CAPÍTULO II A LAVADEIRA, A LAVANDERIA E O SEU HABITUS
2.2. Lavagem de roupa: técnica e processo de trabalho
Uma primeira dimensão a ser ressaltada no que diz respeito ao processo de trabalho de lavagem de roupas é exatamente o controle de sua execução. Há não mais do que três décadas, o processo, quando desenvolvido na casa da “patroa”, implicava um grande controle sobre o tempo e as formas de execução das tarefas. Como isso se dava? Um controle do tempo de execução da tarefa ou de horário de chegada à casa da patroa para receber as roupas e entregá-las engomadas, se assim fosse a lavagem feita na casa da própria lavadeira. Uma constante vigilância sobre a qualidade do trabalho com inúmeras recomendações sobre cada peça. Ou, ainda, o cuidado com a quantidade do sabão ou produto alvejante para não ser gasto em excesso.
Essa situação vai sendo redefinida quando a patroa, ela própria, vai sendo inserida em uma dinâmica social predominantemente urbana e absorvida seja pelo mercado de trabalho ou pelas novas tarefas atribuídas à dona de casa em um contexto social contemporâneo (pegar os filhos na escola, acompanhá-los em atividades extraescolar, fazer as compras no supermercado, estudar, etc.).
Esse quadro reforça um tipo de trabalho de lavagem de roupa que coexistia com aquele descrito mais acima. Referimo-nos ao trabalho executado na própria casa da lavadeira, ou em algum lugar público – lavanderias coletivas, margens de rios e lagoas. Enquadrava-se nessa segunda situação, como já apontamos antes, o tipo de trabalho realizado por D. Miúda durante uma boa parte de sua trajetória de vida como trabalhadora. Nele, embora a pessoalidade estivesse fortemente presente, havia certa autonomia na execução do trabalho por parte da lavadeira. Mas essa autonomia, ressaltemos, era uma condição a ser conquistada. Essa lavadeira, que havia conquistado a “confiança” de levar as roupas sujas das famílias para lavar em casa, tinha que ter demonstrado (ou alguém de sua família tê-lo feito e afiançá-la) ser merecedora da confiança e responsabilidade.
Nas duas situações acima identificadas (em casa e na casa da patroa), na maioria dos casos, os produtos usados na lavagem eram fornecidos pelas patroas. “Tinha vez que umas (patroas) botavam pouco e tinha vez que outras botavam franco”. O que implicava, no caso das lavadeiras que desenvolviam o seu trabalho em seus próprios domicílios, uma racionalização no uso dos produtos. Dado que o trabalho era executado em seu próprio espaço, essa lavadeira, como era o caso de D. Miúda, tinha a possibilidade de remanejar o uso desses produtos.
No que diz respeito à sequência das tarefas, havia, entretanto, pouca diferença entre as formas assumidas pelo trabalho de lavagem de roupas na casa da patroa e aquele executado nos domínios da lavadeira. Esse era um “trabalho pesado” e extenuante, como assegura-nos D. Miúda. Antes de prosseguir, é importante detalhar um pouco os passos constitutivos da atividade.
Nas duas situações acima identificadas, tínhamos como primeiro passo o recolhimento das roupas sujas, as quais, nas muitas das vezes, estavam dispersas nos cômodos das casas. Após a juntada das roupas, fazia-se a sua separação: roupas, toalhas e lençóis de crianças daqueles dos adultos e as peças brancas das coloridas, além daquelas feitas de tecidos leves das mais grossas. Feito isso, as roupas eram amontoadas e amarradas em “trouxas” e levadas para os locais de lavagem. No caso de D. Miúda, como o seu trabalho, durante um bom tempo, foi desenvolvido nos domínios do Sítio São Pedro, isso implicava em caminhar alguns quilômetros com essas roupas na cabeça. Quando uma de suas filhas ficou maior, em torno dos oito anos de idade, ela começou a levá-la para “ajudá-la” na arrumação e transporte das roupas. Essa participação se repetiria também ao final do trabalho, quando as roupas prontas (“engomadas”) eram levadas para a casa da patroa. Essas recordações compartilhadas durante as entrevistas, entre D. Miúda e suas filhas, carregam um sentimento de um trabalho árduo e ao mesmo tempo de superação.
Trazida a roupa para o Sítio, D. Miúda encaminhava-se para as margens do Rio Pitimbu, que cortava a propriedade rural da família, e lá a lavava e a colocava para “quarar”. Após o “quaramento”6, as roupas eram enxaguadas e colocadas para secar
“nas moitas” próximas à sua casa. Uma parte das roupas, aquelas que continham
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Corruptela de “clareamento”. O termo identifica um processo tradicional de garantir a brancura das roupas.
manchas e sujeiras mais evidentes, era fervida em um grande caldeirão. Depois de frias, eram lavadas normalmente. As roupas brancas eram imersas em uma bacia d'água contendo uma pedra de anil amarrada a um pano. A secagem das roupas nas cercas não implicava em descanso para a lavadeira. Durante o período de secagem da roupa, ela, ou uma de suas filhas, assumia a vigilância das roupas para impedir que algum animal doméstico (especialmente caprinos e bovinos) pudesse manchar algumas das peças ou a força do vento levá-las, já que naquele tempo não fazia parte das preocupações do lugar o perigo com roubos ou assaltos.
Após a secagem, as roupas eram dispostas em cima de uma grande mesa para serem engomadas. D. Miúda tinha que ter preparado, com antecedência, carvão para ser usado no “ferro de engomar”. O trabalho de engomar era igualmente cansativo. Passava-se o ferro cuidadosamente por sobre as roupas, para impedir que um deslize pudesse significar a queima e o grande prejuízo (financeiro, social e moral) que seria “botar a perder”, por exemplo, a “calça de linho” do marido da patroa. Goma de mandioca era usada para garantir a perfeição das golas das camisas. Assim, em cima da “mesa de passar”, tinha-se uma pequena tigela contendo esse produto imerso em uma porção d'água. Mas, apesar de todos esses cuidados, acidentes ocorriam. Uma fagulha ou uma brasa pequena poderia escapar pelas brechas do ferro e alojar-se em cima de uma peça de roupa ou mesmo provocar a queimadura de pele. Finalmente, o uso do ferro exigia destreza e habilidade. Era necessário manter as brasas que estavam no seu interior sempre acesas. Para que isso ocorresse, D. Miúda possuía dois ferros. Enquanto estava utilizando um, o outro se encontrava com as brasas perto do fogo.
No que diz respeito aos produtos utilizados na lavagem das roupas, a variedade de produtos disponíveis para a atividade, ao contrário de hoje, era bastante reduzida. Os saponáceos tinham formatos retangulares. Para Dona Miúda, “parecia uma barra de rapadura, preto”. Esses produtos eram produzidos em fabriquetas locais, geralmente tendo como matérias-primas gordura animal. Outros, mais caros, eram feitos à base de gordura vegetal, especialmente extraída da oiticica e do algodão.