Em meados de 1785, encontramos documentos expedidos pelo Padre Pedro da Motta adoentado na Fazenda do seu ebenfeitor”, o Guarda-mor Manoel da Motta de Andrade, localizada em Santo Antônio do Salto Alto. De acordo com os dados da documentação para sua habilitação ao sacerdócio, podemos inferir que estivesse com aproximadamente trinta anos de idade. Nos quatro anos que sucederam a sua ordenação, o Padre Motta empreendeu-se na catequese dos indígenas nos sertões do Rio Xopotó.
Vivendo desde meados de sua infância na companhia do Guarda-mor Andrade e nos estudos de latim no arraial de Guarapiranga (durante 10 anos), seu retorno às matas sertanejas deve ter suscitado toda sorte de temores. O sertões causavam grande apreensão, sensação de perigo real ou aparente aos que nestes penetravam.349 Mesmo nascido nos sertões e conhecendo bem sua realidade, o Padre Pedro da Motta se adentraria nas matas fechadas, conviveria e seria regido pelo regime fluvial, estaria sujeito a possíveis doenças e ataques de grupos indígenas. Possivelmente o sacerdote adoeceu em decorrência de sua exposição às intempéries, aos obstáculos e trabalhos impostos pela catequização, tais como construção de capelas, suas benfeitorias, administração sacramental, ensino da doutrina e língua portuguesa.
349 Ver os temores que assolavam o cotidiano dos entrantes nos sertões em: SOUZA, Laura de Mello e. eFormas Provisórias de Existência”. In: SOUZA, Laura de Mello e.(org.) História da Vida Privada na
121
Acometido por uma moléstia, o Padre Pedro da Motta pediu a um boticário remédios para curar-se, conforme o bilhete na imagem III:350
Imagem III:
Bilhete lavrado pelo Padre Pedro da Motta ao Boticário Joaquim José Coelho (1785)
Fonte: AHMI. IPHAN. Casa do Pilar (ACP). Testamento do Pe. Pedro Motta. Códice 96, auto 1238, cartório do 2o ofício, Itatiaia, (1786), p. 14.
O sacerdote solicitou ao Licenciado Joaquim José Coelho o envio de pílulas351 para três noites e requereu continuidade na concessão destes
350 Procedemos com a transcrição literal do bilhete elaborado pelo Padre Pedro da Motta: eSr. Ldo.
Joaquim José Coelho, Em primeiro lugar hei de afirmar a vigorosa saúde de V. m ce. me mandar em
tudo como minimo servo de V. m ce. Meu senhor, quero que V. m ce. faça me m ce. de aquelas pirolas q. V.
m ce. bem sabe, e mandar pello portador desta e veja m ce. que hão de ser para tres noites e acabando ta
mando outraves para V. m ce. me fazer outras tantas hir continuando heo que se me offerece a dizer
(sic). Hoje julho de 1785. De V. mce. mto. Attencioso O Pe. Pedro da Motta”. AHMI. IPHAN. Casa do Pilar
(ACP). Testamento do Pe. Pedro Motta. Códice 96, auto 1238, cartório do 2o ofício, Itatiaia,(1786), p. 14.
122
medicamentos. Em outro papelico o Padre Motta requereu, como humilde servo, um emplasto.352
eDesejo, que v. m ce. logre fellis saúde e possa me dar
muitas ocasioens o quanto possa mostrar o quanto sou obsequioso e fiel criado”. Hoje, 23 de julho de 1785.
Sto. Anto. do Salto Alto
De V. m ce. Mto.
venerador. O Presbitero Pedro da Motta”.353
A elaboração discursiva nas notinhas encaminhadas ao boticário revela o emprego dos protocolos de petição e tratamento interpessoal da sociedade que fora denominada pela historiografia de eAntigo Regime”. Nestes bilhetes encaminhados por Motta assinalamos: o emprego recorrente do pronome de tratamento evossa mercê”; das saudações para que outrem goze de perfeita saúde; o emitente coloca-se na condição de emuito atencioso”, emuito venerador” e eobsequioso e fiel criado”; atrela-se o seu ebem estar” do solicitante à liberalidade do destinatário. Em suma, colocar-se na condição de humilde servo, demonstrar dependência a outra pessoa, situando-se em um pólo desigual, representavam mecanismos acionados para eo pedir” e para eo dar” nas relações sociais. Este esquema era conhecido e empregado pelo índio Pedro em suas vivências e
351 As pílulas eram ebolinhos na grossura de uma Avelã”, confeccionadas para a ingestão de remédios desagradáveis ao gosto. Estas poderiam ser epurgativas”, ecorroborativas” e ealterantes”. As drágeas eaphalicas” eram empregadas para os males da cabeça; as ehepáticas” para o fígado, as “artríticas” contra a gota e as eópticas” para a visão. As denominadas eagregativas”,epolychrestas”, atuavam nos males de todas as partes do corpo, pois ajustavam os ehumores viciosos para que a natureza possa
expelir facilmente”. BLUETAU, D. Rafael. Op.cit., p.507.
352 O emplasto era o medicamento de uso externo, composto por uma esubstância sólida e
glutinosa”, compunha-se de inúmeras drogas amassadas e colocadas sobre o corpo. Bluetau
argumenta que ehá emplastos de muitas matérias e muitos deles de nomes esquisitos”. Por eemplasticos” definiam-se as substâncias que euntam e tapam os ductos, vias ou poros do corpo”; compostos geralmente por raízes de eAlthea”, lírios, vários gêneros de goma, queijo, clara de ovo e outras substâncias viscosas. Ibidem, p.64.
353 Mantivemos a grafia e a disposição estrutural do bilhete. AHMI. IPHAN. Casa do Pilar (ACP). Testamento do Pe. Pedro Motta. Códice 96, auto 1238, cartório do 2o ofício, Itatiaia, (1786), p.15.
123
solidariedades. Por ocasião destas petições pagou-se por remédios a Joaquim Coelho a quantia de três oitavas e quatorze vinténs de ouro.354
Dentre os negócios travados pelo sacerdote encontramos a dívida de cinco oitavas e doze vinténs de ouro pela compra de fazenda seca ao comerciante João Pereira Gouveia355, três oitavas, três quartos e oito vinténs a Maria da Conceição por estalagem356, a quantia de três oitavas e meia e um vintém de ouro a Manoel Fernandes Sobreira pelo preço de esporas de prata.357 O reverendo devia seis oitavas e meia de ouro a Irmandade da Terra Santa.358
O testamento do Padre Pedro da Motta constitui um documento riquíssimo e de extrema importância, pois é um dos poucos grafados por um índio na sociedade mineira setecentista. Esta fonte revela aspectos da trajetória de inserção de um indígena no mundo colonial. Pablo Rodríguez analisa testamentos efetuados por indígenas em diferentes regiões da América Espanhola: México, Colômbia, Chile, Peru e Equador. O pesquisador observa que este documento possibilita o desvendar de múltiplas perspectivas para o processo vivenciado pelos indígenas em tempos de conquista. Para Rodriguez, uma das formas comuns da fonte que reúne o âmbito espiritual e material da vida dos indivíduos é o reconhecimento da proximidade da morte. Observou que somente os indivíduos que circulavam em diferentes mundos culturais realizaram os pedidos para suas últimas vontades.359
354 O testamento foi lavrado pelo Padre Pedro da Motta no dia 19 de setembro de 1785. AHMI. IPHAN. Casa do Pilar (ACP). Testamento do Pe. Pedro Motta. Códice 96, auto 1238, cartório do 2o ofício, Itatiaia, p.12
355 AHMI. IPHAN. Casa do Pilar (ACP). Testamento do Pe. Pedro Motta. Códice 96, auto 1238, cartório do 2o ofício, Itatiaia, p.9.
356 AHMI. IPHAN. Casa do Pilar (ACP). Testamento do Pe. Pedro Motta. Códice 96, auto 1238, cartório do 2o ofício, Itatiaia, p.18.
357 AHMI. IPHAN. Casa do Pilar (ACP). Testamento do Pe. Pedro Motta. Códice 96, auto 1238, cartório do 2o ofício, Itatiaia, p.20.
358 AHMI. IPHAN. Casa do Pilar (ACP). Testamento do Pe. Pedro Motta. Códice 96, auto 1238, cartório do 2o ofício, Itatiaia, p.11.
359 RODRíGUEZ, Pablo. eTestamentos de indígenas americanos (siglos XVI e XVII)”. Revista de
História. Departamento de História – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo:
Humanitas / FFLCH / USP. n.154 (1º - 2006), p.15-35. Pablo Rodríguez evidencia duas seções no fabrico do testamento indígena da América Hispânica. A primeira com disposições no tocante a fé, no qual discorria sobre devoções e traçava norteamentos para os ebens de sua alma” e sepultamento. Considera uma seção intermediária, que antevê se segunda parte, na qual o testador realiza descrição de suas relações pessoais e familiares. Esta última seção do documento constitui as considerações sobre patrimônio material do indivíduo. Ibidem, p. 19-20. Eduardo F. Paiva considera para os testamentos mineiros quatro ou cinco seções: invocação da Trindade, santos,
124
O registro dos desejos de Motta em leito de morte foi aprovado por um escrivão da vintena e dos testamentos de Santo Antônio da Itatiaia. O juiz relatou que o testador estava edoente de cama, de doença que nosso Senhor foi servido dar-lhe,
porém em seu perfeito juízo e entendimento seguindo as respostas que me deu as perguntas”. Estes argumentos do oficial vintenário asseguravam a autenticidade do
documento e a legitimidade de sua escritura.360
O Padre Motta declarou em suas últimas vontades que era efilho ilegítimo
dos índios” e dono de um escravo moleque, um cavalo e terras no Ribeirão de Nossa
Senhora da Conceição do Rio Novo. As terras em questão constituíam o seu patrimônio e garantiam-lhe sustento anual desde a sua ordenação sacerdotal. Estas posses retornaram para seu doador no legado testamentário, quando Padre Motta doou seu epatrimônio ao guarda-mor Manoel da Motta de Andrade por este me fazer
e pelos muitos gastos que fez comigo para me por no estado sacerdotal”.361 A doação do seu dote ao Guarda-mor Andrade refuta as considerações elaboradas pela tradição e historiografia acerca da ingratidão do indígena as bensses recebidas por seu ebenfeitor”.
O patrimônio do sacerdote Pedro da Motta foi requerido em título de sesmaria pelo Guarda-mor Andrade, ao Visconde de Barbacena, no ano de 1789. Inferimos que o Padre Croato não conseguiu o referido título do seu dote, possivelmente por sua equalidade indígena”. Andrade solicitou confirmação de posse das eterras de planta” que cultivava há mais de dez anos, contendo ranchos, bananeiras e árvores de espinhos.362 Por não receber o título de posse de seu patrimônio, ressaltamos as inúmeras dificuldades enfrentadas pelos índios inseridos no mundo colonial.
localização e identificação do testador e de suas relações familiares; disposições sobre legados espirituais; inventário simplificado dos bens móveis, imóveis, dívidas e créditos; e as disposições gerais com assinaturas, aprovação e abertura do lacre do testamento. PAIVA, Eduardo França.
Op.cit., 1995, p.37-38.
360 AHMI. IPHAN. Casa do Pilar (ACP). Testamento do Pe. Pedro Motta. Códice 96, auto 1238, cartório do 2o ofício, Itatiaia, (1786), p.4v- 5.
361AHMI. IPHAN. Casa do Pilar (ACP). Testamento do Pe. Pedro Motta. Códice 96, auto 1238, cartório do 2o ofício, Itatiaia, (1786), p.3-3v. [Mantivemos a grafia do documento]
362 As terras do Padre Pedro da Motta localizavam-se no Rio Novo, na freguesia de Rio Pomba, em uma área de conflito jurisdicional entre a Comarca de Vila Rica e a do Rio das Mortes, e também do termo da Vila de São José com o da cidade de Mariana. APM. SC. 256, p. 64
125
No tocante às disposições de suas exéquias, o Padre Pedro da Motta pediu que seu corpo fosse sepultado na capela ou matriz vizinha ao seu falecimento e acompanhado por cinco Padres, que rezariam missa de corpo presente, recebendo por cada atividade uma oitava de ouro. Os Padres que acompanharam seu corpo envolto em vestes sacerdotais e os que sustentaram o seu esquife empunharam velas. O Padre Croato peticionou cem missas e quarenta ofícios, recebendo de esmola meia oitava de ouro por cada ação litúrgica.
O sacerdote deixou de prêmio para seu testamenteiro vinte oitavas de ouro e argumentou: ese houver mais alguma coisa se me mandarão dizer cem missas”. Instituiu por testamenteiro – que cumpriria as disposições em prazo de um ano – o Guarda-mor Manoel da Motta de Andrade, seguido de Luís da Motta de Carvalho e Francisco de Macedo Siqueira. O terceiro indicado cumpriu com os procedimentos jurídicos do testamento. Na declaração do vigário da freguesia de Itatiaia, podemos verificar os procedimentos transcorridos com o velório e inumação do eclesiástico indígena.
eJosé de Lana Porto vigário colado da freguesia de Santo Antônio
da Itatiaia. Certifico em como o Rev. do Pe. Pedro da Motta falecido
nesta dita freguesia foi sepultado dentro da Capela de Nossa Senhora dos Prazeres, filial desta matriz, em hábito sacerdotal no dia 8 de outubro do ano de 85 acompanhado por cinco Reverendos Sacerdotes os quais todos lhe disseram missa de corpo presente e pela Irmandade dos Prazeres, e se deu cera e seguiram os sufrágios acima declarados, do que tudo resultou em despesa de vinte e oito oitavas e um quarto e dois vinténs e tudo fica pago e satisfeita; por verdade do que passei a presente de minha letra e sinal jurada in verbo sacerdotis. Itatiaia, 19 de agosto de 1786. O Vigário José de Lana Porto.”363
As despesas com o funeral perfizeram vinte e oito oitavas, um quarto e dois vinténs, contendo os pagamentos eao pároco da estola e encomendação”; eacompanhamento da missa de corpo presente”; eduas missas paroquiais”; ecertidão
de abertura do testamento e seu traslado”; ea fábrica da matriz de levar a cruz da encomendação e acompanhamento”; eornamento pertencente a Nossa Senhora dos
363 AHMI. IPHAN. Casa do Pilar (ACP). Testamento do Pe. Pedro Motta. Códice 96, auto 1238, cartório do 2o ofício, Itatiaia, (1786), p.8. [Atualizamos a grafia do documento, mas não alteramos a disposição textual]
126
Prazeres”; seis libras e meia de cera empregada no velório, cortejo e sepultamento.
Não se pagou nenhuma quantia pela sepultura.364 A soma com declarações, funeral e procedimentos judiciais totalizaram cento e vinte e sete oitavas, três quartos e dois vinténs.
Além de traçar de maneira meticulosa os cerimoniais para assegurar a salvação de sua alma, em seu testamento, o sacerdote Pedro da Motta reconheceu as amizades que travou em vida, assegurando bens para a sua madrinha de batismo e ao Capitão dos índios da nação Coroado. Na conclusão do testamento entregou-se o cavalo a Jerônimo da Silva de Carvalho e Ana Gonçalves dos Santos, moradores no Rio Xopotó, freguesia de Guarapiranga. Conforme frisa o testamento e documento de recepção do bem, esta concessão do testador foi realizada à mencionada senhora epor ser sua madrinha”.365
Relembrando sua condição indígena e suas relações de sociabilidades em atuação evangélica no edomínio dos Coroados”, Pedro da Motta declarou por eUniversal Herdeiro, o irmão Capitão Leandro”. Neste legado não só material, mas revelador de uma afinidade espiritual, o Capitão dos Coroados da Barra da Freguesia de Rio Pomba, amealhou não somente eas roupas e o mais que ficar”, mas todo o simbolismo de uma amizade e estima por parte do amigo que o considerava um irmão.366 Dos bens acumulados em vida por Pedro da Motta, quase nada restou ao seu herdeiro Coroado, após a conclusão dos procedimentos do testamento, com a inumação, as dívidas, o legado da madrinha e do Guarda-mor. O testamenteiro argumentou que sacerdote possuía um escravo, dois breviários e as roupas de seu uso, que precisavam ser vendidos para quitar as dívidas do Padre Motta.367 Neste sentido, o Capitão Leandro Francisco recebeu das mãos do testamenteiro Macedo
364 Gratificou-se a Francisco Pires da Silva por 88 missas e 18 ofícios de defunto pela alma do Reverendo. Ao Padre João Batista Teixeira quitou-se doze missas, ao Reverendo Marcus da Cunha Lima 22 eofícios de defunto cada um de nove lições e suas laudas”e concedeu pagamento ao efabriqueiro e sacristão por levar a cruz”. AHMI. IPHAN. Casa do Pilar (ACP). Testamento do Pe. Pedro Motta. Códice 96, auto 1238, cartório do 2o ofício, Itatiaia, (1786), p.9,22-24.
365 AHMI. IPHAN. Casa do Pilar (ACP). Testamento do Pe. Pedro Motta. Códice 96, auto 1238, cartório do 2o ofício, Itatiaia, (1786), p.25.
366 AHMI. IPHAN. Casa do Pilar (ACP). Testamento do Pe. Pedro Motta. Códice 96, auto 1238, cartório do 2o ofício, Itatiaia, (1786), p.3v.
367 AHMI. IPHAN. Casa do Pilar (ACP). Testamento do Pe. Pedro Motta. Códice 96, auto 1238, cartório do 2o ofício, Itatiaia, (1786), p.26. [Mantivemos a grafia do documento]
127
as roupas que perfaziam: uma casaca; uma vestia; uma calção; uma camisa; uma ceroulas; dois pares de meias; botas; um chapéu; um capote novo e chinelos. 368
Em leito de morte, avaliamos as vivências do índio sacerdote nos processos de interação e inserção no universo colonial: por meio do aprendizado da língua portuguesa e latina, pela adesão e personificação dos projetos coloniais de expansão da cristandade aos índios de sua nação. Com a trajetória de Pedro Motta, nos perguntamos sobre as fronteiras que distinguiam os indivíduos na conquista colonial. Segundo Serge Gruzinski, os contatos entre mundos culturais promoveram divergências e reestruturações contínuas nos indivíduos nestes envolvidos. Destarte, as imprevisibilidades e mobilidades destas trajetórias incitam os historiadores a se distanciarem de toda interpretação preconcebida de uma realidade histórica.369 Pelo estudo de alguns aspectos vitais de nosso personagem, enfocamos a capacidade de adaptação e transformação dos índios ao mundo colonial, e percebemos o porquê por vezes incorremos em leituras reducionistas e etnocêntricas na interpretação do passado. Estes equívocos relacionam-se ao olvidar das instabilidades e adaptações vivenciadas pelos contatos entre mundos culturais diferentes.
As múltiplas vivências nativas
A historiografia não pode desprezar os dilemas vivenciados pelos índios que se integraram e difundiram os modos de viver da cristandade, tratando-os como incapazes de viver no mundo denominado ecivilizado”. Por longo período temporal, associou-se o afastamento das atividades pastorais de Pedro da Motta ao possível abandono de seu estado sacerdotal. Projetou-se para a trajetória do sacerdote Croato a recorrente imagem da ingratidão do índio e de sua incapacidade para se inserir e sobreviver no mundo colonial. Segundo Eduardo Viveiros de Castro, por vezes os pesquisadores se colocam na perspectiva de produtores do conhecimento, conferindo aos nativos o patamar de meros objetos de estudo. Viveiros de Castro nos instiga a colocar fim nesta relação assimétrica entre o pesquisador e objeto,
368 AHMI. IPHAN. Casa do Pilar (ACP). Testamento do Pe. Pedro Motta. Códice 96, auto 1238, cartório do 2o ofício, Itatiaia, (1786), p.27.
369 GRUZINSKI, Serge. ePasser les frontières: Deplacer les frontières à México (1560-1580)”. In: LOUREIRO, Rui Manule & GRUZINSKI, Serge. (coord.). Op.cit., p. 207-227.
128
procurando entender o discurso do nativo como detentor de sentido. Em sua opinião, torna-se necessário compreender as idéias nativas. O pesquisador emprega sua cultura para a análise da história dos índios, ampliando interpretações etnocêntricas criadas pela própria ciência.370 A interpretação e experiências nativas são olvidadas nas pesquisas. Os estudiosos dos indígenas precisam observar os significados das vivências nativas. Neste sentido, devemos observar o índio como ator, não como um mero objeto. Ao analisar a trajetória de um índio assimilado ao mundo colonial, devemos problematizar que este não era oprimido pela dominação, pois conhecia e possuía plena consciência da realidade na qual se inseriu. Todavia, apontamos com o estudo da trajetória do Padre Motta elementos apriorísticos imputados a história de um índio. Recaindo sobre sua trajetória o preconceito da incapacidade do índio, sua ingratidão, insolência e erusticidade”. O Padre Pedro da Motta foi grato aos que lhe concederam benesses em vida, apropriando-se e difundindo preceitos prescritos pelos costumes da sociedade na qual se inseriu. Concluímos que o abandono das comunidades indígenas, a subjugação à cristandade, a fuga para os sertões e a oscilação entre mundos culturais diferentes não foram as únicas alternativas para os índios coloniais. Através da trajetória do Padre Pedro da Motta, evidenciamos que os indígenas obtiveram cargos administrativos, distinção social, mantiveram vínculos econômicos e sociais, redigiram seus requerimentos e delimitaram seus espaços de sociabilidades.
O índio Croato Pedro não foi somente um joguete nas mãos do Guarda-mor Andrade, que empregou sua administração para angariar dignificação social; tampouco, foi um fantoche dos interesses da Igreja e da Coroa, que ansiaram conquistar e catequizar os vales do Rio Xopotó. O eclesiástico indígena percorreu e compreendeu os meandros que estruturavam o mundo colonial, envolvendo-se nas contendas e disputas pelo poder na Freguesia de Rio Pomba. Nesta senda, as atitudes do Padre Pedro da Motta em vida e diante da morte, suas vivências e sociabilidades, demonstram o projeto do indígena em ser inserido na sociedade colonial. Com o objetivo de se desvencilhar da epecha” atribuída a sua qualidade
129
social e amealhar respeito, o índio Coroado Pedro tornou-se eclesiástico e agente nos processos de conquista e colonização encampados pelo governo metropolitano.
130 Capítulo III:
A Freguesia e as reestruturações do poder entre os índios aldeados
A instalação da Freguesia de Rio Pomba e a presença de colonizadores nas terras sertanejas, clero secular, companhias de ordenanças, juízes camarários e sesmeiros, promoveram a implantação de um aparato administrativo e normativo