4.2. Programa de Realojamento Definitivo
4.2.1. Largo da Pena Ventosa_Operação E2: Projeto 9
27 do Quarteirão da Bainharia.
O sistema de operacionalização seguido para uma reabilitação pressupõe, por ordem cronológica53, o levantamento do existente, o diagnóstico de intervenção, a ela-
boração do projeto de arquitetura, consoante o programa destinado ao edifício, o proje- to de especialidades, o projeto de execução e, finalmente, a assistência técnica em obra.
No que respeita ao Projeto 9, o projeto de execução de arquitetura e especialida- 52ver anexo C.
[II_22] fotografia dos lotes a reabilitar no Largo da Pena Ventosa. [II_23] fotografia do alçado lateral dos lotes a re- abilitar. [II_24] alçado principal dos lotes a reabilitar. [II_25] alçado lateral dos lotes a reabilitar. [II_26] planta do piso térreo. [II_27] planta do primeiro piso.
[II_22] [II_23]
[II_26] [II_27]
des terminou em dezembro de 2011, tendo os trabalhos e sondagens arqueológicas sido já efetuados, confirmando a existência de um trecho da Muralha Romana no alçado tardoz.
O projeto de reabilitação, elaborado pelo arq.to da Porto Vivo, SRU., Luís Antó-
nio, visa a recuperação de dois lotes cujo interior se encontrava em avançado estado de ruína, dos quais foi impossível aproveitar o interior, restando apenas apenas as facha- das e empenas originais.
Com 4 pisos, o projeto vai englobar dois espaços comerciais ao nível da rua e 6 fogos T1, cujo desenho se repete de piso para piso. A nível de alçados, o arquiteto refere a manutenção da linguagem em granito nos alçados lateral e tardoz, cujas fe- nestrações obedecem à linguagem original, sendo na fachada principal que se opera maior transformação. O desenho proposto para esta apresenta uma linguagem de vãos uniforme com janelas de guilhotina e moldura em granito, em concomitância com a envolvente e de acordo com as determinações do IPPAR54 numa fachada pintada de
amarelo, com portas vermelhas. Embora tenham uma ligeira diferença de cota, ambos os edifícios são tratados com a mesma linguagem, tanto exterior como interior, sendo, para efeitos de melhor aproveitamento da área interior, agregados partilhando um único acesso vertical – caixa de escadas – e fogos identicos em redor desta.
A Porto Vivo procedeu à limpeza do interior e ao entaipamento das fenestrações com painéis brancos, enquanto não se efetivavam as obras. Entretanto, a 12 de junho de 2013, foi publicada notícia no seu website indicando que se haviam iniciado “os traba- lhos da empreitada de reabilitação no Largo da Pena Ventosa”55, ao encargo da empresa
NORTEJUVIL – Sociedade de Construções, Lda, estando atualmente a ter início os trabalhos de estruturas.
No que respeita o projeto de arquitetura propriamente dito, denotam-se alguns parâmetros que fogem um pouco à questão em si. Em conversa com o arq.to responsável
pelo projeto foi clara a urgência de responder aos regulamentos em vigor, bem como de albergar o maior número de famílias possível, sem tempo a “perder” em reflexões, efetivamente, arquitetónicas e nas eventuais vantagens de um projeto que pondera, além do número de pessoas a realojar e dos parâmetros técnico-construtivos a alcançar, as tipologias e para quem se está de fato a reabilitar e reconstruir o fogo.
Ou seja, o que se pretende insinuar é que o projeto em questão, ao invés de ponderar a circunstância em que os edifícios se inserem e para quem será destinado o
54caixilharia de madeira e estrutura da cobertura em madeira.
[II_28] alçado tardoz. [II_29] fotografia do alçado tardoz atual. [II_30] planta do segundo piso. [II_31] planta do ter- ceiro piso. [II_32] planta de coberturas. [II_33] fotografia do interior dos lotes.
[II_28] [II_29]
[II_30] [II_31]
novo fogo – tendo em conta que não existia nenhum prévio limitador do projeto, devido ao estado arruínado dos edifícios –, opta por desenhar a tipologia que mais facilmente se adapta à área disponível e ao esquema proposto de acesso vertical único e fogos T1 que, segundo o Masterplan da SRU, se destinam essencialmente a estudantes ou casais jovens. Assim, numa zona que é bastante habitada pela população autóctone do Morro da Sé conta-se que este público alvo aqui procure habitação, ao invés de desenhar fogos que sirvam para (re)alojar as famílias necessitadas da zona para as quais, na maioria dos casos, um quarto apenas não chega. Neste sentido, talvez fosse mais produtivo ter menos apartamentos – maximizando a área útil por piso –, mas habitados, ao invés de um maior número de apartamentos num edifício vazio que para uns não serve e a outros (ainda) não convence.
Talvez que se em vez de se procurar essencialmente uma maior economia de espaço e a garantia da resposta técnica acima de tudo o resto, a organização do espaço interior do fogo se revelásse menos “técnica” e mais arquitetónica, compondo melhor as dependências para uma melhor fruição do espaço e da ambiencia deste e responden- do efetivamente às verdadeiras necessidades e público em questão.
[II_34] fotografia do interior dos lotes. [II_35] fotografia do interior dos lotes. [II_36] fotografia do interior dos lotes.
[II_34] [II_35]
Neste contexto, a pergunta que nos colocamos é: de que serve “desenhar” habi- tações que não estimulam o entusiasmo nas pessoas que se pretende atrair, nem têm ca- pacidade de responder áquelas que de facto necessitam de (re)alojamento? Habitações que, além da localização privilegiada no CH, têm um desenho interior projetado de acordo com os ideais e as necessidades contemporâneas, não só técnicas (de conforto, acústica, segurança, etc.) como estéticas, certamente seriam mais eficazes na atração de moradores e capazes de competir com as habitações da periferia que, além de espaços amplos, boas condições de iluminação e ventilação, usufruem de um desenho fluido que agrada e responde a qualquer agregado familiar, ao contrário dos apartamentos do CH que, à partida, se pressupõe terem dimensões limitadas.
Em suma, devia talvez, procurar investir-se nas questões arquitetónica, estética, funcional e técnica conjugadas e não apenas na obrigatoriedade de responder aos parâ- metros técnicos legislados, numa perspetiva de efetivamente (re)habitar e, consequen- temente, reavivar o CH respondendo a diversos públicos-alvo.
Considerações
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é1.reabilitação urbana de um
Centro Histórico
O conceito de reabilitação urbana respeita à (re)adaptação da malha urbana antiga à cidade atual, atuando sobre o edificado, mas também sobre os espaços públicos, in- fraestruturas e paisagem urbana, tendo como objetivo final (re)habitar o CH, mantendo os habitantes prévios e atraindo novos, criando novos equipamentos e atividades eco- nómicas de apoio e dinamização à área em questão. Numa lógica de salvaguarda cul- tural, uma operação de reabilitação urbana só é completa quando considera, não só os edifícios, como as pessoas que neles habitam e que lhes dão vida, ao longo do tempo, transformando-o.
É na cidade que a dimensão temporal do passado mais se confronta com a con- temporaneidade. Os testemunhos e memórias de tempos diversos aparecem-nos amalgamados e transpostos para o nosso quotidiano.1
O centro antigo da cidade, enquanto núcleo de sinergias e atividades sociais, políticas e económicas perde, ao longo dos sécs.XIX e XX, a sua hegemonia2. Criam-se novas
acessibilidades, do centro para as (novas) periferias e para outras cidades, e em redor das novas vias desenvolveram-se núcleos urbanos periféricos que, por conterem cons- truções modernas e melhores condições de habitabilidade, mais e maiores espaços de lazer e fácil acessibilidade, atraem as populações mais abastadas do CH, iniciando um processo gradual de abandono e deterioração deste, cujo estado se torna hoje custoso de reverter.
Tornou-se substancial a consciencialização da necessidade de responder aos problemas que desta situação advêm, ou seja, pensar e reconhecer o potencial apre- sentado pela reconstrução e readaptação da cidade histórica à atual, maximizando os recursos existentes e fortalecendo a identidade das cidades e da sociedade que nelas habita, através da sua salvaguarda patrimonial, cultural e social.
Neste sentido, depois da destruição de muitos CH pela guerra, de diversas po- sições e ideais modernistas que puseram em causa a adaptabilidade dos edifícios anti- gos, desatualizados e degradados das cidades históricas de responder às necessidades prementes de uma sociedade marcada por fortes transformações e evoluções tecnológi- cas, e depois da progressiva evolução dos conceitos de “monumento” e “património”, 1Revista Sociedade e Território: Património, ambiente e reabilitação urbana, edições Afrontamento, Ano 5, nº14/15,
dezembro de 1991, pág.10
transitamos de um desenvolvimento expansionista para um de reconhecimento e (re) valorização do património edificado préexistente. Numa política de economia de re- cursos e de gestão urbana, passa a reconhecer-se o potencial da cidade antiga enquanto (re)adaptável às novas exigências e necessidades, através de processos de reabilitação e requalificação urbana, num tempo em que se tornou clara a premência de conservar a memória urbana coletiva, através da salvaguarda do seu património arquitetónico e cultural para as futuras gerações.
Há muito que se assiste a uma tomada de consciência, por parte dos cidadãos, do valor cultural, arquitectónico e urbanístico dos centros históricos de uma boa parte das cidades portuguesas. Dessa tomada de consciência resulta, natural- mente, o desejo de preservar esses antigos conjuntos, alguns dos quais se assu- mem, cada vez mais nitidamente, como património histórico e cultural não só dos portugueses, mas, também, da própria humanidade.3
Uma vez que os CH das cidades contêm em si – em cada edifício, em cada arruamento – gerações de mudanças e transformações arquitetónicas, sociais e culturais emble- máticas a cada sítio, contêm parte do património da cidade, integrando-se nesta como essencial à leitura do seu crescimento. Investe-e, portanto, em operações de reabilita- ção urbana dinâmicas e prospetivas que, através de uma abordagem multidisciplinar permitem responder aos problemas vividos em todos os setores constituintes da cidade, numa perspetiva de desenvolvimento local, coesão social e respeito pela diversidade cultural e arquitetónica que, em conjunto, desenham a sociedade, a cultura e a cidade, distinguindo-a de todas as outras como única.
No entanto, as políticas de reabilitação urbana integrada que hoje conhecemos só ganharam forma recentemente, pois até então4 era apenas reconhecida a necessidade
de salvaguarda do monumento histórico. Embora o conceito de “reabilitação” tenha surgido como uma política de recuperação e salvaguarda do património, à medida que se foi desenvolvendo foi adquirindo uma certa complexidade. Hoje, abrange a recupe- ração e salvaguarda, não só do parque edificado enquanto conjunto, como também das condições e estímulos sociais, económicos, culturais, políticos e ambientais que nele se desenvolvem.
A valorização do parque edificado residencial dos CH, como locais privilegia- dos e património arquitetónico e cultural, contribuiu igualmente para a mudança nas 3Vitor Cóias, Reabilitação estrutural de edifícios antigos: alvenaria, madeira: técnicas pouco intrusivas, edição Argu-
mentum, 2ª ed., Lisboa, 2007.
metodologias de intervenção urbana.
(...) o conhecimento das características de uma cidade, do seu processo de for- mação e da sua estrutura implica o conhecimento das tipologias de habitação e é fundamental para a definição dos significados de novas propostas.5
Assim, o processo de reabilitação de áreas urbanas antigas tem vindo a ser uma ativida- de praticada e desenvolvida ao longo dos últimos 40 anos, aproximadamente, tanto no contexto internacional, como nacional, passando por momentos distintos e continuan- do ainda a ser um tema aberto de discussão pela complexidade que representa.
A intervenção na cidade antiga consolidada requer uma intensa gestão de re- cursos e intervenientes, capazes de a gerir e (re)qualificar, recorrendo a gabinetes es- pecíficos que possam implementar planos, lidar com a administração local e estimular parcerias.
A reabilitação urbana deve ser vista como um veículo de salvaguarda da iden- tidade e valorização do património construído, de redução das assimetrias sociais e de promoção da participação dos cidadãos, procurando integrar a cidade antiga nas dinâmicas da nova, pois não é de apenas uma destas, isolada, que a cidade se constitui, mas sim das inter-relações existentes entre ambas. Um processo de reabilitação ou requalificação distingue-se, portanto, de um de reconstrução ou restauro, devendo ter como premissa a atualização dos edifícios, não procurando, no entanto, esconder o re- curso a materiais e técnicas contemporâneos, mas sim integrando-os numa linguagem harmoniosa, respeitando o traçado original distinguindo, em simultâneo, o progresso que influenciou a sua transformação.
(…) se um edifício, um conjunto arquitectónico, um tecido urbano, formou as suas características próprias por vezes ao longo de muitos séculos, insistir para que a sua imagem e a sua compleição se cristalizem em relação ao futuro, não será isso negar o valor do continuado processo de sedimentação que o génio desse património conheceu?6
Assim, um processo de reabilitação urbana pretende atuar no sentido de preservar e in- tegrar o património cultural arquitetónico antigo na cidade contemporânea, garantindo que todos os seus habitantes têm condições igualitárias de habitabilidade e salubridade 5Francisco Barata Fernandes, Transformação e Permanência na Habitação Portuense: as formas da cada na forma
da cidade, edição FAUP, Porto, 1999, pág.61.
6Rui Ramos Loza, Porto, Património Mundial: CRUARB 25 anos de reabilitação urbana, edição CMP, Porto, 2000,
e contribuindo, deste modo, para o desenvolvimento sustentável de toda a cidade. Em suma, reabilitar uma área urbana consolidada como um CH procura, an- tes de mais, combater os gastos empreendidos em operações de demolição em massa, defendidas pelos ideais modernistas da Carta de Atenas (1933), ao mesmo tempo que ambiciona prolongar a vida útil dos edifícios preexistentes, extinguindo questões de insalubridade e melhorando as suas condições de habitabilidade e infraestruturas, tor- nando-o energicamente mais eficiente com o propósito de o trazer para a atualidade, erradicando a sua degradação e combatendo a desertificação do centro em prol das periferias, reduzindo o fenómeno de especulação imobiliária e procurando evitar relo- calizar as populações residentes.
A crise dos conceitos e receitas da arquitectura urbana face à decepção com os resultados das novas urbanizações dos anos 60 (...) leva os profissionais a voltarem a aprender com a cidade existente, a valorizar sequências de espaços públicos bem identificáveis, animados pela mistura de actividades e gerações, in- fluenciando as autoridades locais para privilegiarem intervenções fragmentárias ou sistemáticas de melhoria do existente.7
Uma operação de reabilitação e recuperação urbana pode trazer à cidade, bem como à cultura do local, um contributo essencial na manutenção e atualização do seu legado arquitetónico, exaltando as características e o testemunho histórico e cultural que este ostenta, procurando promover a sua coesão social e territorial.
Por intervenção na cidade existente entendemos o conjunto de programas e pro- jectos públicos ou de iniciativas autónomas que incidem sobre os tecidos urbani- zados dos aglomerados, sejam antigos ou relativamente recentes, tendo em vista: a sua reestruturação ou revitalização funcional (...); a sua recuperação ou reabi- litação arquitectónica (...); a sua reapropriação social e cultural (...).8
Está também provado, pela experiência do CRUARB, a relevância do envolvimento da população residente no sucesso do desenvolvimento dos processos de reabilitação urbana9 essencialmente, de manter e usufruir dos espaços da cidade, nenhuma operação
7Nuno Portas, Os Tempos das Formas: vol. I: a Cidade Feita e Refeita, edição Departamento Autónomo de Arquitetura
da Universidade do Minho (DAAUM)/Guimarães, outubro de 2005, págs. 173/174.
8idem., pág.171.
9sem promover e estimular a vontade da população, não só de recuperar mas, essencialmente, de manter e usufruir
dos espaços da cidade, nenhuma operação de reabilitação urbana caminha, à partida, para o sucesso. É fundamental que se proceda, de início, à educação e consciencialização da população sobre o valor cultural, social, económico e
caminha, à partida, para o sucesso.
Se se conseguir cativar a população a manter residência no CH e, ainda, aliciar novos moradores consegue-se, efetivamente, atrair entidades investidoras com inte- resse nesta área por já terem, a priori, um “bom negócio” em vista. Não se pode crer, no entanto, que sem mínima garantia de procura seja possível estimular investidores a criar oferta, com o risco de não verem os lucros do seu investimento. Assim, seguindo uma lógica de “procura – oferta”, torna-se clara a importância que a questão social de- tém nas operações de reabilitação urbana.
No entanto, embora a intenção de manter as famílias de baixo rendimento nas suas habitações seja fundamental para o enraizamento social que mantém a alma do lu- gar, há que considerar o aumento de valor económico que uma operação de reabilitação implica. A esta situação Nuno Portas10 sugeriu a introdução de uma política de subsídio
de renda ou de bonificação de empréstimos que se fosse efetivamente desenvolvida e aplicada atualmente talvez contribuísse para a revitalização do CH do Porto.
Considerando que o conceito “Centro Histórico” define algo que pertence, não a um indivíduo, mas sim à sociedade que o habita ou que nele pratica as dinâmicas sociais do seu dia a dia, é essencial compreender o seu valor patrimonial e presença na cidade contemporânea, bem como o que significa usufruir de um CH rico e convidati- vo, ao invés de um como o que hoje evitamos percorrer no Porto – abandonado, negli- gênciado e em acentuado estado de degradação, que parece contagiar de um edifício para o seguinte, não só arquitetónica como socialmente.
2.Centro Histórico do Porto e contexto atual do
Morro da Sé
A arquitectura do Centro Histórico do Porto tem marcas populares, e também eruditas, que vêm desde a Idade Média até à actualidade.11
Como já foi referido, durante determinado período a reabilitação dedicava-se quase
ambiental da sua cidade histórica, estimulando-os a permanecer nesta e atraindo novos investidores, num processo que pretende, essencialmente, reabilitar para as pessoas
10in op. cit.
11Porto Património Mundial: Processo de Candidatura do Centro Histórico do Porto à UNESCO, Livro II, edição CMP,
[III_1] fotografia do CH do Porto. [III_1]
exclusivamente aos monumentos históricos. No caso do Porto, embora rico em monu- mentos de considerável qualidade arquitetónica e forte simbolismo é o seu conjunto habitacional, tão característico e castiço, que lhe confere a sua forte personalidade. Através deste legado, a cidade consegue deixar transparecer séculos de ocupação e desenvolvimento, traços de diferentes períodos arquitetónicos que se conjugam nos mesmos edifícios e que enriquecem o conjunto de uma forma que não se vê em nenhu- ma outra cidade.
Tanto como cidade, como realização humana, o Centro Histórico do Porto consti- tui uma obra prima do génio criativo do Homem. Interesses militares, comerciais, agrícolas e demográficos convergiram neste local para abrigar uma população capaz de edificar a cidade. O resultado é uma obra de arte altamente estética e única no seu género. Trata-se de um trabalho colectivo, que não resulta de uma obra de um só período, mas de contribuições sucessivas.12
O Porto, à semelhança de outras cidades históricas, nacionais e europeias, tem vindo a sofrer uma significativa perda de população, especialmente no seu CH. Este processo de abandono do centro antigo em busca de melhores condições e maior conforto nas periferias tem origem nas profundas mudanças sociais, económicas e culturais que se têm vindo a fazer sentir nas cidades e sociedade atuais desde inícios do séc.XX13.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades.14
As pessoas mudam e com elas os seus hábitos e necessidades originando uma indisso- ciável necessidade de alterar as suas condições de habitabilidade e vida, que encontram mais facilmente as respostas técnicas e espaciais de que necessitam nas novas cons- truções da periferia, cuja arquitetura tem já outros cuidados construtivos, espaciais, de acessibilidade, de estacionamento e de conforto térmico e acústico.
Assim, enquanto património coletivo degradado, o CH do Porto precisa do en- volvimento de todos os elementos da cidade no lento e conturbado processo de reabili- tação pela qual está a passar. Este deve considerar e ponderar cuidadosamente o rumo 12Fernando Gomes, Presidente da CMP em 1997 in idem., pág. 17
13ver Capítulo I.