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Lagoa do Junco enquanto campo social na perspectiva de Bourdieu

LAGOA DO JUNCO

4.5 Lagoa do Junco enquanto campo social na perspectiva de Bourdieu

Quando se considera o espaço social do assentamento Lagoa do Junco, enquanto um campo social, frente às características do mesmo, é necessário retomar o referencial teórico desse trabalho, o qual aponta que os campos têm suas próprias regras, princípios e hierarquias. São definidos a partir dos conflitos e das tensões no que diz respeito à sua própria delimitação e constituídos por redes de relações ou de oposições entre os agentes sociais que são seus membros. Demonstra ainda Bourdieu que há, em cada campo, princípios de organização que lhes são próprios.

121 Destinado a atender exclusivamente o público da reforma agrária, o Programa de ATES foi concebido

prevendo-se o financiamento e coordenação do Programa pelo Estado e a execução por terceiros, com criação de instâncias de coordenação, supervisão e controle social. Às equipes técnicas, contratadas para atender a cada Nucleo Operacional, coube inicialmente a elaboração e acompanhamento da implementação dos Projetos de Exploração Anual (PEA), do Plano de Desenvolvimento do Assentamento (PDA) e do Plano de Recuperação dos Assentamentos (PRA), que orientam hoje as ações continuadas de assessoria técnica, social e ambiental nos assentamentos, a serem executadas por elas mesmas.

Assim, para a compreensão do assentamento Lagoa do Junco enquanto campo, é preciso ter em mente que o mesmo é constituído por um conjunto de microcosmos sociais dotados de autonomia relativa, com lógicas e necessidades próprias, específicas, com interesses e disputas irredutíveis ao funcionamento de outros campos. Lagoa do Junco constitui-se, então, como um ‘sistema’, ou ainda como um ‘espaço’ estruturado de posições, permeado pelas lutas entre os diferentes agentes que ocupam as diversas posições.

Quando se analisa a existência de uma cooperativa no interior do assentamento e, efetivamente, diversas famílias não participando dessa organização, evidencia-se que o capital disponível nesse campo esta sendo desigualmente distribuído, existindo, em tese, dominantes e dominados. Tal distribuição desigual do capital determinou nova estruturação no campo social do assentamento, definindo-se, fundamentalmente, pelo estado de uma relação de força histórica entre as forças (agentes, instituições) presentes no campo. Identifica-se, então, subcampos formados pelos associados da cooperativa, os não associados da cooperativa, e um terceiro subcampo, formado pelos antigos funcionários da fazenda, hoje transformada em assentamento.

No subcampo dos associados à cooperativa, identifica-se que cada agente participante é diretamente caracterizado a partir de sua trajetória social, seu habitus e sua posição no campo, ou seja, é composto por indivíduos que historicamente participaram de organizações, associações, lideranças de grupos, e que, quando ingressaram no MST, continuaram a exercer seu habitus de liderança de grupo.

Das famílias caracterizadas pelo trabalho individualizado, assentadas via MST, identifica-se uma trajetória de maior vinculação com situações de pobreza e exploração, tendo o ingresso no Movimento como uma alternativa de sobrevivência. Essas famílias optaram pelo trabalho individual, pois seu habitus pregresso era esse122.

Já o terceiro subcampo identificado, conformado pelas famílias que já moravam na área do atual assentamento, percebe-se ser estruturado a partir da conservação das posições anteriormente ocupadas. Ou seja, tendo as famílias responsáveis pela organização do processo de produção como um todo e outras famílias responsáveis por trabalhos mais pontuais e braçais.

Em cada subcampo identificado, há presença de um habitus (sistema de disposições incorporadas) próprio de cada um, e apenas os sujeitos que tem incorporado o habitus próprio

122 Demonstrando também que a vivência do acampamento na trajetória social destas famílias não conseguiu

alterar ou incorporar novas concepções ao habitus já herdado. Situação essa relativamente normal de se compreender, uma vez que, nem para todas as famílias o acampamento tem um mesmo sentido e para tanto as incorporações desta experiência ao habitus de cada agente são variáveis.

do campo, apresentam condição de jogar o jogo e de acreditar na importância desse jogo. Ainda sobre a emergência dos subcampos, pode-se compreender, segundo Almeida (2001/2004, p. 29), que os mesmos decorrem do fato de que:

[...] o habitus permite, ao mesmo tempo, a reprodução das relações sociais e a criação do novo. Isto é possível porque, nos campos onde se forma e funciona o habitus, o conflito é a forma permanente de relacionamento entre os agentes. Conseqüentemente, toda vez que as condições objetivas da situação não permitem a realização do habitus, este dá lugar a forças explosivas que tanto podem ser de mudança como de acomodação. Portanto, a mesma lógica que reproduz também dá lugar à transformação.

Ao final dos embates travados entre os três subcampos presentes no interior do Campo Social do assentamento, as lutas que nele ocorrem têm uma lógica interna, mas o seu resultado nas lutas (econômicas, sociais, políticas, etc.) externas ao campo pesa fortemente sobre a questão das relações de força internas, conforme já afirmava Catani, (2002), observando experiências no âmbito da educação.

A prática dos sujeitos observada no assentamento independente do subcampo a que estão vinculados, percebendo-se que, em grande parte, é definida pelo habitus de cada um, sendo o princípio gerador das estratégias utilizadas, dos modos de pensar, sentir e agir em determinadas situações, além de tal fator permitir superar de diferentes formas as situações imprevistas. As práticas, segundo Cruz (2008, p. 3), que “o habitus produz resultam de um processo de aprendizagem (socialização), que é dominado por um conjunto de regularidades estatísticas que se encontram associadas a um meio ambiente socialmente estruturado”. Segundo Bourdieu, ao interligarem-se os habitus com os campos, torna-se evidente que a produção das práticas sociais é, simultaneamente, reprodução das estruturas sociais que as determinam.

Os conflitos sociais, por outro lado, também ocorrem a partir das lutas entre agentes, os quais mobilizam recursos de poder e sanção para dar procedência aos interesses, crenças, decisões e ações, ou também para dar prioridade a um sistema de regras sobre outro, ou para manter posições em seu subcampo, ou de seu subcampo (BOURDIEU; WACQUANT, 2008).

Outra análise passível de ser realizada pela realidade do assentamento Lagoa do Junco é o que Bourdieu apresenta sobre o conceito de habitus como um entendimento que alia memória coletiva (práticas herdadas) e capacidade criadora do indivíduo. Dessa forma, o

habitus pode ser compreendido como um sistema de disposições adquiridas por meio da

aprendizagem do sujeito que, diante de situações novas, pode gerar estratégias práticas. Isso significa dizer que ele é capaz de inventar novas formas de desempenhar velhas funções. Ou seja, a trajetória percorrida como acampado, enfrentando diversas adversidades, quase obriga

o assentado a incorporar novas práticas para o desempenho de sua atividade tradicional: a agricultura. Segundo Almeida (2001/2004, p. 26):

Bourdieu (1983a) insiste que o conhecimento das condições de produção, ou seja, das relações objetivas não implica no conhecimento dos produtos, entenda-se, ação [...] Esse poder dinâmico do habitus, em contraposição ao imobilismo, se faz sentir nas situações novas as quais exigem soluções que são verdadeiros ajustamentos, assimilações do habitus ou até mesmo, em casos excepcionais, uma conversão radical. Mudanças, portanto, que não são dedutíveis diretamente de suas condições de produção, e também não são instantâneas por exigirem tempo.

Destaca-se ainda, segundo a autora, que as formas de agir, pensar, falar, perceber, interiorizadas pelos assentados na maneira de habitus, são fundamentalmente geradas nos campos, ou subcampos, não como processos interativos entre indivíduos (ações individuais), mas, sobretudo, como um sistema de relações objetivas, socialmente estruturadas e permeadas por relações de poder.

No âmbito dos sujeitos da Reforma Agrária, ainda é possível pensar que, como o

habitus é produto histórico de um espaço social objetivamente determinado, ele está

articulado a uma condição social e também a uma posição social específica. Portanto, ele não é um espírito universal, mas, um agente em ação que, por meio de ações estratégicas próprias de sua condição e posição social, faz a reprodução do todo, mesmo que implique conflitos, lutas e transformações (BOURDIEU, 1983). Como exemplo, Almeida (2001/2004, p. 33), destaca que o MST produz “instrumentos de percepção e de expressão do mundo social”, através de diversas publicações, que se revelam eficazes porque produzem uma linguagem na qual seus participantes se reconhecem, são aceitos como são, abordando suas condições, ou seja, são instrumentos que percebem e reconhecem o habitus forjado na luta e a ele se dirigem. Com efeito, tais publicações são também responsáveis pelo processo de formação, ao longo dos anos de luta, de um habitus linguístico já incorporado por grande parte dos sem- terra, o que, ao final, comprova que o habitus não se resume apenas ao resgate de disposições existentes, mas se estende à criação de novas formas de agir, pensar e se expressar (ALMEIDA, 2003).

Em suma, o assentamento Lagoa do Junco enquanto campo social, conformado a partir de três distintos subcampos, apresenta-se como universo marcado pela heterogeneidade de trajetórias sociais, reunindo, em um mesmo espaço, agricultores com diferentes habitus, práticas e capitais. O processo de construção enquanto campo social foi definido concomitantemente a uma série de limitações e imperativos, como pela expectativa de reprodução de um modo de vida. O conceito de habitus, aparentemente, colocou-se no centro da dialética entre a reprodução e a produção das condições materiais e subjetivas de

existência, tendendo a incorporar novas referências a partir do momento em que o cotidiano se torna exceção das experiências vividas, variando independentemente do controle exercido pelos habitus já interiorizados. O campo social em estudo apresenta-se, nesse sentido, como resultado da incorporação desigual de recursos econômicos, culturais e simbólicos, que tendem a se expressar nos comportamentos dos agentes, e, portanto, no uso de diferentes estratégias em busca do atendimento das carências conformadas sócio-historicamente.

A conformação do campo social atual de Isla Mayor, assim como no caso do assentamento Lagoa do Junco, é moldado tanto por um processo histórico como por um contexto onde se encontra inserido, marcado por forte intervenção do Estado nas formas de produção, que necessitam ser compreendidos, dada sua relevância na trajetória social das famílias. Lembrando que, segundo Bourdieu (1996, p. 82):

[...] não podemos compreender uma trajetória [...], a menos que tenhamos previamente construído os estados sucessivos do campo no qual ele se desenrolou; logo, o conjunto de relações objetivas que vincularam o agente considerado [...] ao conjunto dos outros agentes envolvidos no mesmo campo e que se defrontaram no mesmo espaço de possíveis.