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4 A MISE EN-SCÈNE DO CINEMA DOS ANOS 60 E AS RELAÇÕES COM OS

4.1 LAPIDANDO O CONCEITO DE ENSAIO FOTOGRÁFICO

Quando se fala em ensaio, recorrendo ao dicionário, ele nos aponta como definição teste, treino, experiência, experimento, dentre outros. Ou seja, uma tentativa que pode ou não dar certo. No entanto, o ensaio fotográfico possui outros adjetivos dentro do campo imagético, podendo ser, por exemplo, um editorial de moda, um conjunto de fotografias que contém uma narrativa, uma história ou uma ideia que está por trás do agrupamento de imagens. Assim, o ensaio fotográfico pode ser empregado em revistas, jornais, catálogos e outras formas de aparição. Para Fiúza e Parente (2008, p.171),

É através do ensaio que o fotógrafo pode expressar com mais intensidade sua visão sobre determinado tema, e é importante que se sinta a singularidade que a presença do ponto de vista do autor permite ao trabalho. Ao mergulhar em um ensaio o autor se vê inserido em um processo que exige muito mais que a captura de imagens. Exige uma reflexão sobre a conexão entre estas imagens, sobre a edição que melhor pode expressar sua intenção no trabalho (tendo assim mais efeito que a simples exposição de tudo que se pode revelar a respeito do assunto em questão) e sobre a apresentação que seja mais eficiente para tocar o outro, seu apreciador.

Visto que os ensaios fotográficos são a reunião de uma ou de mais imagens, elas ao mesmo tempo em que possuem uma unidade também conversam entre si, passando a ideia do autor, seja ele um fotógrafo, um estilista, um jornalista ou outro profissional.

No que tange à história ou à origem dos ensaios fotográficos, recorremos à Fiúza e Parente.

O importante, no entanto, é perceber que o fotoensaio se consolidou através de uma série de publicações entre as décadas de 20 e 30 do século XX, como a Munchener

Illustrierte Presse e a francesa Vu, lideradas pelos inovadores Stefan Lorant, Lucien Vogel e Alexander Liberman; e a revista Americana Life, que contribuiu enormemente para este gênero, sendo uma das mais fortes editoras dos trabalhos ensaísticos de seus fotógrafos, sobre os mais variados temas. (FIÚZA; PARENTE, 2008, p.167).

Nesse contexto, salientamos que os ensaios fotográficos também aconteceram no começo do século, no período da revolução industrial e com aparecimento das primeiras

câmeras fotográficas, que propiciaram o surgimento das fotografias. Além disso, na virada do século, quando os meios impressos estavam no auge, era grande a busca por imagens que contassem uma história e que tivessem uma unidade imagética. Essas imagens podiam ser retratos ou apreciação da moda, pois nesse período a moda tornava-se imagem.

Nas palavras de Marra (2008, p.144), “podemos, em suma, dizer que na fotografia de moda, mesmo quando prevalecem valores claramente formais, a escolha melhor e mais apropriada parece aquela de interpretar o gosto pela via lingüística, de modo que seja o próprio estilo da imagem a falar da roupa”.

4.1.1 Editoriais de moda

Dentre os meios de propagação da moda, temos os editoriais de moda que, por sua vez, são um modo de ensaio fotográfico, pois também possuem uma unidade visual em suas imagens fotográficas. Segundo Souza e Custódio (2005, p. 242),

As fotografias de moda editorial sofrem variações devido à particularidade da linha editorial de cada revista e de acordo com a influência determinante dos profissionais com poder de decisão no que diz respeito à produção das imagens relacionadas diretamente com o conceito. É a partir desse conceito que a imagem editorial é construída.

Mesmo que os editoriais de moda necessitem de fotógrafos capacitados para capturar as melhores imagens, eles, geralmente, trabalham em equipe e necessitam de profissionais como estilistas, diretores de arte e assistentes.

Quanto à imagem publicitária, Fox e Caruana (2013, p.84) afirmam que “as fotos de publicidade e moda são claramente construídas, mas podem desviar para a criação de imagens em um estilo documental por meio de imagens abertamente fabricadas, construídas em um estúdio ou uma locação”. Nesse sentido, as autoras acrescentam que as fotografias construídas podem ser produzidas por fotógrafos comerciais ou por artistas. Logo, segundo as autoras, imagens artísticas e comerciais se inspiram reciprocamente.

Ademais, muitos ensaios fotográficos usam modelos com poses inusitadas, elementos diferenciados, cenários excêntricos, dentre outros, para criar uma atmosfera que expresse uma narrativa por meio de uma unidade visual imagética. Além disso, Präkel (2012) argumenta que trabalhar com fotografias editoriais é trabalhar em equipe e com o setor da indústria criativa, pois, segundo ele, os fotógrafos de moda precisam estar atentos às tendências de moda e a sociedade para, então, contextualizá-las fortalecendo sua imaginação.

Com relação ao mercado, os editoriais são encomendados por marcas, revistas ou estilistas, geralmente. Conforme Präkel (2012, p. 76), “fotografia editorial significa ‘imagem para publicação’”. Portanto, eles são realizados para serem publicados, assim como os editoriais de moda, já que a moda engloba tudo o que é imagético. Ademais, a moda necessita de visualização e circulação, pois sobrevive da questão mercantil.

Logo, a moda recorre a revistas especializadas nesse assunto. Nesse caso, a título de exemplo, podemos citar duas revistas que foram importantes difusoras de moda através da fotografia: Vogue e Harper’s Bazaar. A primeira, lançada em 1892, conforme Rainho (2014, p. 80), trata-se de uma revista norte-americana que se consolidou ao longo do século XX como uma das mais prestigiosas publicações sobre moda e se ramificou em diversos países, como na Inglaterra em 1916, na frança em 1920 e na Itália em 1950. Chegando posteriormente em tantos outros países. A segunda, de acordo com Rainho (2014, p. 81), teve os seus padrões editoriais reformulados a partir de 1932. Conforme a autora, essa revista oferecia matérias de moda cujos textos e imagens complementavam-se, possibilitando, assim, a criação de histórias de moda que eram lidas e vistas por seus consumidores.

Com o passar o tempo, outras revistas com assuntos de moda começaram a surgir, já que havia espaço no mercado para tantas outras. Então, esse foi o caso da revista Elle, criada em 1945. Segundo Rainho (2014), o que a torna especial foi o fato de ser a primeira revista de moda francesa a publicar fotografias coloridas na capa e também foi a primeira a ter contrato com fotógrafos exclusivos.

No Brasil, também haviam revistas especializadas em moda no século XX, que contribuíram com a questão visual da moda no país, pois, até então, a moda era “retirada”, ou melhor, era absorvida por revistas importadas, principalmente da Europa.

Segundo Rainho (2014, p. 85), no Brasil, “o surgimento de novas publicações femininas evidencia a estratégia dos empresários do segmento editorial para a ampliação da informação de moda face ao consumo emergente. Entre estas publicações estão Jóia (1957- 1959), Manequim (1959), e Cláudia (1961)”.

Além das revistas ilustradas, temos também O Cruzeiro (1928-1975), A Cigarra (1914-1956) e Manchete (1952). Essas revistas tinham muitas propagandas de eletrodomésticos, artigos de maquiagem e beleza, pois o intuito delas eram chamar a atenção para as mulheres, suas leitoras, e satisfazer, assim, alguma necessidade, seja essa necessidade um “sonhado” eletrodoméstico ou elementos presentes em artigos de moda e beleza.

Um ponto importante a ser elencado sobre as revistas de moda no Brasil é que com o surgimento da revista Cláudia em 1961 surgiu um estilo de editar moda. Segundo Rainho (2014), a Cláudia foi a primeira revista a contar com a infraestrutura de produtores, fotógrafos e manequins.

Dessa forma, contextualizando de forma breve a história das revistas de moda, foi possível entender como os editoriais são importantes para o mundo da moda. Contudo, mais importante do que os editoriais são os fotógrafos que fazem os editoriais acontecerem de fato, pois, através de sua experiência, captam a melhor imagem para produzir sentido. Corroborando, Fox e Caruana (2013, p. 84) afirmam que “os fotógrafos de moda e publicidade também podem ser reconhecidos como artistas por direito próprio. O artista e fotógrafo Man Ray produziu algumas fotos de moda inovadoras paralelamente à sua prática artística, e vários fotógrafos continuam fazendo isso”.

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