2. ANÁLISE DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL COMO INSTRUMENTO
2.2. Lei complementar como instrumento introdutório de normas gerais em matéria de
A vigência ou a entrada em vigor de uma norma pressupõe a sua existência prévia que ocorre depois de cumprido o seu processo de formação e com a publicação ou comunicação ao povo.
39 Segunda Turma do Superior Tribunal de Justiça RESP – 4310/PR, Publicado no DJ de 09/10/1990, pg.:10888,
Relator Ministro Luiz Vicente Cernicchiaro: TRIBUTARIO. CODIGO TRIBUTARIO NACIONAL. O CODIGO TRIBUTARIO NACIONAL CONSTITUI O DIREITO TRIBUTARIO FUNDAMENTAL. ENCERRA PRINCIPIOS E NORMAS GERAIS DESSE SETOR DOGMATICO. O RESTANTE DA LEGISLAÇÃO RESPECTIVA, SALVO ALTERAÇÃO POR LEI DE IGUAL HIERARQUIA, A ELE SE ADAPTA.
A existência e a entrada em vigor da norma jurídica pode ser simultânea ou em alguns casos pode ocorrer em momento de tempo posterior.
Assim, a vigência é tida para a dogmática jurídica como o início ou o tempo de validade da norma jurídica, ou seja, o momento a partir do qual ela passa a regular os comportamentos dos indivíduos, prescrevendo a suas condutas, em um determinado ordenamento jurídico.
Após a entrada em vigor da norma ela incidirá e será aplicada. Segundo Pontes de Miranda (2000, pp. 59-60), incidência e aplicação da lei não se confundem, a primeira ocorre sempre que o suporte fático previsto na norma em abstrato (hipótese de incidência) ocorre concretamente no mundo fenomênico (fato jurídico), e a aplicação ocorre quando a norma jurídica é eficaz para produzir efeitos jurídicos.
Desta forma, o conceito de eficácia e aplicação no tocante à produção de efeitos jurídicos se confunde, assim pode-se dizer que eficácia jurídica é a qualidade da norma capaz de produzir efeitos jurídicos.
José Afonso da Silva (2004, p.86) ao tratar do problema da eficácia e da aplicação das normas constitucionais classificou-as como normas constitucionais de eficácia plena e de aplicabilidade direta, imediata e integral, eficácia contida e aplicabilidade direta e imediata, mas possivelmente não integral, e normas de eficácia limitada, que se dividem em: declaratórias de princípios institutivos ou organizativos e as declaratórias de princípio programático.
Para produzirem efeitos jurídicos as normas constitucionais40, notadamente as normas constitucionais de eficácia limitada e eficácia contida, necessitam de integração, de complementação, através de veículos introdutores de normas, como a lei, o Decreto, as resoluções.
40 Mesmo a norma constitucional que já tem eficácia para ser aplicada no mundo jurídico podem eventualmente,
É neste sentido que a doutrina passou a estabelecer o conceito de lei complementar em sentido amplo, que é toda aquela que complementa uma norma constitucional lhes dando eficácia jurídica, ou desenvolvendo os seus princípios.
Estas leis se dividiriam em leis complementares fundamentais, voltadas para as competências e procedimentos das atividades políticas do Estado e a disciplina da Federação; as leis complementares orgânicas, que são as que tratam de questões relativas às instituições constitucionais; e as leis complementares comuns, que regulam dispositivos constitucionais não inseridos nos dois conceitos anteriores (JOSÉ AFONSO DA SILVA, 2004, pp. 228-230).
Em seu sentido restrito, que é o que nos interessa, a lei complementar é vista no aspecto material como: ...leis integrativas de normas constitucionais de eficácia limitada, contendo
princípio institutivo ou de criação de órgãos e sujeitas à aprovação pela maioria absoluta dos membros das duas Casas do Congresso Nacional (Idem, p. 244). E complementa Souto
Maior Borges (1975, p. 35): Há leis complementares que podem ser aprovadas em
decorrência de normas constitucionais de eficácia contida (ex., arts. 19, III, c e 24, II da Emenda Constitucional n. 1, de 1969).
A lei complementar no Brasil foi instituída dentro do processo legislativo através da Emenda Constitucional nº 4 à Constituição de 1946 em seu art. 22 caracterizada pela exigência de aprovação do voto da maioria absoluta do Deputados e Senadores nas duas casas do Congresso Nacional, tendo sido classificado por Miguel Reale como um: tertium genus de
leis, que não ostentam a rigidez dos preceitos constitucionais, nem tampouco devem comportar a revogação (perda de vigência) por força de qualquer lei ordinária superveniente
A lei complementar brasileira tem origem na loi organique prescrita na norma do art. 46 da Constituição Francesa de 195841, pois institui no ordenamento positivo francês um tipo de
norma que ocupa na hierarquia um lugar intermediário entre a Constituição e as leis ordinárias e se caracteriza por ter um processo legislativo de elaboração mais solene do que o exigido para elaboração das leis ordinárias (Idem, p. 237).
No aspecto formal ou jurídico-positivo a lei complementar é o veículo introdutor de normas aprovado por maioria absoluta dos membros do Congresso Nacional (art. 69, da CF/88).
No aspecto formal a lei complementar pode ser classificada em dois grupos, as que fundamentam a validade de outros atos normativos e as que não fundamentam a validade de outros atos normativos, influindo este aspecto na sua posição hierárquica em relação aos demais atos normativos.
Na Constituição Federal de 1988 a lei complementar em sentido restrito é utilizada apenas nas normas constitucionais que as prevêem expressamente. Assim, não existe um critério jurídico para utilização deste veículo normativo, trata-se de opção de política legislativa.
No Direito tributário o conceito formal de lei complementar passou a ser utilizado na Constituição de 1967 e continuou na Constituição de 1988, onde deve ser aplicada, entre outros, nos arts. 146, 146-A, 148, 154, I, 155 § 1º, III, 155, § 2º, XII, 156, III.
41 Article 46 : Les lois auxquelles la Constitution confère le caractère de lois organiques sont votées et modifiées
dans les conditions suivantes.
Le projet ou la proposition n'est soumis à la délibération et au vote de la première assemblée saisie qu'à l'expiration d'un délai de quinze jours après son dépôt.
La procédure de l'article 45 est applicable. Toutefois, faute d'accord entre les deux assemblées, le texte ne peut être adopté par l'Assemblée Nationale en dernière lecture qu'à la majorité absolue de ses membres.
Les lois organiques relatives au Sénat doivent être votées dans les mêmes termes par les deux assemblées. Les lois organiques ne peuvent être promulguées qu'après la déclaration par le Conseil Constitutionnel de leur conformité à la Constitution.
A Constituição Federal de 1988 optou por continuar, conforme se depreende do art. 146, III, letras “a”, “b”, “c” e “d”, mantendo a lei complementar como veículo introdutor de normas gerais em matéria de legislação tributária.
Esta opção como já dito é meramente de política legislativa já que existem outras normas gerais, previstas na Constituição Federal de 1988, e que naturalmente devem ter características nacionais, vinculando todos os Membros da Federação42, que não necessitam de ser introduzidas no ordenamento jurídico nacional através de lei complementar.
2.3. O falso problema da hierarquia da lei complementar no ordenamento jurídico