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Fonte: Site da Biblioteca Virtual Marechal Rondon.45

Além dos projetos de documentação no âmbito da UNESCO, os povos indígenas também adquiriram a potência e realização dos seus centros de documentação (ANEXO). Essa transformação de objetos da ação documentária para sujeitos de sua própria documentação é a força maior da capacidade não só de organização, mas também de produzir garantias da existência, evidentemente, por meio de políticas de memória calcadas nos paradigmas construídos pela modernidade.

Estratégias de sobrevivência documentária. Esta seria uma boa chamada para a compreensão do processo em curso que vem culminando no fortalecimento desses grupos da sociedade brasileira. Assim, a visibilidade expõe uma pauta que estava na opacidade dos caminhos tortuosos evidenciados pela relação assimétrica travada ao longo do tempo. A passagem abaixo ilustra a importância da questão documentária pelos próprios povos indígenas:

Após o contato com os não-índios, os conhecimentos dominantes enfraqueceram diretamente o modo vida dos Wajãpi. Por isso, os chefes de aldeia e sabedores que são chamados jovijãkõ ficaram muito preocupados, porque os conhecimentos Wajãpi estavam sendo deixados para trás, principalmente pelos mais jovens, devido ao modelo educacional oferecido pelos não-índios. Para enfrentar esse problema, os chefes e sabedores se mobilizaram para realizar um trabalho de valorização da cultura wajãpi, realizado nas aldeias e também na cidade. Esse trabalho é desenvolvido por uma turma de 19 pesquisadores Wajãpi, de diferentes aldeias, que se reunem regularmente no Centro. Neste espaço, são realizadas várias ações de formação. Os pesquisadores já fizeram muitos trabalhos, nas aldeias e também na cidade de Macapá, sempre planejadas no Centro, onde também são feitas assembléias e reuniões regulares com os chefes de todas as aldeias, para o fortalecimento político e cultural dos Wajãpi. (ANEXO, p. 278)

O povo Wajãpi passou por questões centrais de identidade quando do contato com os não índios. A manutenção de seu modo de viver e existir são fundamentais para a garantia de

45 Disponível em: http://www.docvirt.com/docreader.net/DocReader.aspx?bib=MI_Bibliografico. Acesso em: 06 jan. 2019.

uma série de direitos originários, como a permanência em seu território tradicional. Visto o caráter inexorável da proximidade com outros agrupamentos humanos, povos indígenas também criaram estratégias de melhoria de vida e outros saberes/fazeres de sobrevida frente as transformações da contemporaneidade.

Outro exemplo interessante acerca da mobilização dos povos indígenas e o seu processo de documentação foi a constituição do Museu Kuahí. Na dinâmica apresentada acerca da preservação da documentação em curso, os povos indígenas elencaram uma série de instituição de memória, como centros de cultura e museus. No caso do museu em tela, os povos indígenas do Oiapoque se mobilizaram e criaram uma instituição específica para a preservação da cultura indígena coadunado com as pesquisas feitas nas áreas indígenas.

Ou seja, no decurso das pesquisas acadêmicas, os registros realizados que tenham como produto, por exemplo, teses e dissertações não ficam apenas depositados nas instituições de memória da produção acadêmica, mas também na própria comunidade indígena. Neste mesmo sentido: “A medida que o desenvolvimento de pesquisas nas áreas indígenas torna visíveis esses saberes, eles devem ser documentados, registrados e resguardados, de maneira adequada, legal e sobre a qual tenham sempre pleno conhecimento e controle.” (ANEXO, p. 285)

Muito interessante a iniciativa dos povos indígenas do Oiapoque. Se no passado, o retorno das pesquisas acadêmicas produzidas, em sua maioria, dependia da postura ética do pesquisador com o sujeito-objeto em estudo, em tempo atual, o povo indígena não apenas controla a produção intelectual, como possui um espaço privilegiado para salvaguardar o que foi realizado.

Fotografia 18 – Museu Kuahí

Fonte: Site Chico Terra46

Fotografia 19 - Sala de exposição do Museu Kuahí

Fonte: Site Apontador47

46 Disponível em: https://chicoterra.com/tag/museu-kuahi-dos-povos-indigenas/. Acesso em: 06 jan. 2019.

47

Disponível em:

https://www.apontador.com.br/local/ap/oiapoque/arte_e_cultura/C417740041265U2650/museu_kuahi.html. Acesso em: 06 jan. 2019.

Fotografia 20 – Sala de exposição do Museu Kuahí

Fonte: Site Apontador48

48

Disponível em:

https://www.apontador.com.br/local/ap/oiapoque/arte_e_cultura/C417740041265U2650/museu_kuahi.html. Acesso em: 06 jan. 2019.

7 UMA CONSTITUIÇÃO DA MEMÓRIA E DOS SABERES SUJEITADOS

Uma das importantes questões que o fenômeno informacional faz emergir é o que lembrar e esquecer entre a profusão de informações geradas no mundo contemporâneo. A existência de informações muitas vezes impossíveis de serem devidamente armazenadas e tendo a possibilidade, ou a necessidade, de serem acessadas e utilizadas. Tal fenômeno de natureza complexa envolve uma série de nuances e especificidades, não sendo possível esquecer aqueles grupos muitas vezes alienados do processo informacional.

A ação documentária tem muitas vezes contribuído para que haja um recolhimento não planejado do que é produzido em sociedade. Quando nos deparamos com este tipo de ação, vislumbramos a possibilidade de existir um tipo de iniciativa que não atenda às necessidades de grupos que tenham singularidades quanto ao processo de documentação, armazenamento e disponibilização de estoques informacionais.

É possível afirmar que dentre os grupos que perfazem certa distância do fenômeno informacional estão os povos indígenas. Esses povos, muitas vezes de tradição oral, não possuíam a prática de documentar a sua cultura, dependendo muitas vezes da oralidade para que os ethos culturais estivessem permanentemente vivos na memória dos mais jovens:

Notemos sem insistir, mas sem esquecer a importância do fenômeno, que a atividade mnésica fora da escrita é uma atividade constante, não só nas sociedades sem escrita, como nas que a possuem. Goody lembrou-o recentemente, com pertinência: “Na maior parte das culturas sem escrita, e em numerosos setores da nossa, a acumulação de elementos na memória faz parte da vida cotidiana.” (GOODY apud DODEBEI, 2016, p. 230)

Os grupos indígenas desenvolveram o processo de interação perene com a sociedade envolvente. Assim sendo, no anseio de também guardar traços de cultura por meio da ação documentária, temos um novo problema que se coloca: o que guardar e como realizar um eficaz procedimento de memória que permita estabelecer uma nova relação do conhecimento produzido com os suportes documentais existentes.

Para tal intento será utilizado o conceito de oblivionismo de Harald Weinrich (2001) para que se possa problematizar a superabundância de informação que bibliotecas e centros de informação detêm e a necessidade de colecionar, ou melhor, de perenizar o conhecimento produzido. Este capítulo ainda discutirá a constituição da memória na sociedade, a formação de algumas práticas informacionais no ciberespaço e a necessidade de uma iniciativa de decolonialidade que pode representar uma ação documentária orientada a fim de preservar o

conhecimento produzido por povos indígenas frente ao processo de opressão característico da pós-modernidade, sendo uma ação intitulada como emancipatória. Assim:

A memória é, em suma, o que permite a um ser vivo remontar no tempo, relacionar-se, sempre mantendo-se no presente, com o passado: conforme os casos, exclusivamente com o seu passado, com o da espécie, com o dos outros indivíduos. (POMIAN, 2000, p. 508)

Portanto, podemos dilatar o entendimento de que a memória seria uma espécie de porto seguro nas quais seres humanos estabelecem uma ponte estável com o passado, sem perder a estrutura do tempo presente. Deste modo, ocorre também uma rede de significados para com o grupo social onde o ser concreto participa, completando assim uma rede de significado para si mesmo como para os seus semelhantes. Ou seja: “A função primordial da memória coletiva é, na verdade, dar coesão a um grupo social e manter sua identidade.” (JEDLOWSKI, 2005, p. 88)

Neste capítulo também utilizaremos os importantes elementos assinalados por Yates (2007) quanto às fontes latinas da arte clássica da memória. Podemos observar que a intitulada arte da memória nos remete a Antiguidade Clássica, sendo uma preocupação permanente de pensadores que desejavam recorrer a uma boa memória, por meio de uma disposição ordenada, para que possamos contar os fatos narrados da vida em sociedade. Desta maneira, podemos inferir que:

Esta história exemplar de como Simônides inventou a arte da memória é contado por Cícero em seu De oratore, quando discute a memória como uma das cinco partes da retórica: a história introduz uma breve descrição do sistema mnemônico de lugares e imagens (loci e imagines) utilizado pelos retores romanos. Ao lado da de Cícero, duas outras descrições da mnemônica clássica chegaram até nós, ambas em tratados de retórica em que a memória é discutida como uma parte desta. A primeira encontra-se no anônimo Ad C. Herennium libri IV, a outra está na obra Intituto oratoria, de Quintiliano. (YATES, 2007, p. 18, grifos do autor)

Conforme explicitado, os seres humanos já há muitos séculos tinham o desejo de obter uma técnica de memória que facilitasse uma melhor recuperação da informação frente às ações de esquecimento que ocorrem em sociedade. Na falta de uma técnica mecânica ou eletrônica de conservação da memória, pensadores em tempos pretéritos fomentaram técnicas que possibilitassem a reconstituição da memória. Uma técnica explanada é a que relaciona os lugares com as imagens, possibilitando uma nova formação da faculdade que os seres humanos possuem em conservar e lembrar o se ache associado aos mesmos. Ainda podemos expor que: “Esse é, portanto, um exemplo de uma imagem clássica de memória – composta de figuras humanas, ativas dramáticas, impressionantes, com acessórios para nos lembrar da “coisa” toda que está sendo guardada na memória.” (YATES, 2007, p. 29)

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