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2.5 EMPREGADAS DOMÉSTICAS NO BRASIL

2.5.5 Ações e políticas públicas direcionadas aos empregados domésticos no Brasil

2.5.5.4 O Legislativo e a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 478, de 2010

O legislativo, assim como outros órgãos, pouco tem atuado em relação à categoria dos trabalhadores domésticos, por isso são poucas as modificações na legislação. A Lei nº 5.859, que dispõe sobre a profissão só foi elaborada em 1972, ou seja, após mais de três décadas do surgimento das primeiras associações de trabalhadoras e, ainda assim, estabeleceu apenas “férias anuais de 20 dias úteis; anotação de CTPS; e seguro obrigatório da previdência social. O Decreto nº 95.247, de 17 de novembro de 1987, determina o direito ao vale- transporte” (BRASIL, 2011, p. 9).

Como vimos anteriormente, a constituição de 1988 dedicou no parágrafo único do art. 7º os direitos da categoria, sendo diferenciados dos demais trabalhadores.

A Lei nº 10.208, de 23 de março de 2001, acresce dispositivos à Lei nº 5.859, de 1972, para facultar o acesso ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço – FGTS e ao seguro- desemprego. Já a Lei nº 11.324, de 2006, altera artigos da Lei nº 5.859, de 1972, e estabelece:

descanso remunerado em feriados; 30 dias corridos de férias; e estabilidade à gestante, vedando o desconto por fornecimento de alimentação, vestuário, higiene ou moradia.

Porém, a mais recente e mais importante medida do Legislativo referente à categoria dos trabalhadores domésticos é a PEC nº 478, de 2010, do deputado Carlos Bezerra (PMDB-MT), aprovada em Março de 2013. Esta PEC teve como objetivo revogar “o parágrafo único do art. 7º da Constituição Federal, para estabelecer a igualdade de direitos trabalhistas entre os empregados domésticos e os demais trabalhadores urbanos e rurais” (BRASIL, 2010, p. 1).

No texto da PEC 478 fica claro que esta norma jurídica busca estabelecer um tratamento isonômico entre trabalhadores domésticos, urbanos e rurais, através da qual se ampliam os direitos da categoria, dentre eles, “o acesso ao FGTS, ao seguro desemprego, ao pagamento de horas extras e ao benefício previdenciário por acidente de trabalho, prerrogativas que estavam excluídas do rol dos direitos a eles assegurados no parágrafo único do art. 7º da Constituição Federal” (BRASIL, 2010, p. 2).

A PEC 478 foi aprovada não sem resistências e atropelos. Segundo o documento da PEC, desde 2008 um grupo multidisciplinar formado por órgãos do Poder Executivo estava responsável por esta proposta, porém os trabalhos foram interrompidos e inconclusos. A principal dificuldade encontrada pelos técnicos responsáveis pela proposta foi que, segundo eles, haveria um aumento significativo dos encargos financeiros para os empregados domésticos (BRASIL, 2010).

A esse respeito, a presidente do Sindicato dos Empregadores Domésticos do Estado de São Paulo (SEDESP), elaborou uma Carta Aberta de Alerta ao Congresso Nacional sobre a PEC 478/10, no qual demonstra a inviabilidade do Projeto de Lei. Segundo a carta, o gasto com a empregada doméstica seria elevado a tal ponto que resultaria na extinção da figura do empregador doméstico e, obviamente, a da empregada doméstica.

Como justificativa para a proposta, o relator da PEC cita no texto que,

equalizar o tratamento jurídico entre os empregados domésticos e os demais trabalhadores elevará os encargos sociais e trabalhistas. Todavia, o sistema hoje em vigor, que permite a existência de trabalhadores de segunda categoria, é uma verdadeira nódoa na Constituição democrática de 1988 e deve ser extinto, pois não há justificativa ética para que possamos conviver por mais tempo com essa iniquidade (BRASIL, 2010, p. 2).

Além disso, o texto cita a exclusão dos empregados domésticos da totalidade dos direitos inerentes aos trabalhadores de outras categorias presente na Constituição Federal de 1988. Segundo a proposta, esta “limitação dos direitos dos empregados domésticos, permitida

pelo já citado parágrafo único do art. 7º, é uma excrescência e deve ser extirpada” (BRASIL, 2010, p. 2).

Assim, com a proposta de igualar os direitos dos trabalhadores domésticos aos demais trabalhadores, surge o embate entre os dois lados, de um lado, os empregadores, que afirmam não ter condições de arcar com os novos gastos trabalhistas; de outro, os empregados domésticos, que defendem há muito tempo a igualdade de direitos.

No dia 26/03/2013 a PEC nº 478 de 2010, que ficou conhecida como a PEC das Domésticas, foi aprovada, em segundo turno, pelo plenário do Senado Federal. Em seguida, no dia 02/04/2013 foi aprovada a Emenda Constitucional nº 72, que regula os novos direitos dos empregados domésticos no Brasil. Alguns dos direitos foram automaticamente regulamentados e, por esse motivo, entraram em vigor imediatamente incorporando-se àqueles que já existiam.

Segundo a cartilha elaborada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (2013), os direitos garantidos pela Emenda com vigência imediata, constantes do artigo 7º da Constituição Federal, são:

i) salário mínimo; ii) irredutibilidade de salário; iii) garantia de salário, nunca inferior ao mínimo, para os que percebem remuneração variável; iv) décimo terceiro salário; v) proteção do salário na forma da lei; vi) duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias e 44 horas semanais, facultada a compensação de horários e a redução da jornada, mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho; vi) repouso semanal remunerado, preferencialmente aos domingos; vii) remuneração do serviço extraordinário superior, no mínimo, em cinquenta por cento à do normal; viii) gozo de férias anuais remuneradas com, pelo menos, um terço a mais do que o salário normal; ix) licença à gestante, sem prejuízo de emprego e do salário, com a duração de cento e vinte dias; x) licença paternidade; xi) aviso prévio proporcional ao tempo de serviço, sendo no mínimo de trinta dias; xii) redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde, higiene e segurança; xiii) aposentadoria; xiv) reconhecimento das convenções e acordos coletivos de trabalho; xv) proibição de diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor, ou estado civil; xvi) proibição de qualquer discriminação no tocante a salário e critérios de admissão do trabalhador portador de deficiência; xvii) proibição de trabalho noturno, perigoso ou insalubre a menores de dezoito anos.

Outros direitos só foram regulamentados posteriormente, no dia 06/06/2013, depois de aprovação no Congresso. Dentre eles estão: seguro-desemprego, indenização por demissões sem justa causa, conta no FGTS, salário-família, adicional noturno, auxílio-creche e seguro contra acidente de trabalho (NÉRI, 2013).

Dentre as principais conquistas obtidas com a aprovação da Emenda Constitucional e a regulamentação dos novos direitos dos empregados domésticos, estão a obrigatoriedade do pagamento do FGTS, a regulamentação da jornada de trabalho, o

pagamento de horas extras, o seguro desemprego e o seguro contra acidente de trabalho, pois esses direitos podem amenizar a difícil situação a qual a categoria enfrenta ao longo dos tempos.

Quanto ao recolhimento do FGTS, Néri (2013) afirma que a nova regulamentação obriga os empregadores a pagar mensalmente o FGTS dos trabalhadores no valor de 11,2% total do salário, sendo 3,2% para garantir a indenização em caso de demissão sem justa causa, e o restante (8%) equivale ao mesmo percentual pago sobre o salário bruto dos demais trabalhadores. A obrigatoriedade do pagamento do FTGS é importante por garantir indenização aos trabalhadores demitidos sem justa causa, proporcionando, de certa forma, uma proteção social antes inexistente.

Da mesma forma, a regulamentação da jornada de trabalho e o pagamento de horas extras é outra grande conquista, uma vez que deve senão acabar, limitar o abuso dos patrões no que se refere às longas jornadas de trabalho, algo que sempre existiu nessa categoria. O regulamento prevê o pagamento de um valor de no mínimo 50% maior que a hora normal para as horas extras trabalhadas.

O seguro desemprego é de suma importância para qualquer trabalhador, pois ele garante uma remuneração durante o período no qual o trabalhador está desempregado e em busca de outro emprego. Para a categoria dos empregados domésticos isso é fundamental uma vez que essa categoria apresenta um alto índice de rotatividade de empregos, como mostrado anteriormente.

Como foi mostrado, essa nova legislação não busca nada mais que atender a uma antiga reivindicação da categoria – direitos iguais aos demais trabalhadores –, e que apesar de enfrentar resistência por parte de empregadores, pode trazer benefícios para os trabalhadores domésticos. Resta saber se os direitos adquiridos se concretizarão de fato e se trarão efetivas melhorias nas condições de trabalho e de vida dos empregados domésticos.

3 METODOLOGIA DE PESQUISA