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No Pará, após a instauração da República, os políticos que compunham o Partido

Liberal (PL) e o Partido Conservador (PC) não apresentaram grande resistência e, visando

condições de disputar espaço politico no novo Regime, uniram-se para fundar o Partido Republicano Democrático (PRD), sendo tratados pelos republicanos históricos como adesistas. Lauro Sodré51 e Antônio Lemos inicialmente compuseram o Partido Republicano do Pará (PRP), partido que aglutinou os Republicanos históricos ou aqueles que defendiam o Regime Republicano abertamente antes da sua instauração, sendo que

51 Lauro Nina Sodré era natural de Belém do Pará. Nasceu em 17 de outubro de 1858. Por pertencer a uma

família de poucos recursos financeiros, o que o impediu de ingressar em uma das três faculdades de Direito existentes no Brasil, Sodré alistou-se como voluntário no quarto batalhão de artilharia, destinado a Escola Militar da Praia Vermelha no Rio de Janeiro. Esta Escola foi um grande criadouro das ideologias positivistas no Brasil no período que antecedeu a Proclamação da República. Para saber mais sobre Lauro Sodré, ver: COELHO, Alan Watrin. A ciência do Governar: Positivismo, Evolucionismo e Natureza em Lauro Sodré. Dissertação defendida no Programa de Pós -graduação em História da Amazônia da Universidade Federal do Pará. Belém, 2006.

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Antônio Lemos, durante a monarquia era membro do PL, mas após a República optou por se tornar membro do PRP52.

Lauro Sodré foi o primeiro governador do estado do Pará, eleito pelo Congresso Constituinte Paraense, a 23 de junho de 1891, além de ter sido o representante do Pará na Constituinte da República e eleito quatro vezes senador - três pelo Pará e uma pelo Distrito Federal. Foi o único governador do Brasil que se posicionou contra o golpe perpetrado por Deodoro da Fonseca a 3 de novembro de 1891, quando foi dissolvido o Congresso. Quando houve o ―contragolpe‖ de 23 de novembro, Lauro Sodré, também, foi o único que permaneceu no cargo de governador, enquanto todos os outros foram destituídos.

Durante a sua gestão como governador, Sodré enfrentou a forte oposição do PRD, partido declaradamente contrário ao PRP. Em 1897, quando o presidente Prudente de Moraes rompeu com o general Francisco Glicério, Lauro Sodré apoiou Glicério, enquanto o governador do Pará, Augusto Montenegro, e o Senador Justo Chermont apoiaram o presidente53. Fulgêncio Simões, membro do PRP, escreveu uma moção em apoio ao presidente, que foi assinado pela maioria dos membros presentes numa convenção deste partido54. Antônio Lemos fora acusado de ter se posicionado de forma dúbia nesta questão, mostrando-se contrário a dissidência do PRF quando estava no Pará, mas favorável quando estava fora do estado55.

Após a cisão do Partido Republicano Federal (PRF) em 1897, Lauro Sodré deixou o PRP e ingressou no PRF. O apoio do PRP a Prudente de Moraes acirrou as disputas politicas no Estado, dividindo os membros desta disputa em dois grupos, ―Lauristas‖ e ―Lemistas”, como ficaram conhecidos, e se assumiam, os partidários de Lauro Sodré e Antônio Lemos. Sodré foi escolhido candidato à presidência da República na sucessão de Prudente de Morais (1894-1898), apoiado, sobretudo, por republicanos e positivistas. Mas foi derrotado nas eleições no dia 1º de março de 1898, por Campos Sales. Com a cisão do PRP, Antônio Lemos alcançou projeção dentro deste Partido, já que Lauro Sodré, o maior

52 FARIAS, William Gaia. A Construção da República no Pará (1886-1897). Tese de Doutorado. Niterói,

agosto/2005.

53 ROCQUE, Carlos. Antônio Lemos e sua época: história política do Pará. 2ª ed. Belém: Cejup, 1996. p.

147.

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A Província do Pará. 24 agost. 1897. p. 1.

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CUNHA, Marly Solange Carvalho da. ―Matutos” ou Astutos? Oligarquia e coronelismo no Pará Republicano – 1897-1909. Dissertação defendida no Programa de pós -graduação em História Social da Amazônia. Universidade Federal do Pará. Belém: 2008. p. 20.

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expoente da República no Pará, não se constituía mais em um obstáculo para sua ascensão política. Além disso, a chegada dos civis ao poder, era uma situação muito favorável a Antônio Lemos, pois ele buscou apoio na Oligarquia Cafeeira Paulista56.

A urbanização de Belém do Pará durante a Primeira República ocorreu neste ambiente de intensas disputas políticas pelo qual o país estava passando. Poucos anos após a Proclamação, a politica adotada para promoção da urbanização da cidade passou a ser o alvo principal destas disputas. A oposição ao Partido Republicano do Pará criticava as ações de Antônio Lemos, eleito Intendente de Belém por cinco vezes consecutivas, ocupando o cargo de1897 a 191157. Tendo em vista que Antônio Lemos enraizou o seu poder pelo interior do Pará, conseguindo o apoio da maioria dos Intendentes dos munícipios menores que compunham este estado58, as ações de Antônio Lemos para urbanizar Belém forneceram argumentos para que seus opositores combatessem a hegemonia política que ele e seu grupo haviam conquistado.

Antônio Lemos firmou-se como uma espécie de ―todo poderoso‖ local. Durante quase quatorze anos de governo não houve quem pudesse fazer frente a seu poder, pois além de Coronel das forças armadas nacional, senador, presidente do Partido Republicano Paraense (PRP) e intendente de Belém, o PRP elegeu a maioria na Câmara de vereadores e de deputados, durante os seus mandados.

Quando Lemos desbancou Justo Chermont, o candidato de Lauro Sodré a governador (candidatura que havia sido acordada entre Lemos e Sodré desde 1898) e elegeu Augusto Montenegro em 1900, consolidou o seu poder no Estado do Pará, mas acirrou com isso a já existente inimizade política entre ele e Lauro Sodré. Por mais de uma década, Antônio Lemos indicava todos os nomes e o governador acatava. Nada era feito sem o ―aprovo‖ do Intendente. Este poder começou a enfraquecer-se com a eleição de João Coelho a governador, em 1909. Dentro do PRP havia insatisfações com o poder e os ―desmandos‖ de

56 Sobre esta questão, ver: FARIA, 2005. Especialmente o capitulo 5.

57 Tinham direito a voto todos os alfabetizados maiores de 21 anos que comprovassem ser radicados na cidade

(como determinava a Constituição, mulheres, analfabetos e policiais de baixa patente ficavam de fora do processo).

58 Marly Cunha escreveu uma dissertação no intuito de discutir a contribuição dos lemistas para a instauração

de uma politica oligárquica no Pará durante a primeira República. Esta autora aponta que o apoio dos intendentes do interior do Pará foi fundamental para que Antôn io Lemos conseguisse se manter tanto tempo no poder, apesar de ter um opositor forte como Lauro So dré. Maria de Nazaré Sarges, uma das biógrafas de Antônio Lemos, também assinala que este intendente tinha consciência da importância dos ―intendentes

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Antônio Lemos, mas somente em 1910 a politica de favorecimentos adotada por Lemos começou a ser contestada, dando inicio a outra crise politica neste partido e no Estado do Pará59.

As concessões para modernizar a cidade, feitas a pessoas próximas ao intendente, foram uma característica marcante do ―governo Lemos‖. Muitos engenheiros foram beneficiados neste processo. A oposição política personificada em Lauro Sodré e efetivada por Cyprino Santos e Firmo Braga, redatores do jornal local Folha do Norte, não deu trégua durante grande parte do governo de Antônio Lemos, denunciando e fazendo severas críticas ao modo como ele utilizava o erário público e conduzia a urbanização da cidade. Estabeleceu- se, então, um longo período de acusações mútuas por meio dos jornais locais, principalmente na Folha do Norte e na Província do Pará- este último veículo de propriedade de Antônio Lemos. Outros jornais como O jornal e O Estado do Pará, também tomaram partido, o primeiro a favor de Antônio Lemos e o último a favor de Lauro Sodré. Contudo, minha análise centrar-se-á nos Jornais Folha do Norte e a província do Pará, pois estes foram destaques na disputa entre lauristas e lemistas. Muitos dos artigos publicados por eles eram reproduzidos pelos outros dois jornais, que funcionavam como uma espécie de apoiadores nesta disputa.

A Província do Pará originou-se da tipografia de O Pelicano. Nele Antônio Lemos

iniciou sua careira como jornalista. Em 25 de março de 1876 O Pelicano foi vendido a Joaquim José de Assis (redator), que manteve Antônio Lemos como redator-gerente e contratou como tipógrafo Francisco de Souza Cerqueira. Politicamente, durante a monarquia, este jornal alinhava-se ao Partido Liberal, mas, ainda assim, nos anos que antecederam a Proclamação da República, mesmo que Antônio Lemos não se posicionasse publicamente contra o Regime Monárquico, A Província do Pará abria espaço para que o

Club Republicano do Pará publicasse artigos em suas páginas. Em 1889, com a morte do

dr. Assis, a esposa dele repassou todos os direitos sobre o jornal a Antônio Lemos60. A Província do Pará era considerada o jornal mais moderno do Norte. Já em 1897 ganhou a primeira máquina rotativa, a impressora francesa Marinoni, equipamento que outros grandes periódicos brasileiros só adquiriram anos mais tarde (como por exemplo o

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Para compreender melhor sobre este processo, ver: ROCQUE, 1996.

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jornal O Estado de São Paulo que só adquiriu este tipo de maquinário em 1907)61. A

Província do Pará, também, foi um órgão de publicidade do governo Antônio Lemos,

sendo o principal promotor do lemismo no Pará.

A Folha do Norte foi fundada por Enéas Martins62 e Cypriano Santos em 1896, para fazer oposição A Província do Pará e, consequentemente, também fez oposição a Antônio Lemos. Após a cisão do PRP em 1897, ocorreu o fechamento do jornal A República que era o principal meio de promoção deste Partido. Este jornal voltou a funcionar em 1899 como órgão do PRF, porém em situação bastante precária, conseguiu manter-se somente até 1900 quando fechou, definitivamente, suas portas. Com o seu fechamento a Folha do Norte tornou-se o órgão de propaganda e apoio do PRF e, consequentemente, um jornal identificado como laurista63.

A breve contextualização que fiz neste tópico objetiva situar o leitor sobre como iniciaram as disputas políticas, nas quais Francisco Bolonha acabou envolvendo-se por ter sido um dos profissionais contratados pela intendência para atuar na modernização da cidade de Belém. Como veremos no momento oportuno, Bolonha implicou-se politicamente por fazer negociatas vantajosas a ele e a Antônio Lemos. Outros pesquisadores, que tiveram como interesse central em seus trabalhos os processos de Proclamação da República no Pará e as estratégias politicas de Antônio Lemos para se manter no poder, debruçaram-se detidamente sobre as tramas politicas no Pará da Primeira República. Suas pesquisas poderão fornecer análises mais profundas sobre tais processos64. Para a análise que farei nesta dissertação, importa a clareza de que as disputas politicas ocorridas entre lauristas e lemistas em Belém envolveram a intelectualidade, os engenheiros, os empreiteiros, os comerciantes e outras camadas sociais identificadas nos

61 Sodré, Nelson Werneck, História da Imprensa no Brasil. 4ª edição, Mauad, 1999. 62

De 1894 e 1896 exerceu o mandato de deputado federal pelo Pará, eleito pelo Partido Republicano Federal. Em 1897 foi reeleito deputado federal, desta vez pelo estado do Amazonas. Exerceu o mandato até o fim da legislatura, em 1899. De volta à Câmara dos Deputados entre 1903 e 1905, destacou -se em 1903 na defesa do Tratado de Petrópolis, que formalizou a incorporação do Acre ao território brasileiro e pôs fim à disputa entre Brasil e Bolívia. Em 1º de fevereiro de 1913 assumiu o governo do estado do Pará, sucedendo a João Antônio Luís Coelho. Em 27 de dezembro de 1916 foi deposto por um levante militar, e em janeiro de 1917 embarcou para o Rio de Janeiro. Após sua saída, o governo foi entregue ao desembargador Au gusto Borborema, presidente do Tribunal de Justiça do estado. Em 1º de fevereiro, este foi substituído por Lauro Sodré, que iniciou assim seu segundo governo no Pará. Dicionário da Elite Republicana (1889-1930). FGV-CPDOC. Disponível em: http://cpdoc.fgv.br/sites/default/ files/verbetes/primeira-republica/MARTINS,%20Eneias.pdf. Acesso dia: 20 nov. 2013.

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ROCQUE, Carlos. Depoimentos para a História Política do Pará. Mitograph, Belém, 1981.

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jornais como povo. Até 1912 podiam-se ler diariamente notícias nas páginas dos jornais supracitados, onde ficava clara a existência da polarização politica protagonizada por Lauro Sodré e Antônio Lemos durante as primeiras décadas da Primeira República no Pará. A partir de agora analisaremos como os lauristas utilizaram contra Antônio Lemos, as diretrizes governamentais adotadas por ele para modernizar a cidade, e por que, em geral, estes opositores centravam seus argumentos na concessão de monopólio s a particulares.

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