Outra questão importante tratado neste trabalho diz respeito às referências técnicas e normativas estabelecidas no Brasil. Esses documentos são um conjunto de diretrizes e parâmetros definidos por lei que, ajustados adequadamente, objetivam formar um ambiente construído coerente, produzindo dessa forma espaços apropriados ao uso, além de garantir a segurança dos usuários e dos seus equipamentos instalados.
Para as bibliotecas universitárias são apresentadas, de forma reduzida na tabela 4, as principais normas relacionadas com o tema, contendo uma descrição do seu objetivo.
TABELA 4 – Normas relacionadas com a construção de edifício para biblioteca
Fonte: Autor (2015)
Além disso, para edificações em instituições governamentais, conforme o Art. 12º da Lei nº 8.666 de 1993, “as especificações e demais exigências do projeto básico ou executivo para contratação de obras e serviços de engenharia devem ser elaborados visando à economia da manutenção e operacionalização da edificação, a redução do consumo de energia e água, bem como a utilização de tecnologias e materiais que reduzam o impacto ambiental”, tais como:
I – uso de equipamentos de climatização mecânica, ou de novas tecnologias de resfriamento do ar, que utilizem energia elétrica, apenas em ambientes em que forem indispensáveis;
II – automação da iluminação do prédio, do projeto de iluminação, dos interruptores, da iluminação ambiental, da iluminação tarefa e do uso de sensores de presença;
III – uso exclusivo de lâmpadas fluorescentes compactas ou tubulares de alto rendimento e de luminárias eficientes;
IV – energia solar, ou outra energia limpa para aquecimento de água;
V – sistema de medição individualizado de consumo de água e energia;
VI – sistema de reuso de água e de tratamento de efluentes gerados;
VII – aproveitamento da água da chuva, agregando ao sistema hidráulico elementos que possibilitem a captação, o transporte, o armazenamento e seu aproveitamento;
VIII – utilização de materiais que sejam reciclados, reutilizados e biodegradáveis, e que reduzam a necessidade de manutenção;
IX – comprovação da origem da madeira a ser utilizada na execução da obra ou serviço.
O governo federal publicou, em 19 de janeiro de 2010, a Instrução Normativa (IN) nº 01 para adoção de critérios de sustentabilidade ambiental, na qual se consideram os processos de extração ou fabricação, na utilização e descarte dos produtos e matérias-primas, na contratação de serviços e obras por parte dos órgãos e entidades da administração pública federal direta, autárquica e fundacional. A instrução normativa, além de entrar no mérito da sustentabilidade dos projetos e materiais empregados na edificação, também dá ênfase à mão de obra empregada na construção como também na destinação final do resíduo gerado.
§ 1º Deve ser priorizado o emprego de mão de obra, materiais, tecnologias e matérias-primas de origem local para execução, conservação e operação das obras públicas.
§ 2º O Projeto de Gerenciamento de Resíduo de Construção Civil - PGRCC, nas condições determinadas pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente – CONAMA, através da Resolução nº 307, de 5 de julho de 2002, deverá ser estruturado em conformidade com o modelo especificado pelos órgãos competentes.
Sem prejuízo das demais exigências contratuais, os órgãos e entidades da administração pública federal poderão exigir os seguintes critérios de sustentabilidade ambiental, conforme os seguintes incisos do art. 5º da Instrução Normativa 01:
I – que os bens sejam constituídos, no todo ou em parte, por material reciclado, atóxico, biodegradável, conforme ABNT NBR – 15448-1 e 15448-2;
II – que sejam observados os requisitos ambientais para a obtenção de certificação do Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial – INMETRO como produtos sustentáveis ou de menor impacto ambiental em relação aos seus similares;
III – que os bens devam ser preferencialmente, acondicionados em embalagem individual adequada, com o menor volume possível, que utilize materiais recicláveis, de forma a garantir a máxima proteção durante o transporte e o armazenamento;
IV – que os bens não contenham substâncias perigosas em concentração acima da recomendada na diretiva RoHS (Restriction of Certain Hazardous Substances), tais como mercúrio (Hg), chumbo (Pb), cromo hexavalente (Cr(VI)), cádmio (Cd), bifenil-polibromados (PBBs), éteres difenil- polibromados (PBDEs).”
Nesse contexto, como consequência da crise energética de 2001, surgiram estudos objetivando a criação de critérios de eficiência energética para melhor qualificar uma edificação, e então foi sancionada a Lei de Eficiência Energética Nº. 10.295, de 17 de outubro de 2001. Esta lei dispõe sobre a Política Nacional de Conservação e Uso Racional de Energia, posteriormente deferida no Decreto 4.059 em dezembro de 2001. No sentido de criar um sistema com procedimentos adequados às edificações, em outubro de 2003, foi lançado o PROCEL Edifica, por meio do Plano de Ação para Eficiência Energética em Edificações (OLIVEIRA; SIMÃO, 2014).
Além disso, o governo federal publicou em 04 de junho de 2014 a Instrução Normativa nº 02, a qual dispõe sobre regras para aquisição ou locação de máquinas e aparelhos consumidores de energia, e uso da Etiqueta Nacional de Conservação de Energia (ENCE) nos projetos e respectivas edificações públicas federais novas ou que recebam retrofit. Onde no artigo 5° do capítulo III: “Os projetos de edificações
públicas federais novas devem ser desenvolvidos ou contratados visando, obrigatoriamente, à obtenção da ENCE Geral de Projeto classe "A" do PBE-Edifica”.
Como pode ser visto, todas essas recomendações demandam alterações no design das atuais e futuras bibliotecas e, pelo menos por força das leis, devemos procurar construir, ou adaptar, nossas bibliotecas de forma que elas sejam mais inclusivas e proporcionem ambientes seguros e saudáveis.
3 PRINCÍPIOS DE SUSTENTABILIDADE EM BIBLIOTECAS
A Biblioteca Central da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) vem promovendo alterações em sua estrutura, e implantou um programa de sustentabilidade com a denominação de SustentaBiB – na livre interpretação dos 3Ps da Sustentabilidade: people, planet e profit6. A unidade tornou-se um espaço que privilegia o estudo compartilhado, o acesso aos conteúdos digitais e a integração em tempo real com atividades dos anfiteatros interativos. São utilizadas na biblioteca, também, outras atitudes e iniciativas, como o acesso cada vez maior às revistas online e a impressão obrigatória frente e verso das teses e dissertações da universidade (CRESTANA Et al., 2013).
Em seguida, conforme descrito na introdução deste trabalho, identificaram-se concepções arquitetônicas e princípios de sustentabilidade aplicados em edifícios de bibliotecas. Foi realizada uma pesquisa utilizando o site ArchDaily, conforme a Figura 2, em que foram selecionadas dez referências consideradas relevantes apresentadas a seguir.
FIGURA 2 – Sistema de busca do site Archdaily Fonte: ARCHDAILY (2015)
Pode-se considerar que os exemplos analisados se enquadram entre as tendências de edifícios para bibliotecas, que estejam preocupadas em trabalhar a favor da realidade em que se inserem e com o compromisso de serem coerentes em seus contextos. Portanto, convém indicar os principais critérios utilizados para a seleção dessas bibliotecas no contexto deste trabalho: projetos com certificação ambiental; projetos de bibliotecas implantadas em universidades; e projetos com expressão arquitetônica relevante e reconhecida.
6
Foram estabelecidas três frentes de atuação, a fim de contemplar tanto a área física e de equipamentos, como a de recursos e da qualidade de vida no trabalho, denominadas: Controle e economia de materiais. Reciclagem e monitoramento de resíduos e qualidade de vida. Não havendo propósitos lucrativos nas atividades da Biblioteca, o aspecto do lucro ficou convertido na busca de melhoria da qualidade de vida dos seus e funcionários, bem como na oferta de ambiente propício ao estudo e acesso à informação para os usuários (CRESTANA Et al., 2013).