4 A PESQUISA DE CAMPO
4.3 A NÁLISE DOS DADOS
4.3.7 Lazer
Entre os sujeitos pesquisados o acesso ao lazer se dá de diferentes formas, que estão diretamente ligadas às condições materiais e ao meio social. Carol possui um forte vínculo de
amizade com a comunidade em que vive, com os vizinhos e com os amigos. No final de semana, aparece como momentos de lazer um passeio ao shopping, que ela chama de “rolezinho”, uma visita a casa dos amigos para assistir programas de TV ou o jogo de futebol dos meninos na quadra da comunidade.
Em um episódio específico, Carol conta que numa das saídas com a irmã conheceu um estabelecimento de prostituição:
Sim, mas eu não fui de noite, eu fui de dia. Eu não posso nem ir, nem de manhã. Eu fui mais porque eu tinha que sair com a minha irmã e eu pedi para ir, mas eu nunca fui de noite. Primeiro porque não pode pela minha idade. Mas eu achei bem diferente. É tipo a casa dela, sei lá (Carol, Diário de campo, 2015).
Sobre as impressões do lugar, Carol acrescenta:
Porque minha irmã trabalha nesses negócios distribuindo, aí teve uma vez que eu queria ir e ela me levou, aí eu olhava assim e (pensava) “vixe as meninas tudo limpinhas, tem menina que eu olho aqui ‘Meu Deus do céu’, quando eu olho eu digo
vixe, as meninas que trabalham nisso, tem menina que trabalha nisso, tem menina que
é toda “malamanhenta [...] Pronto, aí eu fiquei só vendo assim” (Carol, Diário de campo, 2015).
Diante do exposto, observa-se que o fato da irmã de Carol, Tatiana, trabalhar na ASPRORN, distribuir preservativos e atuar junto as prostitutas facilitou o seu acesso ao espaço físico em que trabalham as mulheres, conhecidos popularmente como cabaré ou bar- boate. Ao chegar no local e conhecer as mulheres que lá trabalhavam, ela se deparou com uma realidade diferente, que desmistificava a ideia que possuía acerca daquelas mulheres.
No que concerne à comunidade, a violência decorrente do tráfico de drogas e outras expressões de cunho social fazem parte da realidade na qual se encontra Carol, por exemplo, o homicídio de um morador se apresenta como um acontecimento que desperta a curiosidade da
comunidade. De forma que a visita à cena da violência, os boatos, as hipóteses e a chegada da polícia tornam-se a atração principal em um momento de lazer no sábado à noite.
Sob tal enfoque, Rosa recorda que tentava suprir a falta de convivência com os filhos proporcionando-lhes momentos de lazer, levando-os para se divertir:
Beber com meus filhos foi uma coisa muito errada que eu fiz. Beber com eles, todo mundo junto, pensava “ah, melhor estarem bebendo aqui do que no mundo para eu poder controlar”. Aí beber junto, divertir junto (Rosa, Diário de campo, 2015).
Quando questionada se arrependia de beber com os filhos, Rosa avalia:
Mulher, eu acho assim porque eles começaram a beber precocemente, entende? E eu vi assim, que graças a Deus, da bebida não partiu para outras drogas, porque poderia ter partido. Mas eu estou sempre falando que a bebida pode puxar outras coisas e que eles tenham cuidado, saibam diferenciar as coisas. Mas que se tivesse acontecido eu teria sido a maior incentivadora, não sei nem qual a palavra certa, porque foi comigo que eles aprenderam a beber (Rosa, Diário de campo, 2015).
No que se refere ao lazer, Gustavo busca passar seu tempo livre com os instrumentos que dispõe em sua residência: navegando na internet, assistindo televisão ou lendo um livro. Ele possui pouco contato com a vizinhança, devido a dinâmica da mesma e ao cuidado da sua mãe com a sua segurança, que ao sair de noite para trabalhar reforça a segurança da residência, porque mantém o filho só em casa durante toda noite.
Alda expõe a sua preocupação com a segurança do filho e confessa que liga várias vezes a noite e acessa – do local de trabalho – as câmeras de segurança da sua residência para observar o que está acontecendo. Sobre essa questão ela conclui:
Mulher, tô super preocupada com ele, porque ele fica sozinho naquela casa, só que ela é toda toda, tem o sistema de alarme e de segurança. Primeiro Deus né? Que é que guarda as coisas. E o resto, é Deus também. Tudo ligado para qualquer coisa ele me chamar, mas ele é relaxado (Alda, Diário de campo, 2015).
No que diz respeito as formas de lazer que o filho acessa, Alda se sente um pouco incomodada, pois acredita que elas atrapalham a vida social dele e dificultam que ele encontre uma namorada:
Mas o fato dele não está com meninas, com mulheres é por que ele não tem amigos de sair, de ir para um shopping, uma pelada, de sair para um parque, um negócio, academia, não vai para lugar nenhum, como ele vai se relacionar com alguém? Só sai de casa pro colégio, do colégio para casa, de casa pro colégio, do colégio para casa. Fica só na internet, escutando aquelas músicas (Alda, Diário de campo, 2015).
Alda deixa claro, inclusive para o seu filho, que gostaria que ele saísse mais de casa e iniciasse a sua vida sexual: “esse menino tem que sair mais de casa, conhecer gente, arranjar logo umas quengas” (Alda, Diário de campo, 2015). E confessa que já tentou levar o filho para acessar outras formas de lazer, para uma missa numa igreja católica, sair para comer pizza e até para o bar-boate para conhecer as meninas e iniciar a sua vida sexual:
Mulher, eu chamo ele para vim aqui, aqui tinha uma menina que via ele e ficava doida, e eu chamava ele para vim para cá e ele “Vou não! ” E a menina lá. As meninas eu levo lá em casa às vezes, elas, Viviane como é o nome daquela menina? Monique! Monique era louca por ele, levei Monique umas três ou quatro vezes lá para casa. Soltava ela lá no quarto dele, aí eu saia, inventava que estava lá por fora para ver, ele lá no computador conversando com ela, ele nada. Ai depois eu perguntava “E aí Monique? ”, “Fez nada, bem quietinho ele” e eu esperando uma atitude dele, porque ela com medo, já vivida né? Não queria atacar ele. Eu também não posso dizer “Ataca mulher ele! ” Mas na próxima eu vou dizer “Ataca mulher, ele” (Alda, Diário de campo, 2015).
Nessa circunstância, observamos que a profissão da mãe permite um acesso facilitado do adolescente a determinada forma de lazer, no caso práticas sexuais com as mulheres que atuam no bar-boate. Embora possua essa maior facilidade, Gustavo parece não demonstrar
interesse em tal acesso, o que faz aumentar a suspeita por parte da mãe da sexualidade do filho.