De fato, a controvérsia dos genera orationis, ou dos genera dicendi, está explicitada no Brutus e no Orator, mas já no De oratore, segundo afirmação também controversa de Hendrickson, Cícero teria feito uma consideração polêmica acerca de uma noção cara aos “aticistas”, a saber, a noção de Latinitas. Afirmação que teria motivado a resposta de César apresentada no seu De analogia.117
Latinitas seria o equivalente latino para o termo grego ῾Ελληνισμ´ος, que, por sua vez, se relaciona com o noção gramatical de “aticismo”.118
Segundo a definição estoica citada por Diógenes Laércio (VII, 59), Helenismo é a correção gramatical (῾Ελληνισμ`ος μ`εν ὀ˜υν ἐστι φρ´ασις ἀδι´απτωτος), tal como a noção de Latinitas
scrupolosa per la purezza del linguaggio (Latinitas), che si era delineata già in ambiente scipionico e continuava nel movimento analogista.”
115Dugan(2005, p. 215): “Cicero’s defence of his style against the criticism of his Atticist adversaries
is the main preoccupation of both the Brutus and the Orator; Wisse (2002, p. 364): “As is well known, Cicero’s main purpose in Brutus and Orator, written in 46 B.C., is to defend himself against the so-called Atticists.”
116Narducci(1997, p. 114): “È notevole, di conseguenza, l’importanza accordata alla contraposizione
dei due stili nella ricostruzione delle vicende dell’eloquenza romana: una ricostruzione cui le esigenze della presa di posizione nei confronti delle atticisti si saldano con quelle della giustificazione delle scelte oratorie dello stesso Cicerone. Riconoscere ciò non equivale a negare l’obiettiva validità storiografica della distinzione dei due stili dell’oratoria, né tanto meno ad attribuire ad essa carattere artificioso o una valenza esclusivamente polemica.”
117Hendrickson(1906, pp. 97-8): “the treatise of Julius Caesar De analogia, owed its origin to certain
utterances contained in the third book De oratore, relative to the importance of and the means of attaining to a pure Latinity.”
118Hendrickson (1906, p. 98): “Atticism as the designation of a grammatical-rhetorical ideal was
na definição do autor da Rhetorica ad Herenium.119
Numa passagem do terceiro livro do De oratore (III, 37-55), a personagem Crasso trata da elocutio e discorre sobre as quatro virtudes do discurso, Latinitas, perspicuitas, decorum e ornatus.120 Crasso se refere depreciativamente aos estudos relativos à Latinitas. Ele
afirma que, embora indispensável, trata-se de uma doctrina puerilis, de cognitio facilis.121
Segundo Hendrickson, seria em resposta a essas afirmações do De oratore que César teria escrito o seu De analogia.122
Mas se no De oratore a polêmica não pode ser defendida sem contestação, no Brutus ela é evidente.
No Brutus, Cícero atribui a virtude do Latine loqui a homens do chamado círculo de Cipião, como Lúcio Fúrio Filo (108),123
Públio Cipião (128) e Quinto Cátulo (132), oradores que teriam adquirido essa virtude pelo costume. Ecoando a afirmação de Crasso no De oratore, Cícero afirma no Brutus que a virtude do Latine loqui não é louvada pelo seu valor em si mas sim pela negligência dos oradores, uma vez que conhecer bem o latim não é tão louvável quanto é vergonhoso desconhecê-lo.124 No argumento de Cícero,
falar bom latim não é algo que distingue o orador, mas sim algo próprio de qualquer cidadão, donde a distinção entre loqui e dicere. O que distingue o orador é a capacidade de ornamentar e embelezar o discurso, bem como mover os ânimos dos ouvintes.
No que concerne ao Latine loqui, César é o orador mais elegante.125 Através da
personagem Ático, Cícero afirma que César esccreveu sobre o método de falar bom latim (de ratione Latine loqui 253), no qual César teria defendido que o fundamento da
119
Ad Herenium IV. 12, 17: Latinitas est, quae sermonem purum conseruat, ab omni uitio remotum. Cf. Hendrickson(1906, p. 100).
120Noções devedoras de tradição peripatética. Cf. Stroh (2010, p. 220). 121
De oratore III, 38; 48.
122Hendrickson(1906, p. 115): “In view then of these considerations we shall be justified in concluding:
(1) that the De analogia was elicited by certain utterances of Cicero’s De oratore; (2) that it was written in the spring of the year 54 with the memory of Cicero’s recent words fresh in the writer’s mind; (3) that it was apparently rather a controversial pamphlet than a systematic treatise.”
123Cf. Douglas (1966, p. 90). 124
Brutus 140: [É que, por si só, falar bom latim é, de fato, como disse há pouco, algo a que se deve conferir o maior mérito, mas não tanto considerado em si mesmo, quanto porque é algo negligenciado pela maioria; com efeito, não é tão extraordinário saber latim quanto é vergonhoso não saber] nam ipsum Latine loqui est illud quidem [est], ut paulo ante dixi, in magna laude ponendum, sed non tam sua sponte quam quod est a plerisque neglectum: non enim tam praeclarum est scire Latine quam turpe nescire.
125
oratória seria uma elocução correta e em bom latim (locutionem emendatam et Latinam 258). Segundo a personagem Ático, essa obra de César teria sido dedicada a Cícero. A dedicatória aponta Cícero como principal interlocutor da obra, como resposta às críticas acerca da elementaridade e facilidade de se alcançar as virtudes oratórias do Latine loqui e da perspicuitas.126
Reportando o que seria uma “citação” do De analogia,127 a personagem Ático atribui
as seguintes palavras a César:
ac si, cogitata praeclare eloqui ut possent, nonnulli studio et usu elaborauerunt, cuius te paene principem copiae atque inuentorem bene de nomine ac dignitate populi Romani meritum esse existumare debemus: hunc facilem et cotidianum nouisse sermonem nunc pro relicto est habendum?
[e se algumas pessoas pelo estudo e pela prática empenharam-se em dar expres- são ilustre a seus pensamentos — devemos considerar que você, praticamente o expoente máximo e o inventor de tal riqueza, revelou-se digno do nome e do prestígio do povo romano — conhecer essa linguagem fácil e cotidiana é algo que agora deve se deixar de lado?] (Brutus 253)
Quanto à urbanitas, é interessante notar que, nessa mesma passagem do De oratore (III, 42), ao tratar da Latinitas, Cícero insere a distinção entre uma pronúncia ática e uma pronúncia asiática, para diferenciar, entre os latinos, os oradores que possuem uma pronúncia romana (vox Romani) dos que são tidos como estrangeiros (peregrini).128 A
esse propósito, vale lembrar o relato de Cícero no Brutus a respeito de Teofrasto, que teria sido “descoberto” por uma velha feirante que havia percebido a pronúncia estrangeira do filósofo (Brutus 172). Nessa passagem, Cícero está respondendo ao questionamento de
126Hendrickson (1906 b, p. 113): “The work was dedicated to Cicero, not because such a dedica-
tion would afford Caesar a desired opportunity to flatter the orator with exaggerated compliments, but because its theme was a vindication of the points of view which Cicero had dismissed so slightingly. The procedure was entirely analogous to Cicero’s dedication of the two works in which he attacks the Atticists to Brutus, a partisan of the school attacked.”
127Cf. Hendrickson (1906 b, p. 114) 128
Bruto acerca do que ele, Cícero, chamou de matiz de urbanidade (urbanitatis color). Em resposta, Cícero parece irônico ao afirmar que não sabe dizer o que seria a urbanitatis color, mas que ela existe. A urbanitas seria uma espécie de costume vocabular e de pronúncia próprios da cidade de Roma.129 Ademais, quanto à pronúncia (sonus), Cícero
estabelece correspondência entre a pronúncia urbana de Roma e a pronúncia característica da Ática.130
No Brutus, Cícero também aponta a imitatio antiquitatis como uma das características dos chamados “aticistas”.131 Com efeito, nas duas passagens em que faz menção direta
a eles, Cícero critica aqueles que se comprazem com o arcaismo entre os gregos e não o reconhecem em Catão, bem como aqueles que são demasiado arcaizantes ao escolherem como modelo Tucídides.132
Censurando esses “aticistas”, Cícero afirma que o arcaismo não goza de tanto prestígio na oratória quanto nas artes da pintura e da escultura e que todas as artes seguem um curso de aprimoramento e sofisticação.133 Assim, entre
os latinos, o gênero oratório de Catão, embora dotado de valor, teria sido superado pelo uso da estrutura periódica do discurso e pelo uso do ritmo oratório,134 assim como, entre
os gregos, teria sido superada a oratória de Lísias, orador exemplar para os “aticistas”.
129
Brutus 171: [“O que você logo compreenderá, Bruto, quando chegar à Gália; também ouvirá certas palavras não usuais em Roma, mas elas podem ser mudadas e esquecidas; o mais importante é que na pronúncia de nossos oradores vibra e ressoa um tom mais urbano. E isso se manifesta não só nos oradores como também nos outros cidadãos.”] id tu, Brute, iam intelleges, cum in Galliam ueneris; audies tu quidem etiam uerba quaedam non trita Romae, sed haec mutari dediscique possunt; illud est maius, quod in uocibus nostrorum oratorum retinnit quiddam et resonat urbanius. nec hoc in oratoribus modo apparet, sed etiam in ceteris.
130
Brutus 172: [Desse modo, na minha opinião, há entre nós uma pronúncia peculiar aos oradores urbanos tal como, entre os gregos, aos áticos.] sic, ut opinor, in nostris est quidam urbanorum sicut illic Atticorum sonus.
131Narducci(1997, p. 128): “Da Cicerone, il gusto atticistico viene più o meno esplicitamente tacciato
di arcaismo.”
132
Brutus 67; 287.
133Narducci (1997, p. 128): “come mostra una sua discussione sullo sviluppo della scultura greca
(§70), egli aderisce a una dottrina, di origine ellenistica, secondo la quale l’evoluzione di tutte le arti muove in direzione della progressiva conquista della resa naturalistica e del superamento della ‘durezza’ arcaica; nell’orator (§§168 sgg.) una dottrina del genere verrà applicata anche al linguaggio: la conquista della ‘naturalità’ dell’espressione consiste nel modulare il ritmo della lingua in modo da assecondare l’andamento del pensiero; per questo un linguaggio che abbia superato l’acerbità delle origini si struttura in ‘periodi’ i quali ricercano spontaneamente la concinnitas, la simetria dei suoni e delle cadenze.”
134Narducci (1997, p. 137): “l’oratoria catoniana gli [Cicerone] appare ‘ruvida’ e, soprattutto per
quanto riguarda la costruzione del periodo e la composizione, priva di quel raffinamento che sarebbe stato dovuto all’attività di generazioni successive. Oratore grande per il suo tempo, Catone risulta pertanto improponibile all’epoca attuale.”
Segundo Cícero, os “aticistas” também procuravam imitar Tucídides (Brutus 287). Além de censurá-los pelo fato de escolherem um historiador como modelo para a oratória,135
Cícero os repreende por escolherem um modelo demasiado arcaico, comparando-o a um vinho muito envelhecido.136