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Regionalismo e Pré-modernismo O lugar do humor

1.1. Um gaúcho nos liames da história

1.1.4. Labirintos da memória, corredores do tempo

Curioso como a vida depende dessas pequeninas coisas, do fio de um pavio, do sutil fio de uma aranha tecedeira fazendo e desfazendo, criando e recriando o mundo para a gente ver, como uma escrita para a gente ler, como uma teia para nos prender.

Autran Dourado Como se mencionou, ao tecer suas narrativas, o velho Blau relata fatos que teria vivenciado num tempo distante daquele em que conversa com seu interlocutor, afastando-se de suas aventuras por meio de uma lacuna temporal que o coloca em um espaço diferente daquele desenhado nas histórias contadas, transformado e retalhado pelas marcas do progresso. A separação que se coloca entre esses dois segmentos projeta um distanciamento que deixa de ser apenas temporal para assumir um tom ideológico e moral (REIS; LOPES, 1988, p.239-242), delineando traços psicológicos que caracterizam esse narrador, autodiegético, com maior profundidade e nitidez e revelam a nostalgia de um herói caboclo, que se emociona ao se lembrar da empolgação que experimentava ao correr eguada, tempo aceso apenas na chama da memória, que ilumina suas recordações:

É verdade que há muita coisa boa, isso é verdade... Mas ainda não há nada, como antigamente, tomar mate e correr eguada...

Xô-mico! Vancê veja... Eu até choro!... Ah! Tempo! (LOPES NETO, 2003, p.344)

Essa lacuna temporal distancia o narrador de sua juventude, vivida entre vaqueiros e soldados e, de certa forma, também o diferencia do interlocutor com quem compartilha suas aventuras, já que além de possuir autoridade para narrar - que lhe é conferida por ter participado dos fatos como protagonista, construindo um discurso autobiográfico -, também se utiliza de sua experiência para imprimir uma função didática às suas narrativas, colocando-se como elemento detentor de um saber que deve ser compartilhado: “Se vancê fosse daquele tempo, eu calava-me, porque não lhe contaria novidade, mas vancê é um guri, perto de mim, que podia ser seu avô... Pois escuite” (LOPES NETO, 2003, p.340).

Na lógica da sabedoria adquirida, esse caráter pedagógico do narrador dos

Contos gauchescos avulta na medida em que se evidencia o intuito de ensinar ao jovem os

traços que norteiam o comportamento do caboclo, culminando com a sistematização dos “artigos de fé do gaúcho”. Retomando o ato de aconselhar, uma das principais funções do narrador tradicional, a figura de Blau Nunes concretiza a recuperação da forma “artesanal” de contar histórias, trazendo para o texto literário uma tradição quase apagada por um processo de transformações da arte de narrar, que passou a ser gradativamente substituída pela forma artística que privilegia a narrativa escrita, encerrada na solidão do autor e do leitor, cujo ápice encontrou seu lugar no advento do romance: “o conselho, entretecido na matéria da vida vivida, é sabedoria. A arte de narrar tende para o fim porque o lado épico da verdade, a sabedoria, está agonizando” (BENJAMIN, 1983, p.59).

Sob essa perspectiva, a imagem de Blau Nunes constrói-se a partir dos traços que compõem a figura do narrador tradicional, que tece suas histórias com os fios da experiência adquirida ao longo da vida. Aparentado ao modelo arcaico do lavrador sedentário, que conhece os costumes e tradições do espaço em que viveu (BENJAMIN, 1983, p.58), o velho gaúcho ata vida e narrativa, de modo que as dezessete histórias que conta resvalam para a forma e o conteúdo do caso popular, que se enovela aos liames da narrativa por meio da voz e da imagem do velho contador.

Ademais, a forma do caso popular, em fins de século XIX no Brasil, reproduz o modo de vida roceiro, as crenças, medos e modelos de comportamento em que a honra e a coragem entram como componentes intrínsecos do cotidiano. É no caso, contado ao redor do

fogo, ao fim de um dia de trabalho, que se entrecruzam a vida e o imaginário, de modo que a incorporação dessa forma popular pela literatura de João Simões Lopes Neto filia a narrativa do autor – e, por extensão, o cenário que ela constrói – a um conjunto de valores representados por um universo essencialmente masculino, em que o trágico se funda na morte, na violência e nas diferentes histórias do folclore de cada região:

Sem deixar de ser obra culta, de autor individual, coerente e monocrônico (sintético, como o define Hermann Lima) o conto de Simões Lopes, pela maneira com que utiliza o popular, conserva deste um certo dinamismo, uma espécie de eco da voz do povo, que consegue proporcionar ao leitor a ilusão de estar ao pé do fogo, ou pelos caminhos, seguindo avidamente Blau Nunes em suas narrativas que, se têm muito de realistas, por vezes beiram o fantástico. (CHIAPPINI, 1988, p.333)

A maneira como João Simões Lopes Neto (2003) promove a apropriação da forma popular pela literatura erudita, já foi analisada de modo profícuo por Ligia Chiappini (1988), que discorre a respeito da criação literária da imagem de um narrador tradicional na obra do autor pelotense. Partindo do aparente paradoxo que se funda na figura de um contador de casos - tecedor de narrativas que se baseia na tradição oral de contar histórias - que tem suas histórias emolduradas pela palavra escrita, a autora aponta para a maneira peculiar como João Simões atualiza o popular pela escrita: à fala que se entrecruza à letra, atar-se-ia a representação de um universo plural, mobilidade que encontra respaldo no apagamento da fala de um narrador culto e na cessão da voz a um homem do povo, que recria o folclore, as lendas e os costumes da região em que teria vivido e os funde à tessitura da narrativa.

A imagem do contador de histórias é recorrente na prosa literária dos últimos anos do século XIX e princípio do século XX. Autores como Valdomiro Silveira, Hugo de Carvalho Ramos e Coelho Neto encontraram, na imagem do narrador popular, solo fértil para a recuperação e a afirmação de traços sintetizadores de particularidades locais. Alfredo Bosi (1966) chama atenção para essa questão e aponta para o artificialismo e a superficialidade da fala desses narradores, em parte representantes do descritivismo pitoresco e exótico dessa literatura:

Em outro momento de nossa história literária, esse conjunto de narradores poderia ter assumido papel renovador se não revolucionário, tal a semelhança de motivos e de formas que os avizinha e tal a diferença de espírito que os extrema dos prosadores ditos naturalistas do século passado. Mas careciam de uma dimensão: a da consciência histórica, que teria dado outro lastro ao descritivismo sentimental em que se moviam. (BOSI, 1966, p.57)

Ligia Chiappini (1988) particulariza a obra de João Simões Lopes Neto ao apontar o “achado técnico” que apaga da narrativa a voz do narrador erudito – que nas páginas dos outros autores citados se diferenciava graficamente da fala do homem do sertão pela marcação de aspas que avultavam os traços do dialeto caipira. Esse apagamento é também responsável por certa mobilidade que impregna as histórias narradas por Blau Nunes justamente por serem retiradas de um material específico do âmbito popular (CHIAPPINI, 1988, p.339). Alfredo Bosi (1966), ao contrário, inclui o autor em um mesmo grupo, caracterizado pela suposta ausência de uma dimensão histórica que dê respaldo ao aspecto descritivo da voz desses narradores.

Embora de naturezas diversas, os critérios utilizados pelos dois críticos entrecruzam-se na medida em que a consciência histórica reivindicada por Alfredo Bosi não se encontra ausente da figura do narrador popular, recuperada por Simões Lopes Neto com características estéticas e estilísticas que o diferenciam do conjunto definido por Bosi (1966). Nesse sentido, a recuperação da forma simples por meio de um processo que valoriza a fala do homem popular e, por isso mesmo, mantém a forma escrita do causo aberta à multiplicidade do universo representado (CHIAPPINI, 1988), não se manifesta de modo alheio à temporalização histórica dos fatos narrados por Blau Nunes. A matéria popular das lendas e do folclore sulino é, portanto, submetida a uma marcação temporal inerente à composição de um personagem-narrador que constrói sua narração a partir da recuperação dos principais acontecimentos de sua vida.

Sob essa perspectiva, a construção de Blau Nunes como um narrador que sintetiza e recupera em seus contornos e em sua voz a imagem de um narrador tradicional, empenhado em manter aceso o folclore e os costumes de sua região por meio de sua fala, ata- se à determinação histórica que se projeta da referência temporal que se apreende das narrativas do gaúcho. Essa fusão entre uma e outra determinação – a matéria folclórica, que se esperaria desprovida de restrição cronológica, e a ancoragem histórica da fala do narrador – sustenta o tom de melancolia que impregna toda a narração de Blau Nunes, colocado em um presente de fala que recupera um passado irremediavelmente perdido com o progresso e as transformações espaciais e sociais a que se submeteu o Rio Grande do Sul no contexto em que teria vivido o velho Blau.

A síntese entre a observação natural da realidade e uma certa “sede romântica de sentimento”, apontada por Alfredo Bosi (1966, p.13) na literatura de João Simões Lopes Neto, encontra na lacuna temporal que define a figura de Blau Nunes, em Contos gauchescos (LOPES NETO, 2003), espaço para a representação heróica do passado em contrapartida ao

presente de carências e marginalização que o velho gaúcho protagoniza aos oitenta e oito anos. A apurada consciência da decadência e da inexorabilidade do progresso, que se desenha na narração de Blau por meio do saudosismo de outrora e da necessidade de ensinar ao jovem interlocutor os costumes e tradições que edificaram o caráter do povo gaúcho, é justamente o que garante ao texto de Simões Lopes Neto uma consciência histórica que não deixa de projetar não apenas uma constatação crítica das condições de abandono do sertanejo gaúcho, mas também uma dimensão humana que ultrapassa o descritivismo do pitoresco local e alcança certa profundidade psicológica, atada à voz do personagem.

Se Sherazade adia a morte pela fala, o narrador de João Simões também reconstrói a vida pela memória, atando o passado e o presente nas malhas de seu discurso. Testemunha das transformações políticas, econômicas e sociais do Rio Grande do Sul, conhecedor do espaço, dos costumes, das lendas e do povo no tempo em que viveu, Blau Nunes recorda a sua história e também a história da região sulina do Brasil, ligando aos liames da memória individual a esfera coletiva da sociedade em que viveu. A matéria que enovela as narrativas desfiadas pelo narrador-contador está submetida à recordação de Blau, de modo que ao filtro ideológico da voz corresponde, ainda, a subjetivação da perspectiva que determina a seleção dos acontecimentos narrados. A metáfora da memória enquanto baú de roupas que se colocam ao sol por meio da fala antecipa, na apresentação feita pelo narrador culto no início do texto, a inserção do homem no relato, de modo a não somente atribuir ao velho gaúcho a autoridade que a vida lhe conferiu para entoar suas histórias (BENJAMIN, 1983), mas também a entrever a dimensão psicológica que impregnará narração e narrativa:

E, do trotar sobre tantíssimos rumos, das pousadas pelas estâncias; dos fogões a que se aqueceu; das coisas que ele compreendia e das que eram-lhe vedadas ao singelo entendimento; do pêlo-a-pêlo com os homens, das erosões da morte e das eclosões da vida, entre o Blau – moço, militar – e o Blau – velho, paisano -, ficou estendida uma longa estrada semeada de recordações – casos, dizia -, que de vez em quando o vaqueano recontava, como quem estende ao sol, para arejar, roupas guardadas ao fundo de uma arca. (LOPES NETO, 2003, p.306)

O significado da criação de Blau Nunes como um modelo que retoma não apenas a forma, mas o conteúdo que alimentava a fala do narrador popular tradicional, desdobra-se no livro de João Simões Lopes Neto e atinge a dimensão do humor que se entretece aos causos contados pelo vaqueano. Às diferentes nuances assumidas pelo trágico nas narrativas que entoam ora os sons do campo de batalha, ora o pranto e a violência dos tempos de paz relaciona-se uma nova tonalidade da tragicidade na figura do velho contador que se coloca ligado a um tempo irremediavelmente perdido. O humor, como contraste de

opostos, não se concretiza individualmente na tessitura do fio narrativo que sustenta cada um dos dezessete casos – ora trágicos, ora cômicos - contados pelo vaqueano, entretanto, a melancolia da voz do contador alinhava essas histórias por meio da dimensão psicológica do relato de quem se reconhece incapaz de se enquadrar em uma sociedade já industrializada e essencialmente urbana, como se o tropeiro houvesse perdido o trotar de seu tempo, impossível de se reviver fora do baú da memória.

Se entre o jovem Blau, soldado e vaqueiro, e o velho contador coloca-se uma série de aventuras, transformadas em causos por seu discurso, a tristeza que brota do vazio provocado pela perda de identidade do caboclo dilui-se nas águas de suas narrativas e se cristaliza nas digressões que permeiam sua conversa, encontrando vazão no dinamismo da comicidade que ameniza essa melancolia ao mesmo tempo em que auxilia na composição de da síntese de um processo de transformações, incorporadas ao texto literário por meio da voz do contador:

Se levarmos em conta o presente da narração, essa tristeza se intensifica na voz do gaúcho velho, percorrendo os campos-feito-taperas, retalhados e empobrecidos, de onde procura desenterrar o passado, sabendo-o, no entanto, irremediavelmente perdido com a sua juventude e o apogeu da estância. (CHIAPPINI, 1987, p.97)

Enquanto se mostra saudoso de sua juventude e, por contraste, revela a decadência do presente em que vive, o tapejara constata uma situação de debilidade, que começa a ser criada pelas novas forças que regem a política e a economia brasileiras, e traceja uma primeira reflexão sobre essa condição marginal do caboclo, conjecturando sobre o atraso dos meios empregados pelos homens locais no cultivo das terras em relação aos imigrantes, que chegam ao Brasil trazendo para o campo novas formas de produção, além de explorar recursos ignorados pelos sertanejos: “veja vancê: sempre a estrangeirada especulando cousas de que a gente nem fazia caso...” (LOPES NETO, 2003, p.340).

Sob esse aspecto, uma crítica sutil ao advento da modernização e às transformações promovidas pela industrialização delineia-se por meio do deslocamento do gaúcho, envolvido por um espaço recortado, não mais conhecido em todos os detalhes porque vertiginosamente instável. O velho gaúcho transita sobre o fio que separa espaços e tempos diversos e, no limiar entre presente e passado, constrói um universo diegético que é o próprio retrato de um mundo que se perdeu: embora preso às suas recordações, o gaúcho coloca-se como um ponto de mediação entre esses dois pólos, já que não se adapta ao espaço urbano, mas também não mais pertence ao campo como o fora outrora, pois

[...] por mais urbanizado que se torne, guardará sempre, no fundo da alma, a marca da vida campesina e, vendo-a agora à distância, esquecer-lhe-á as agruras para dela conservar apenas uma imagem de simpleza idílica, que contrapõe nostalgicamente às complicações da vida civilizada. (PAES, 1985, p.246)

E se a voz de Blau Nunes promove o trânsito entre presente e passado, o humor responsabiliza-se pela síntese entre o cômico e o trágico dentro da narrativa de João Simões Lopes Neto, aquela que engloba e entretece todos os causos narrados pelo velho gaúcho. Nesse sentido, se o tom de melancolia liga-se à perda da identidade do gaúcho em meio a uma nova configuração sócio-política, o riso articula-se a um movimento de derrisão dos elementos responsáveis por essa inadequação do gaúcho - seja em relação ao poder, seja no que diz respeito à tentativa de rebaixamento da figura do estrangeiro, verdadeira ameaça à posse do território e ao progresso do crioulo riograndense.

Funde-se, pois, a perspectiva temporal dessa inadequação - expressa pela lacuna que se coloca entre o eu que narra e aquele que se mostra como personagem de suas histórias - à tentativa de afirmação de uma imagem de coragem, opulência e soberania - face latente no pólo oposto à derrisão da figura do outro. Entre o passado e o presente, entre o cômico e o trágico, a derrisão e a louvação, o humor coloca-se como elemento sintetizador de tensões incorporadas à narrativa, de modo que a sua própria natureza híbrida (PIRANDELLO, 1996) mostra-se como característica favorável a essa absorção de opostos que se complementam dentro de uma mesma face conciliadora.

Como substrato de absorção de tensões contextuais, perpassado invariavelmente pela dimensão humana de um espaço físico que lhe serve de meio e de fim, a literatura regionalista de Simões Lopes Neto relaciona-se ao humor justamente no que lhe cabe de humano e fugidio: a perspectiva temporal de um mundo que se esvai ante a marcha inevitável do progresso. Sob essa perspectiva, o velho narrador de Contos gauchescos (LOPES NETO, 2003) é o gaúcho que se firmou enquanto tipo em um momento de glória da história do Rio Grande do Sul e vê sua imagem desfeita pelos valores de uma nova realidade, homem que se coloca entre dois tempos distintos e se reconhece como produto inconciliável de ambos, restando ao leitor reconstituir - não sem compaixão - os estilhaços de um tempo que se desfez.