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2.2 O PRINCÍPIO DA LEGALIDADE – GENÉRICO, PENAL E TRIBUTÁRIO

2.2.2 Características e Abrangência

2.2.2.3 Legalidade e Irretroatividade

Encontra-se implícito no Princípio da Legalidade que tanto a lei que institui a aplicação de pena a determinada conduta, quanto a lei que tipifica um crime ou que define ou aumenta o tributo deve pré-existir ao fato que deu origem ao ius puniendi ou à obrigação tributária. Nesse sentido, seria lógico considerarmos que não se admite a

70 Art. 153, §1º.: “ É facultado ao poder Executivo, atendidas as condições e os limites estabelecidos em lei,

alterar as alíquotas dos impostos enumerados nos incisos I, II, IV e V” ( imposto sobre a importação de produtos estrangeiros, imposto sobre a exportação de produtos nacionais ou nacionalizados, IPI, IOF)

irretroatividade da lei penal para definir crimes ou da lei tributária para criar ou aumentar tributos, pois estariam ferindo diretamente o Princípio da Legalidade. Todavia, existem casos em que a retroação é admitida, os quais de um modo geral são raros, uma vez que o Princípio da Legalidade é genérico e não só penal ou tributário, admitindo-se somente alguns casos nos quais a própria lei se reporta a fatos pretéritos, mas exclusivamente para disciplinar suas conseqüências, sem nunca estabelecer uma pena ou uma obrigação, seja ela de qualquer espécie, mesmo porque o artigo 5º, inciso XXXVI da Constituição protege o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada, e os incisos XXXIX e XL do mesmo artigo dispõe que “... não há crime, sem lei anterior que a defina, nem pena sem prévia cominação legal” e “... a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu”; além dos já citados artigos 1° e 2° do Código Penal que repetem o dispositivo constitucional, e do próprio artigo 5°, inciso II, que dispõe que “... ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”, e cuja inteligência expusemos no início deste parágrafo. Destarte, registre-se, portanto, que a lei penal somente retroagirá para beneficiar o réu, a fim de descriminalizar determinada conduta ou a ela atribuir uma penalidade mais branda, todavia, nunca para agravar seu débito social.

Não bastassem esses dispositivos acima citados pugnando pelo entendimento quanto a irretroatividade das leis, no aspecto tributário temos ainda o artigo 150, inciso III, alínea “a”, que veda expressamente a cobrança de tributos relativos a fatos jurídicos tributários ocorridos antes do início da vigência da lei que os instituiu ou aumentou. No campo tributário, entretanto, cabe uma ressalva: diversamente da esfera penal, não existe disposição genérica expressa no sentido de permitir a retroação da lei mais benigna. Com efeito admite-se a retroação das leis que tratam de minimizar as penalidades decorrentes de infrações tributárias, mas não aquelas que diminuem o aspecto quantitativo do tributo. Vale dizer também que qualquer lei supostamente “interpretativa” ou “explicativa” não poderá retroagir para instituir ou aumentar a tributação deste ou daquele fato anteriormente não perfeitamente definido por lapso do legislador, e que por essa razão não se encontrava abrangida pela lei interpretada. A lei interpretativa, como descrita no inciso I do artigo 106 do CTN, deve ser entendida como aquela que, segundo Paulo de

Barros Carvalho destina-se tão-somente ao “esclarecimento de dúvidas”72. Registre-se que, nesse mesmo sentido, também Luciano Amaro qualifica como inócua ou, caso contrário, como inovadora e nesse ultimo caso devendo subordinar-se ao Princípio da Irretroatividade73, uma vez que, para o referido jurista “... a dita lei interpretativa não consegue escapar do dilema: ou ela inova o direito anterior... ou se limita a repetir o que já dizia a lei anterior”, sendo para ele um sofisma alegar que a lei interpretativa estaria apenas dizendo como deveria ser aplicada a lei interpretada, com o que concordamos em gênero, número e grau, uma vez que, pelo Princípio da Legalidade, se a norma for vaga e não explicitar o tributo, ele não será de fato exigível, passando a sê-lo tão-somente após perfeitamente definido.

A despeito dessas considerações que fortalecem a irretroatividade ressalte-se que a lei não está proibida de reduzir ou suprimir o pagamento de tributo, desde que obedecido ao Princípio da Igualdade, como é o caso das anistias e remissões. Ao aplicador da lei, porém, sublinhe-se novamente, não cabe a faculdade de reduzir ou suprimir tributo com base em lei que não estava em vigor na época do fato, e que não preveja expressamente a retroatividade para beneficiar os fatos passados. Salientamos, porém, conforme já dissemos anteriormente, que quanto à sanção derivada de uma infração tributária, o legislador sabiamente a distinguiu da exigência de tributo, e por conseguinte, uma vez tendo caráter punitivo, subordinou-a ao princípio constitucional do inciso XL, do artigo 5º da CF/88, admitindo no caso específico das sanções que ocorresse a retroatividade da lex mitior conforme o disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” 74.

72 Segundo Luciano Amaro coadunam com esse entendimento outros juristas como Aliomar Baleeiro,

Gilberto de Canto Ulhoa, Paulo de Barros Carvalho, Adilson Rodrigues Pires, Pontes de Miranda e Roque Carraza os quais ressaltam a necessidade de cautela na classificação de uma lei como meramente interpretativa devendo a lei interpretativa não alterar o conteúdo e o alcance da lei interpretada, limitando- se tão-somente ao esclarecimento de dúvidas. Saliente-se, por oportuno, que no presente trabalho CTN é a abreviação de Código Tributário Nacional. (AMARO, Luciano. Direito Tributário Brasileiro. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 1999, p.190, notas 8 e 9)

73 AMARO, Luciano. op. cit. p.117.

74 Existe uma discussão a respeito das alíneas “a” e “b”, do inciso II, do artigo 106 do CTN, uma vez que a

alínea “b”, em conflito com a “a”, estaria excluindo do benefício da aplicação retroativa da lex mitior todos os casos em que a ação ou omissão que deixou de ser considerada infração tivesse sido cometida por meio de fraude e tivesse acarretado a falta do pagamento do tributo (“e” no sentido de conjunção coordenativa aditiva). Note-se que uma posição mais favorável ao réu poderíamos pender para considerar predominante a disposição da alínea “a”, todavia, é necessário que se analise caso a caso, uma vez que se houve comprovadamente fraude na conduta do agente, esta poderá constituir, em si, um delito a parte e autônomo,