima” – Bottoms-Up Review (ou BUR) – cuja missão era repensar cada aspecto da política militar americana. Aspin chegou a basicamente quatro conclusões (FRIEDMAN, 2004: 83-84):

1. O interesse principal dos Estados Unidos era a manutenção da estabilidade mundial como base para a expansão global da prosperidade econômica. Dessa forma, a missão dos militares norte-americanos era manter a estabilidade planetária através de intervenções contra potências menores dentro de um contexto de coalizões. Os Estados Unidos não teriam que lidar com um rival à altura, como foi a URSS.

2. Os EUA, portanto, teriam que continuar projetando força por todo o mundo afora, inclusive em lugares inesperados e em momentos não antecipados (as Forças Armadas deveriam ser capazes de fazer isso).

3. Porém, o maior problema, evidenciado na Operação Tempestade no Deserto (Iraque, 1991) era que as Forças Armadas dos Estados Unidos eram muito pesadas. Levaria-se cerca de seis meses para se montar uma força capaz de lançar um ataque substantivo, ou seja, algo muito demorado.

4. Dessa forma, os EUA precisavam construir uma força mais leve e mais rápida, com grande ênfase em tecnologia e que fosse capaz de lidar com uma inúmera variedade de inimigos que eventualmente entrariam em confronto naquele novo contexto.

Os militares norte-americanos ficaram divididos quanto à visão de Aspin. A Força Aérea gostou, da mesma forma que o Comando de Operações Especiais, já que seria ampliada a tecnologia disponível para ambos, tornando-os mais “letais” e importantes. O Exército, por outro lado, não gostou dos resultados da “Revisão de Baixo para Cima”. Tal arma havia construido sua força em torno de blindados e helicópteros, ambos levando muito tempo para serem desdobrados ao campo de batalha e precisando de altos níveis de suprimentos para operarem. Com a BUR, o Exército viu o seu papel ser diminuido. A partir de tal revisão, surgiu a visão de que a projeção de poder dos EUA teria duas bases: o poder aéreo e as Forças de Operações Especiais. Esse era o quadro de trabalho, aliás, com o qual os planejadores trabalharam quando delinearam a invasão do Afeganistão quase uma década depois. A Força Aérea dos Estados Unidos desenvolveu um conceito chamado “Alcance Global” (Global Reach), que significava que a força poderia atacar alvos a partir de bases localizadas nos próprios EUA, usando bombardeiros de longa distância. Isso economizaria tempo, já que não seria necessário enviar, em um primeiro momento, aviões táticos ao teatro envolvido ou manter navios ao redor do mundo. O conceito de “Alcance Global” colocou a Força Aérea dos Estados Unidos da América no centro da emergente nova estratégia norte-americana (FRIEDMAN, 2004: 84). Simultaneamente, o Comando de Operações Especiais e as Forças Especiais do Exército americano apresentavam soluções para o deslocamento mais rápido de tropas e efetivo do que as unidades convencionais do Exército.

As Forças de Operações Especiais viam a sua missão da seguinte maneira: deveriam levar a letalidade rapidamente. Dessa forma, elas propuseram três maneiras de fazer isto. Primeiro, as suas próprias forças poderiam entrar rapidamente em um país hostil e executar operações encobertas precisamente. Segundo, as Forças Especiais do Exército poderiam penetrar as fronteiras de determinado país, juntar-se à forças locais que eventualmente compartilhassem dos interesses dos Estados Unidos e guiá-las nas batalhas. Finalmente, na terceira maneira, os operadores especiais poderiam localizar alvos e chamar ataques aéreos contra tais alvos (e poderiam fazer isto em dias em vez de meses). Particularmente nos pequenos conflitos dos anos 1990, o Comando de Operações Especiais se percebia lutando a guerra até que o Exército convencional pudesse chegar para ocupar o país.

Um novo modelo de guerra, baseado em três pilares, começou a emergir. O poder de fogo pesado não viria da artilharia e dos tanques, mas dos aviões. As forças de combate de solo seriam mais leves, rápidas e sofisticadas tecnologicamente, além de organizadas pelo Comando de Operações Especiais em vez do Exército convencional. Quando forças terrestres maiores fossem necessárias, elas poderiam ser recrutadas, treinadas e guiadas pelas Forças Especiais do Exército dentro da nação inimiga. Isto resolveria o problema de levar as forças pesadas do Exército ao conflito. Assim, os planejadores foram levados a um princípio básico da guerra americana que remonta ao período anterior à Primeira Guerra Mundial (1914-1918): os Estados Unidos não lutam sozinhos, mas sim com coalizões, quer sejam de forças locais, quer sejam de Estados-nação (FRIEDMAN, 2004: 85). O modo de guerra sugerido por Aspin aumentou a dependência dos EUA em relação à outras nações, bem como em relação à forças locais. Isto levou as Forças Especiais ao centro da estratégia emergente, já que era o trabalho destas fazer com que uma força local lutasse pelos Estados Unidos.

As Forças Especiais (também chamadas de Boinas-Verdes e “Comedores de Cobras”, além de auto-denominadas “Profissionais Silenciosos”) foram criadas nos anos 1950 com a missão de conduzir guerra com táticas de guerrilha atrás das linhas soviéticas no caso de uma guerra na Europa (dado o contexto da Guerra Fria)9. Os Boinas-Verdes se desenvolveram na

Guerra do Vietnã (1959-1975) como uma força que podia conduzir operações irregulares por conta própria, ou com forças vietnamitas ou do Laos – às quais as Forças Especiais davam treinamento. Nos anos 1980, as Forças Especiais foram integradas ao Comando de Operações Especiais. O Exército regular não se sentia confortável com as suas próprias Forças Especiais, além de que também não gostava do Comando de Operações Especiais. Entretanto, as Forças Especiais eram a chave de todo o novo conceito que emergia nos EUA dos anos 1990. Foram feitas para se moverem antes do início de uma batalha principal, juntarem-se à forças amigas dentro de determinado país, entregar inteligência à Força Aérea e também atacar forças inimigas diretamente. Do ponto de vista de Aspin, as Forças Especiais eram a solução para o problema estratégico dos Estados Unidos. O fato de que os Boinas-Verdes podiam trabalhar bem em sincronia com a Diretoria de Operações da Agência Central de Inteligência aumentou ainda mais a utilidade dos “Profissionais Silenciosos”.

Já o papel do Exército convencional seria se mover após o Comando de Operações Especiais e a Força Aérea (ou aviões baseados em porta-aviões) terem atacado o inimigo. O

9Para um relato mais detalhado sobre a origem das Forças Especiais, ver Col. Aaron BANK. From OSS to

Exército finalizaria o trabalho e ocuparia o país eventual. Na nova visão de Aspin, o papel de combate do Exército começaria no fim do auge da guerra. O Exército conduziria as batalhas finais, com poucas baixas assim, e se estabeleceria no território ocupado. Enquanto isso, as Operações Especiais se ocupariam das “glórias” maiores. Naturalmente, os comandantes de tanques não gostaram desta nova visão. Era, porém, o tipo de guerra usado na Operação Tempestade no Deserto e no Afeganistão (FRIEDMAN, 2004: 86).

No documento I NTERVENÇÃO NOA FEGANISTÃO :U (páginas 31-34)

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