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Capítulo 3 – Percurso metodológico: entre histórias de vida, disposições e entrevistas

3.3. Lahire e a construção teórica das grades de entrevistas

Em sua obra Retratos Sociológicos (2004, p.314), Lahire expõe algumas considerações acerca das falas dos entrevistados e suas disposições. Segundo ele, os entrevistados dominam, de modo mais ou menos consciente, as “chaves de compreensão” de sua vida e fornecem, nas entrevistas, os elementos dessas chaves, na forma de relatos pessoais que elaboraram ao longo de múltiplas ocasiões anteriores de apresentação verbal. Isso é bastante observável no caso das mulheres do Porto do Capim, que já vêm sendo, há algum tempo, objeto de pesquisa das mais diferentes áreas e que vêm adquirindo, cada vez mais, formas mais elaboradas e recorrentes de apresentação de si. Nas falas das mulheres são recorrentes os termos: comunidade tradicional, ribeirinhos, luta, mobilização, etc.

Segundo Lahire, todos os entrevistados tendem, independentemente das perguntas elaboradas, a apresentar as grades de análise que mais lhes parecem pertinentes ao caso. O que se deve atentar, no entanto, é que

essa construção verbal pessoal raras vezes é totalmente ilusória ou fantasiosa. Ela é o produto de um trabalho de narração (e, às vezes, de quase teorização) baseado na auto-observação e na observação de si pelos outros. Mas o trabalho de interpretação de uma entrevista nunca deve se contentar em considerar exclusivamente o que entra no âmbito desse relato pessoal cujos elementos são particularmente significativos aos olhos do entrevistado (LAHIRE, 2004, p.315).

Para escapar, ao mesmo tempo em que se adentra no círculo vicioso das chaves de compreensão dadas pelos entrevistados, das “apresentações muito controladas de si mesmo e, por isso, muito coerentes”, Lahire (2004, p.44) propõe que o sociólogo se volte, por vezes, para questões aparentemente banais, para perguntas não previstas e que certamente os

entrevistados não escolheriam para falar de si. Por exemplo, quando se relaciona a grade corpo, cuidados com a saúde, alimentação, ao entrevistado pode se inquirir sobre o que ele entende por uma alimentação saudável (disposições para crer) e o que ele possui de alimentos em sua geladeira (disposições para agir), ou ainda, em termos de beleza e estética, o que o entrevistado entende como um corpo bonito (disposições para crer) e quais as atividades físicas que o mesmo pratica (disposições para agir). Para o autor, são nesses momentos de falas inesperadas e menos apaixonadas, momentos triviais, que podemos captar a diversidade das influências socializadoras, das disposições, dos gostos, das competências e apetências individuais.

Muito se fala que, após longas horas de entrevistas, pouco se extrai dos entrevistados. Para Lahire (2004, p.35), no entanto, ao pesquisador cabe um trabalho sistemático de questionamento e posicionamento. Perguntas precisas e contextualizadas, em vez de gerais e abstratas, devem ser postas para assim se poder extrair dos entrevistados memórias úteis, memórias que estejam além da naturalização de um percurso de vida. Neste sentido, partindo do pressuposto de que o ponto de vista cria o objeto, ou seja, de que cada opção metodológica se configura enquanto construção do pesquisador, logo, nada tem de neutra, Lahire expõe, em 11 pontos, seu conjunto arquitetônico, que vai da construção das grades de entrevistas à explicitação da natureza das diversas questões presentes na pesquisa empírica.

O primeiro ponto trata das matrizes socializadoras, dos grandes universos de socialização constituintes dos indivíduos, que são: família, escola, trabalho, sociabilidade, lazer-cultura e corpo. As perguntas devem abordar, direta ou indiretamente, essas matrizes. No segundo ponto, Lahire enfatiza que não há uma matriz socializadora única. As grades estão entrelaçadas, ao passo que, ao detalhar as práticas, “é difícil falar de escola sem falar de família ou de amizade ou abordar a questão do trabalho sem evocar a escola, a família ou a sociabilidade” (LAHIRE, 2004, p.38). No terceiro ponto, o autor trata da importância de apreender a pluralidade dos princípios de socialização, de captar a diversidade das influências socializadoras, de não homogeneizar os contextos. O quarto ponto foca na compartimentação e interpenetração das diferentes esferas de atividade (família, trabalho, lazer), tendo em vista que o indivíduo investe tempo e energia diferentes ao longo dos diferentes universos que ele atravessa.

O quinto ponto aponta o caráter biográfico de cada grade de entrevista. Da grade escola, por exemplo, pode se extrair todo o percurso escolar do entrevistado, desde o maternal, na primeira infância. No sexto ponto, o autor aborda o caráter diacrônico das variações intra-individuais e como este permite compreender as disposições e suas variações

sincrônicas e como novos contextos possibilitam a ativação ou a inibição destas. O sétimo ponto reforça a necessidade de perguntas precisas para se chegar a disposições precisas. Como exemplos de disposições, Lahire elenca: disposições de planejamento, disposições espontâneas, hipercorreção, hipocorreção, disposições estéticas, disposições utilitárias, disposições culturais legítimas, disposições culturais pouco legítimas, ascetismo, hedonismo, etc. Todas elas oscilam de acordo com o grau de extensão de sua ativação e os contextos de sua aplicação.

O oitavo ponto enfatiza a necessidade de se obter um material verbal rico do entrevistado, pois, através dos seus diversos relatos de práticas, pode se extrair suas maneiras de ver, sentir e agir. O nono ponto destaca a importância da grade sociabilidade. Através das redes de amizades e afinidades de um indivíduo, apreendem-se partes dos seus gostos e inclinações. No décimo ponto, Lahire trata dos “sonhos acordados” (sonhos profissionais, escolares, familiares, culturais), que seriam, como instrumento metodológico eficaz, mapeamentos das disposições favoráveis e não-favoráveis de determinadas ações, percepções, frustrações, desejos e anseios. Por fim, Lahire ressalta o cuidado que o pesquisador precisa ter com as generalizações. Segundo ele, não se trata de privilegiar a contradição e a heterogeneidade, mas de se evitar “permanecer cego e surdo às dissonâncias, às diferenças, às contradições”.

Destes pontos elencados, o desenvolvimento das entrevistas teve como substrato os processos de socialização vivenciados pelas mulheres da Associação nos seus mundos sociais da família, da escola, do trabalho e da comunidade. De forma tópica, a grade de entrevistas procurou englobar as relações de gênero na comunidade, as relações dentro da Associação, a militância das mulheres dentro e fora da comunidade, etc. A seguir, o próximo capítulo trata das mulheres em ação, de suas tramas e trajetórias.