Conheci o Mignone bastante bem e o visitei várias vezes em sua casa, além de que, até 1970, morávamos, eu e minha família, a meia quadra de distância. Mesmo a partir de 1970 continuamos morando não muito longe, e nos víamos na rua com certa freqüência também. Numa ocasião lembro-me de tê-lo encontrado próximo à esquina da Av. N. de Copacabana com a Rua Bolívar e êle me contou que estava começando a escrever um concerto pa ra violão e orquestra e gostaria de saber se alguns saltos eram tecnicamente viaveis numa seção de harpejos entre a região aguda e a região média, e cantarolou: si-sol-mi- dó-lá-mi-s i-sol-mi (salto) mi-sol-si-mi-lá-do-mi-sol-si (salto) lá -fá#-re-sol-mi-dó-lá-fá#-re, etc. (não havia qualquer problema, claro). Bem antes desse evento, no entanto, quando começamos a estudar com a Prof. Monina Távora, em 1960, ficamos sabendo que ela era grande amiga do Mignone e, principalmente, de sua esposa, Sra. Lidy Mignone, tendo sido D. Lidy quem nos apresentou em público pela primeira vez, como parte de um recital no Conservatório Brasileiro de Musica, em 1962, e o maestro também estava presente. Infelizmente a Sra. Lidy faleceu em acidente aéreo poucos dias após essa apresentação. O Mignone assistiu a vários dos recitais que demos no Rio de Janeiro nos anos seguintes e, na segunda metade da década de 70, tivemos a mesma empresária, Sra. Sula Jaffé (grande amiga que se tornara empresária) e nos encontramos com o Mignone, também, e muitas vezes, em recitais vários, assim como em inúmeros eventos sociais organizados pela Sula. Também fomos co-jurados em alguns concursos Villa-Lobos (organizados pela Sra. Arminda Villa-Lobos) e Jovens Concertistas Brasileiros (organizados pela Sra. Sula Jaffé).
Recentemente descobri que, na verdade, tive um primeiro encontro com o Mignone pela primeira vez aos cinco anos de idade. Eu me lembrava vagamente de ter estudado piano durante algum tempo, quando bem criança, com uma professora chamada Musmée, e, pouco antes de falecer, minha mãe me revelou que, tanto ela (minha mãe) como eu, havíamos conhecido a Monina Távora bem antes do que eu imaginava. Bastante tempo depois de eu e meu irmão começarmos a ter aulas com a Prof. Monina, minha mãe teve oportunidade de conhecê -la, e, imediatamente, a reconheceu como sendo a jovem e bela senhora, cujo filho, Ruy, também tinha aulas com a Prof. Musmée, entre 1953 e 1954, no horário logo após o meu. Nem de longe minha mãe desconfiou, na época, que poderia se tratar da fabulosa violonista,l de quem meu avô falava tão bem, e com quem meu pai também havia tido algumas aulas. Há poucas semanas, após um recital do Turíbio Santos no IBAM, fui surpreendido por uma idosa senhora que me perguntou se meu avô havia sido um conceituado professor de violão aqui no Rio. Eu lhe disse o nome de meu avô, Antônio Rebello, e ela me disse que há muitos anos tinha curiosidade de me encontrar, pois achava que eu tinha sido aluno dela, o que agora se confirmava, e se apresentou como sendo a Pr. Musmée, e disse que tinha até uma foto minha, com dedicatória, tocando num recital de alunos no Conservatório Brasileiro de Música. Por coincidência (poucos dias antes!!!), eu também havia achado as fotos e o programa dessa apresentação, tendo ficado bastante curioso em saber quem era essa professora, identificada no programa como Musmée Vagner (detalhe: apenas poucos dias separaram meu achado do programa e das fotos do reencontro com a Pr. Musmée, que eu havia visto pela última vez 50 anos antes!!). Pois a Sra. Musmé me contou que naquela época era assistente da Sra. Lidy Mignone, primeira esposa do maestro, e meu avô havia me levado para tocar para o Mignone pedindo sua opinião e a recomendação de um professor de piano apropriado para uma criança de tão pouca idade. A Sra. Lidy também esteve presente, e, imediatamente, me recomendou à Prof. Musmée de maneira extremamente elogiosa. A emoção que tomou conta de mim quando a Pr. Musmée me contou isso não dá para descrever.
Em 1953, Mignone dedicou 4 peças para violão à sua professora Monina Távora: Modinha, Choro, Minueto, e Repinicando. Sabemos que são peças de influência popular e bastante simples tecnicamente. Mas, sabemos também que a Srª Távora é extremamente exigente e tradicional em termos de repertório violonístico. Você se recorda de algum comentário dela a respeito do compositor e dessas obras?
Ela admirava muito o Miignone como músico e como compositor. Eu tive a impressão de que ela achava que o Mignone não havia conseguido se encontrar no violão nessas peças, por não ter muita intimidade com as possibilidades e as peculiaridades do violão. No entanto ela chegou a tocar a Modinha e o Chorinho, e foi por seu intermédio que essas peças foram publicadas na Guitar Review em N. York. Quando comecamos a estudar com a D. Monina ela imediatamente nos incentivou a tocar em duo e logo imaginou que o Mignone se sentiria mais à vontade escrevendo para 2 violões. Ela nos levou a sua casa em 1962 ou 1963 (não me lembro exatamente) para tocar para êle. Inclusive o Mignone convidou o Manuel Bandeira, que
tocar, mas as obras para 2 violões ficavam sempre só na promessa. Só anos mais tarde êle fez uma adaptação do Lundu para dois violões, se não me falha a memória para os irmãos Assads, já que naquela época o duo com meu irmão já tinha acabado. Em meados da década de setenta comecei a fazer duo com a cantora Maria Lúcia Godoy e o Mignone escreveu três canções para nós, uma das quais chegamos a es trear na Sala Cecília Meireles (programa escaneado em anexo).
Em alguns recitais do Duo Abreu, há a presença de algumas transcrições suas de peças para piano de Mignone. Foi ele mesmo quem o incentivou às adaptações?
Foram 2 Preludios para piano , de uma série de seis. Foi a D. Monina que nos incentivou a tocar esses Prelúdios e o Mignone pareceu ter ficado satisfeito com o resultado.
Lembro-me de uma conversa em que você relatou um encontro com o compositor, em 1970, quando este havia acabado de escreve r os 12 Estudos. Você poderia nos relatar esse encontro? Percebeu grandes diferenças entre o estilo interpretativo de Mignone em relação à gravação de Barbosa-Lima de 1978?
Em 1970 o Mignone me telefonou convidando para uma visita a sua residência pois êle gostaria de me mostrar uma colecão de Estudos que êle havia escrito para violão. Êle os tocou na íntegra ao piano, e de uma maneira totalmente cativante. Êle podia não ser um grande virtuose, mas tinha uma boa técnica pianística, bela sonoridade, e muita sensibilidade. Era um grande músico em todos os sentidos e tê-lo ouvido tocar esses estudos ao piano foi para mim uma experiência memorável.
De um modo geral êle tocou todos os Estudos em andamentos sempre bem fluentes, nunca muito lentos, embora alguns tivessem um carater mais meditativo eenquanto outros tinham um estilo bem virtuisístico. Me lembro que êle tocou o último Estudo num andamento rapidíssimo, de esplêndido efeito, mas totalmente impossível de se conseguir no violão. Comentei isso com êle e êle ponderou que, se necessário, poderia ser tocado num andamento um pouco menos rápido. A maneira como êle tocou alguns Estudos me ficou bem marcada na memória.
O Estudo Nº1, por exemplo, o Mignone o tocou de uma maneira muito cantada, em que a melodia se destacava totalmente e o acompanhamento não era muito articulado. Quase como se êle estivesse pensando numa melodia para voz ou para um instrumento de sopro, por exemplo um clarinete, com o piano acompanhando num delicado murmúrio. Esse efeito é dificílimo de se conseguir no violão, e me lembro que comentei com o Mignone que esse estudo poderia dar uma excelente peca para 2 violões, mas êle respondeu que preferia que esse estudo fosse tocado apenas como solo de violão e depois êle pensaria em alguma coisa para 2 violões. Também pensei que o Estudo XII ficaria bem mais interessante numa versão para dois violões, mas, em vista de sua negativa quanto ao 1º Estudo nada comentei nesse sentido. O Mignone tocava com bastante liberdade agógica, mas sem exagerar nunca. Havia uma sensação de grande naturalidade e fluência musical o tempo todo, o que, aliás, se nota nas gravações que êle deixou das Valsas de Esquina e outras composições suas. Nos Estudos de caráter mais popular como o IIIº, o VIº e o IXº êle sabia encontrar o andamento e os acentos exatos para conseguir a graça e o gingado característicos, porém sem qualquer traço de vulgaridade. Certamente recomendo aos quem tenham a intenção de tocar esses Estudos que ouçam as gravações do Mignone ao piano, que dão uma excelente ideia da maneira como êle sentia e tocava suas composições.
Naquele dia perguntei ao Mignone se êle me permitiria voltar a sua casa com um gravador para registar sua versão desses Estudos, mas ele me disse que havia prometido exclusividade ao Ba rbosa Lima até a publicação desse material. Não insisti no assunto, mas sinto muita pena de não ter conseguido fazer essa gravação, que certamente seria de grande interesse para os violonistas de hoje.
Entre as versões manuscrita e editada dos Estudos, há uma série de diferenças de notas, andamentos, etc. O que mais chama a atenção, entretanto, é que, na versão manuscrita, os andamentos são muito mais rápidos. Apesar da grande dificuldade de execução, nos andamentos rápidos solicitados transparece uma inte nção estética nacionalista em todos os estudos, apesar de ser uma hipótese questionável (o VIIIº Estudo, por exemplo, pode ser considerado um frevo, o Xº sugere uma bossa- nova). Você percebeu isso na execução de Mignone?
mas desconheço qualquer tentativa dele na direção da bossa-nova . Tal possibilidade não transpareceu em nenhum momento quando êle tocou para mim os Estudos*. (* nova informação na imprensa carioca parece confirmar não só o desinteresse do Mig none pela música popular brasilleira do início dos anos 70, mas até seu desprezo. Enviarei a você nos próximos dias um arquivo escaneado que realmente me surpreendeu, mas parece cofirmar esssa opinioão minha.
Quanto às diferenças de andamento, não sei até que ponto resultaram de uma decisão sua ou da influência do Barbosa Lima. Quando êle me deu a coleção dos Estudos publicada nos Estados Unidos, chamou-me atenção que em alguns deles a marcação de metrônomo indicava um andamento bem mais lento do que eu me lembrava de tê-lo ouvido tocar, porém nunca comparei com as indicações no manuscrito original. No caso do Estudo XII o novo andamento indicado ficou muito mais apropriado em termos de técnica violonística, mas havia muito mais sentido musical na maneira vertiginosa e arrebatadora como o Mignone o tocou. . Já no caso do Xº Estudo suspeito de sério engano editorial, já que o Barbosa Lima o gravou em andamento mais próximo ao que eu me lembro de ter o Mignone tocado. Na primeira seção desse estudo, porém, o Mignone não tocou os acordes "a tempo" e sim com uma certo rubato extremamente bem dosado, além de se demorar um pouco na nota melódica antes de iniciar cada grupo de acordes rebatidos, o que era acompanhado de uma expressão facial bastante característica dele, com as sobrancelhas levantadas e sugerindo um pensamento meditativo. De qualquer maneira, a ideia que êle passava era a de um Lento fluente, não daquela coisa interminável que seria a semínima igual a 58. Tampouco me recordo de tamanho contraste de andamento em relação à segunda seção desse Estudo.