III Casos de estudo
3.1 La Villette, Paris
Arquitecto: Bernard Tschumi
Localização: 211 Avenue Jean Jaurès, 75019, Paris, France Área: 550 000 m²
III Casos de Estudo
69 Vencedor do concurso internacional para o projecto do Parque de La Villette, entre 1982 e 1983, Bernard Tschumi34 teve a seu cargo a transformação de um espaço residual, um antigo matadouro, num parque urbano para o século XXI (Malheiro, 2011: 2).
34
Bernard Tschumi é um dos arquitectos mais importante dos dias de hoje. Conhecido como teórico, destacou-se no concurso para o Parc de La Villette com a sua arquitectura inovadora em 1983, um parque dedicado à cultura e à natureza. Tschumi introduz diversas disciplinas no seu trabalho, como a literatura e o cinema, provando que a arquitectura deve participar em polémicas da cultura e questionar as suas fundações.
Pós-graduado no Instituto Federal Suíço de Tecnologia (ETH) em Zurique, Tschumi leccionou arquitectura em várias instituições, incluindo a Architectural Association em Londres, Universidade de Princeton, e The Cooper Union, em Nova Iorque. Em 1996 foi premiado pela Grand Prix National d'Architecture, em França, bem como pelo Instituto Americano de Arquitectos e o National Endowment for the Arts.
Foi director da Faculdade de Arquitectura, Planeamento e Preservação da Universidade de Columbia entre 1988-2003 e é actualmente professor na Graduate School of Architecture. O trabalho de Tschumi é exibido em exposições individuais no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, na Bienal de Arquitectura de Veneza, no Instituto de Arquitectura da Holanda, em Roterdão, no Centro Pompidou, em Paris, bem como outros museus e galerias de arte nos Estados Unidos e na Europa. Tschumi reside permanente nos Estados Unidos e tem cidadania francesa e suíça. http://www.tschumi.com/bernard- tschumi/
Figura 80 – Matadouro de La Villete.1868
http://lavillette.com/en/history/
Figura 81 – Antigo matadouro existente no local de implantação do futuro parque. 1868 Arquitecto Louis Javier
O programa era composto por diversos equipamentos de carácter cultural, de entretenimento e de apoio, tais como: jardins, galerias de arte, teatros, zonas desportivas, zonas de restauração e comércio, zonas infantis, zonas de exposições, um Museu da Ciência e da Tecnologia e da cidade da Musica, já existentes.
Este parque urbano resulta da justaposição e combinação de várias actividades onde o arquitecto procurou estabelecer uma dimensão autónoma no projecto, no só na arquitectura, como palco de acção, as que se exteriorizava e remetesse a reflexões sobre espaços, cidade e esfera pública.
Tschumi entendeu que era necessário destabilizar a prática social da arquitectura, integrando teoria e prática, onde a primeira deveria desenvolver conceitos e estratégias, possibilitando a prática construtiva critica e experimental, que pudesse descontextualizar o pensamento sobre arquitectura, assim como as formas de concepção e representação.
Este procurou transformar um lugar-comum, questionando as pré- existências do espaço e repensando este novo lugar onde visava construir espaços que fugissem à logica e ao actual rigor do espaço urbano.
Neste sentido, estes lugares seriam espaços residuais, sem controlo e, por isso, lugares expectantes onde seria calculável emergir algo novo.
Deste modo, previa criar meios arquitectónicos que viessem a destabilizar as relações sociais e a resistência à organização da cidade que funcionalizava o espaço e tornava-o parcial e programado.
Tschumi defendia que o projecto deveria articular-se com a sua envolvente e não ignora-la e, deste modo, La Villette deveria assumir-se como um novo conceito de cidade, numa estrutura onde o natural e o artificial se misturassem num estado de constante reconfiguração e descoberta, com a paisagem e a natureza como forças dominantes.
De acordo com o programa urbano proposto pelo governo francês, Tschumi considerou quatro estratégias de projecto: 1) desenhar uma construção majestosa, num gesto de arquitectura inspirador (a Figura 82- Feira de divertimento na
Fontaine aux Lions esplanada.1980 EPPGHV / Fonds SEMVI - Marcel Kérignard
III Casos de Estudo
71 composição); 2) aproveitar as pré-existências, enchendo os vazios, redesenhando as margens (o complemento); 3) desconstruir o existente analisando as camadas históricas que o constituem, podendo adicionar novas camadas de outras origens (um palimpsesto); 4) procurar um intermediário – sistema abstracto para medir entre o espaço e algum outro conceito, alem da cidade ou do programa (a mediação) (Tschumi in Malheiro, 1994: 192).
Eliminando à priori as duas primeiras estratégias, devido à redução da primeira aos mitos da arquitectura antiga e ao pragmatismo enfraquecido da segunda. Seguidamente exclui também a terceira estratégia por não possuir compatibilidade com o programa proposto, com a técnica e a política, provocando varias restrições.
Por conseguinte, a estratégia adoptada passou pela construção de mediações, procurando criar uma nova tipologia criadas com novas conexões, entre o programa, a forma, a ideologia e o espaço, num novo protótipo de parque como reflexo de um novo programa.
Tschumi adoptou a desconstrução35 e a sobreposição numa primeira abordagem ao programa e ao espaço disponibilizado. Abstraindo a espacialização do parque, que “ignoram” os modelos precedentes da época, procurou espalhar e sobrepor os elementos que o constituem, montando, deste modo, a estratégia base – uma mediação abstracta –
35
Princípios da desconstrução de Jacques Derrida, filósofo franco-magrebino Figura 83 – esquiço do parque. Bernard Tschumi
como conceito físico do parque tornando-o num conjunto de relações e configurações – continuidades, descontinuidades, limites, fronteiras, barreiras, cheios, vazios e intervalos (Tschumi. In: Malheiro, 2013: 55).
Procurando criar uma interacção dinâmica da futura forma do parque através da articulação das vias, dos limites, dos bairros, dos
cruzamentos e dos pontos marcantes de La Villette.
Deste modo, são criados três sistemas abstractos: superfícies – espaços verdes abertos; linhas – os caminhos do parque; e pontos – estruturas icónicas pintadas em vermelho sem um programa pré-definido. Este conjunto de sistemas articulava-se com o conjunto de edificações pré- existentes e propostos.
Assim, pretendia-se que o espaço do parque desregulasse e deslocasse o seu sentido, colocando-o em constante mudança, através dos pontos que estabelecem uma progressiva e constante mutação (Tschumi in Malheiro, 1994: 201).
Este sistema de pontos, composto por uma grelha ortogonal de folies, tinha como objectivo atrair a socialização, como um sistema de relações entre objectos, eventos e pessoas, ancorados num espaço decomposto.
Inseridos numa malha ortogonal de 120m, os pontos, denominados pelo Arq. de folies, são o denominador comum do parque e os ícones do projecto. O projecto das folies é formado por uma estrutura espacial base – Figura 84 – inserção do parque em contexto urbano.
http://www.tschumi.com/projects/3/
Figura 85 – esquema/perspectiva. http://www.tschumi.com/projects/3/
III Casos de Estudo
73 um conjunto cubico, formado por 27 cubos (3x3x3) – a partir da qual se (des)construía a variação formal das folies que compõem o sistema (Malheiro, 2011: 5).
O sistema de superfícies era formado por duas zonas: a Prairei du Cercle (separado pelo canal de L’Ourcq) e a Prairie du Triangle. Nestas bolsas extensas realizam-se actividades lúdicas, desportivas e de entretenimento, e eram consideradas como zonas de força, ampliação e conflito entre as actividades – folies – e as circulações – eixos, promenades e alamedas.
O sistema de linhas era composto por um conjunto articulado de ligações e demarcações das várias superfícies do espaço, uma vez que estas ligações eram diferenciadas por características interiores - como o modo de circulação que induziram – e exteriores – pelo modo como se relacionariam com as ligações adjacentes – em três tipos: eixos de galerias cobertos, promenade cinemática36 e alamedas de árvores. Deste modo, as galerias cobertas funcionam como um elo de articulação ao parque e com as infra- estruturas que o envolvem.
36 Linhas de circulação com características opostas aos eixos de coordenadas.
Frente à racionalidade das articulações e ao desenho sintético dos eixos, a promenade induziria a fruição da paisagem, por meio de um percurso concebido a partir de uma analogia com as montagens cinematográficas.
Estas seriam composta por jardins projectados por arquitectos convidados, jardins-frames simultaneamente completos e incompletos, que qualificariam, reforçariam ou alterariam as partes que os iriam preceder ou suceder (Malheiro, 2011: 6).
Figura 87 – esquema da promenade cinemática
http://designatureworks.com/post/69842439421/bernard-tschumi-parc-de-la-villette-paris
Figura 86 – Esquiço. Bernard Tschumi.1982
http://designatureworks.com/post/69 842439421/bernard-tschumi-parc-de- la-villette-paris
Por fim, as folies, consideradas como arquitectura de intervalos e de espaçamentos, inseridos pontualmente no parque, pois sem estas os cheios perderiam o significado e deixariam de funcionar, existindo uma relação directa entre cheios e vazios.
Compostas por inter-relações entre a constante da sua forma (o cubo), a posição, a cor (vermelho) e o seu programa variável, resultava de uma sucessão de acções e repetição, sobreposição, mutação e fragmentação.
Tschumi considerou que as folies deveriam funcionar como pontos de ancoragem através da sua função e pelo evento que nela tomaria lugar, pois percorrer os espaços ao longo do parque, o visitante deparar-se-ia sempre com as folies que, apesar de destintas, remetiam sempre à mesma essência, o cubo por elemento comum, vários fragmentos retirados de uma
forma comum (Malheiro, 2013: 7).
Deste modo, no projecto de La Villette, o evento seria identificado como um processo, um ponto de viragem e não uma origem ou um fim. Tornando-se próprio do espaço, o evento proporcionava um intervalo numa condição de igualdade por todo o parque.
Figura 88 – esquema de Folies – explosão
https://paddle8.com/work/bernard-tschumi/27340-exploded-folie
Figura 89 - Vista geral do parque http://lavillette.com/en/history/
III Casos de Estudo
75 Os espaços vazios do parque manifestam-se como intervalos entre espaços programados, lugares imprevisto, pois as fendas de espaços seriam assumidas como um interstício programático, um espaço de excepção e desvio, fora de um programa normativo.
O parque quebrava as orientações pré-definidas e proporcionava alternativas espaciais com o objectivo de suscitar reflecções aos usuários, ao criar uma estrutura sem centros, sem hierarquias e sem pontos de convergência, as novas estratégias permitiam a fragmentação da sua arquitectura.
Sendo considerada uma obra aberta, é composta por vários espaços dotados de características distintas que promovem a deambulação pelos percursos e pelos eventos.
Figura 90 – Vivências no parque
III Casos de Estudo
77