De 1989 pra cá, uma sucessão de confrontos vem acontecendo a cada ano no período pesqueiro, com trocas de tiros em alto mar, ferimentos com sequelas físicas irreversíveis e mortes. Em alguns anos foram mais velados e calmos; noutros, bastantes tumultuados, como em 2009, quando a guerra do mar chegou à terra: um carro de Redonda foi queimado na praça central de Icapuí; o ônibus com estudantes de Redonda não podia passar em direção à escola de ensino médio que fica em outra localidade do município (Cajuais), sofrendo ameaças; pessoas de Redonda não podiam frequentar outros distritos etc.
A briga entre pescadores artesanais (comunidades de Redonda, Peroba e Ponta Grossa) e compressores e utilizadores de marambaia41 (Barreiras, Barrinha, Centro, Tremembé, Quitérias e Melancias) estende-se aos familiares deles e aos demais moradores das comunidades onde residem.
Recordando os episódios dos confrontos no mar, um pescador nos relata:
A lembrança mais forte que me deixou foi no dia em que nós peguemos uma embarcação e veio quatorze lanchas pra fazer o movimento deles, que chegou na costa aqui de Redonda, foi quatorze lanchas; aí eu peguei, nós tudim se juntemo, uma turma medonha em cima do barco e fomos revidar, entendeu? Nós fomos revidar e isso foi um momento marcante...
Na hora, a gente no impulso, poderia todo mundo ter morrido, porque quatorze barcos pra dois, num dá nada, ao mesmo tempo, se viesse tudo armado? (...) Nós subimos todo mundo, botemo arma, demo tiro pro ar, de banda, assim, entendeu? Pra espantar eles, essa era nossa intenção, certo? Mas é isso que eu digo, se eles vêm tudo armado, da maneira que vieram quatorze embarcação, então todos nós tinha morrido, porque era só nós mesmo no barco lá, não tinha proteção de nada. Esse foi o momento marcante que ficou pra mim, porque depois que o tempo, a cabeça esfriou, aquela história, viemos todo mundo pensar: rapaz tás vendo aí? Botemos eles pra correr, mas se eles tivessem armado? Tinham matado todos nós.
No amanhecer do dia 21 de setembro de 2010, uma operação conjunta entre a Polícia Federal, a Marinha, o Exército e a Polícia Militar pegou de surpresa os redondeiros (muitos tinham ido pescar, era um dia de trabalho) e aprisionou as lanchas Monsenhor Diomedes I e II. A compreensão de que a política fala a língua do poder e de um saber que não serve para o pescador é clara, no episódio contado. Como disse o pescador: “A lei num tá nem aí pra nós, a lei num tá nem aí pra nós, só diz que vai resolver, vai resolver e nunca resolve. Fica difícil pra nós, então...”
41 Reaproveitamento de tambores de óleos para servirem de recifes artificiais para captura da lagosta. São poluentes do meio ambiente marinho, afetando as lagostas e outras espécies.
Aqui se clarifica o modo de intervenção da poética do Flor do Sol, contando e trazendo as realidades da guerra do mar e da vida de Redonda, suas contradições e lutas. O particular das culturas é aqui mostrado, no teatro, em uma produção de saúde inegável, uma vez que se faz a crítica dos embates com o poder do capital e se dialoga com a população, mostrando, na cenopoesia, a que guerra no mar o Flor do Sol se refere e problematiza.
FOTO 13 - Operação da polícia federal para tomada dos barcos de Redonda
Fonte: Diário do Nordeste 22/09/2010
A foto acima nos mostra uma das fileiras de policiais federais que se formaram na praia, neste dia da invasão súbita. Dispostos assim em fileiras e com suas armas de fogo sendo disparadas para o ar, juntamente com a utilização de gás lacrimogêneo, os policiais agiram com veemência a fim de impedir que os moradores adentrassem o mar e evitassem a remoção dos barcos.
Nesta manhã tão dura, ao me situar por entre os gritos de revolta de homens, mulheres e crianças, que foram acordados ao som dos tiros e dos choros dos seus parentes, eu lembrava e ressoava baixinho a canção que tanto gostávamos de inserir em nossas cenopoesias:
Que mar tem nome de fome? Que sóis de sangue choram luas frias?
Guerra no mar em meio à pescaria
(Musica de Ângela Linhares e Gigi Castro para Cenopoesia do Flor do Sol no Encontro dos Povos do Mar em 2005)
A fome do mar e de seus povos, nesse contexto de embate ante os interesses do capital é, entre outras coisas, a fome pelo que tem sido nomeado de justiça
ambiental. A noção de justiça ambiental, explicam Acselrad, Mello e Bezerra (2009,
p.10), foi cunhada em contraponto ao termo injustiça ambiental, que foi consagrado para designar o fenômeno “de imposição desproporcional dos riscos ambientais às populações menos dotadas de recursos financeiros, políticos e informacionais”. Assim, justiça ambiental denomina “um quadro de vida futuro no qual essa dimensão ambiental da injustiça social venha a ser superada”. Essa noção, esclarecem os autores, tem sido utilizada, sobretudo, “para constituir uma nova perspectiva a integrar as lutas ambientais e sociais”.
Narram eles que discussões sobre os propósitos do Banco Mundial, o qual poderia ter intenções ambientalmente perversas contra as nações pobres, ganhou repercussão internacional com o Memorando Summers42. Em 1991, contam
Aceselrad, Mello e Bezerra (2009), um memorando de circulação restrita aos quadros do Banco Mundial apresentava o propósito de incentivar mais a migração de indústrias poluentes para os países menos desenvolvidos. Tal documento apresentava três razões para que os países periféricos fossem o destino dos ramos industriais mais danosos ao meio ambiente:
1) o meio ambiente seria uma preocupação “estética” típica apenas dos bem de vida; 2) os mais pobres, em sua maioria, não vivem mesmo o tempo necessário para sofrer os efeitos da poluição ambiental. Segundo ele, alguns países da África ainda estariam subpoluídos. Nesse sentido, lamentou que algumas atividades poluidoras não fossem diretamente transportáveis, tais como produção de energia e infra-estrutura em geral; 3) pela “lógica” econômica, pode-se considerar que as mortes em países pobres têm um custo mais baixo do que nos países ricos, pois seus moradores recebem salários mais baixos (ACSELRAD, MELLO, BEZERRA, 2009, p.8).
42 Lawrence Summers era o então economista chefe do Banco Mundial e o autor do referido memorando.
Essas declarações, analisam os autores, “admitem e justificam um quadro realmente existente de desigualdade em termos de proteção ambiental no planeta”, evidenciando mais do que nunca que é para as regiões pobres que se têm dirigido “os empreendimentos econômicos mais danosos em termos ambientais” (ACSELRAD, MELLO, BEZERRA, 2009, p.9). E acrescentam:
É nas áreas de maior privação socioeconômica e/ou habitadas por grupos sociais e étnicos sem acesso às esferas decisórias do Estado e do mercado que se concentram a falta de investimento em infra-estrutura de saneamento, a ausência de políticas de controle dos depósitos de lixo tóxico, a moradia de risco, a desertificação, entre outros fatores, concorrendo para suas más condições ambientais de vida e trabalho (ACSELRAD, MELLO, BEZERRA, 2009, p.9-10).
De acordo com o pensamento de Acselrad (2005), há uma relação íntima e direta entre desigualdade ambiental e desigualdade social. Ele visualiza a associação, que muitos insistem em camuflar, entre degradação ambiental e injustiça social. Travando uma discussão sobre a desigualdade social na exposição da população aos riscos ambientais em nosso país, o autor se interroga:
Como fazer entender que os incêndios florestais em Roraima, a seca no Nordeste, a desigual exposição dos grupos sociais aos riscos da poluição são a expressão do mesmo processo de produção da desigualdade ambiental que distancia pessoas ricas e pobres, brancas e negras em nosso país? (ACSELRAD, 2005, p.42).
Para este autor, em síntese, “a desigualdade ambiental é uma das expressões da desigualdade social que marca a história do nosso país” (ACSELRAD, 2005, p. 43). Afirma isso ao evidenciar que grupos sociais de baixa renda e grupos étnicos são sempre prejudicados na distribuição dos riscos e danos ambientais. Como, de fato, os povos do mar de Redonda, na qualidade de pescadores e familiares de pescadores artesanais, têm sido os mais prejudicados com a negligência e a passividade do Estado frente aos conflitos da pesca, o que tem aumentado mais ainda a força dos predadores dos recursos marinhos.
Hoje, as lanchas Monsenhor Diomedes I e II, depois de meses aprisionadas, foram devolvidas à comunidade, mas estão proibidas de fazerem a fiscalização. A fiscalização desvela o modo como o poder do estado trata os interesses do pescador ante a violência do compressor e do mergulhador, que intervém nas formas de produção da vida local. O sentimento de descrença com relação ao poder
estatal, tipificado na questão da fiscalização dos barcos a motor que não respeitam a pesca artesanal, resvala para um sentimento de descrença com relação à pesca:
Nós sonhávamos que tivesse, no projeto de fiscalização que nós tinha, que tivesse fiscalização, nós quer fiscalização sincera, não fiscalização de dois dias e passa um mês sem ter, como essas que acontecem, pra que a gente pudesse faturar também, porque no nosso trabalho a gente pensa em faturar, porque nós temos família. Então, deu tudo errado, não conseguimos fazer, impestou foi mais. O que nós tentava combater entrou muito mais do que o que a gente pensava, deu tudo errado (...) Tudo que nós lutemos dizem que é porque o redondeiro é valente, mas é o impulso da precisão. Você ver as coisas se dificultando, você não poder comprar uma coisa pro seu fi, um calçado, vê-lo numa escola adequadamente (...) Eu sempre fico dizendo: meu filho estude, que pescaria não dar futuro...
O impulso da precisão é a definição do pescador para sua sede de luta e de justiça ambiental. Ao aconselhar “meu filho, estude que pescaria não dá futuro”, o pescador de Redonda demonstra sua incerteza quanto aos rumos da pesca no lugar e sua preocupação para que o filho concretize, por meio do estudo, outra forma de trabalhar e viver.