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2. POLÍTICAS DE EDUCAÇÃO ESPECIAL PÓS 1990

2.1. Globalização, Neoliberalismo e Políticas Educacionais

2.1.4. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996

Inspirada nos princípios democráticos dos direitos sociais, defendidos na Constituição Federal de 1988, na Conferência Mundial de Educação para Todos e na Declaração de Salamanca, a Lei N.º 9.394/96 significou o resultado de debates sobre a necessidade de instauração e consolidação de uma política de inclusão. No entender de Ferreira (1998, p. 7), o fato de a LDB “reservar um capítulo exclusivo para a

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Educação Especial, parece relevante para uma área tão pouco contemplada, historicamente, no conjunto das políticas públicas brasileiras”.

O quinto capítulo da LDB (artigos 58, 59 e 60) é emblemático em apontar as perspectivas para a Educação Especial. Por esta razão, far-se-á a seguir, um exame dos pontos chave do capítulo que trata da Educação Especial a fim de produzir uma reflexão crítica deste texto legal e a sua relação com o projeto neoliberal.

A LDB entende a Educação Especial como uma modalidade da educação escolar situada preferencialmente na rede regular de ensino, e determina a prestação de apoio especializado quando necessário.26

O indicativo “preferencialmente” inserido na LDB causa controvérsias. Na visão de Minto (2000, p. 20) “pode ser o termo-chave para o não cumprimento do artigo, pois quem “dá primazia” já tem a exceção arbitrada legalmente”. Em outras palavras, o termo sugere a possibilidade de este atendimento acontecer não necessariamente nas classes comuns do sistema regular de ensino, deixando uma lacuna que oportuniza a efetivação deste atendimento em outras esferas do sistema educacional, por esta razão a lei ainda prevê o recurso a classes, escolas ou serviços especializados sempre que a integração nas classes comuns de ensino regular não for possível.

Merece destaque a palavra “preferencialmente” pelo fato de este termo permitir pelo menos duas interpretações. Segundo Aranha:

O termo “preferencial” provocou grandes polêmicas, já que uns entenderam sua utilização como elemento que propiciava a manutenção de espaços de segregação, enquanto que outros defendiam a manutenção de espaços especiais para o atendimento de alunos com comprometimento severos (ARANHA, 2004a, p. 43).

O Plano Nacional de Educação de 2001 ao fazer análise da legislação esclarece que a lei “é sábia em determinar preferência para essa modalidade de atendimento educacional” (BRASIL, 1994) tendo em vista que permite três situações

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para a organização do atendimento do aluno com deficiência, podendo este ocorrer tanto em classes comuns, quanto em sala de recursos e em escolas especiais.

Pela indefinição traduzida no texto da LDB e, considerando que o escrito legalístico não é um elemento neutro, pode-se questionar, portanto, se o uso do termo “preferencialmente” não representa uma maneira de o Estado não se comprometer completamente com a educação dos indivíduos com deficiência, permitindo uma abertura à iniciativa privada.

Outro ponto importante a considerar nesta legislação é o que trata o artigo 60:

Os órgãos normativos dos sistemas de ensino estabelecerão critérios de caracterização das instituições privadas sem fins lucrativos, especializadas e com atuação exclusiva em educação especial, para fins de apoio técnico e financeiro pelo poder público (BRASIL, 1996, p. 45).

Conforme visto, a assertiva que consta neste artigo indica a destinação de recursos públicos às instituições privadas, cuja forma de subvenção já recebia respaldo pelo artigo 213 da Constituição Federal27. Sob o discurso fundado na participação coletiva e envolvimento da sociedade civil como um meio de transformar o cenário social, esta estratégia pode ser entendida como mais uma forma de o Estado compartilhar com outras instâncias suas responsabilidades com a educação. Tal perspectiva de atuação limitada do Estado parece contribuir para o crescimento do Terceiro Setor, que passa a abarcar parte dos recursos governamentais com a tarefa de executar políticas públicas.

Já se sabe que a desresponsabilização e redução da atuação do Estado e a emergência da sociedade civil são características dos postulados neoliberais. A concepção neoliberal apregoa que o Estado, assim como está constituído, não

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Os recursos públicos serão destinados às escolas públicas, podendo ser dirigidos a escolas comunitárias, confessionais ou filantrópicas, definidas em lei, que:

I - comprovem finalidade não-lucrativa e apliquem seus excedentes financeiros em educação;

II - assegurem a destinação de seu patrimônio a outra escola comunitária, filantrópica ou confessional, ou ao Poder Público, no caso de encerramento de suas atividades.

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preenche os requisitos necessários para prover sozinho as demandas sociais. Assim sendo, é preciso que o Estado divida suas responsabilidades com outros setores, como o mercado e a sociedade civil. Esta última que se convencionou chamar de Terceiro Setor, antes vista como palco de lutas políticas e empenhos hegemônicos, posteriormente passou a determinar-se como um recurso gerencial, um arranjo societal destinado a viabilizar tipos específicos de políticas públicas (NOGUEIRA, 2003).

Para o que interessa a essa pesquisa, traz-se a contribuição de Romero que afirma:

O atendimento especializado destinado às pessoas com necessidades especiais tem sido, em parte, viabilizado pelas instituições beneficentes ou filantrópicas, sem fins lucrativos, que prestam, entre outros tipos de atendimento, o educacional (ROMERO, 2006, p. 128-129)

Para Kassar, “na difusão do pensamento neoliberal, torna-se comum a valorização de ações filantrópicas, na cobrança da parceria com a sociedade civil” (1999, p.42). Ainda segundo a autora, tais “parcerias” entre os serviços públicos e privados, entram em pauta em razão do discurso a favor do recuo do Estado, discurso que também procura legitimar-se na valorização das ações de caráter privado, sejam elas de natureza filantrópica ou lucrativa.

Nesta dualidade público-privado, fica evidenciada a deserção do Estado. Conforme expõe Aguilar, o Estado desertor pode ser verificado através desta dualidade

[...] principalmente porque o espaço público como um valor que caracteriza a democracia, adquire uma significação carregada que, progressivamente, vai sendo menor à medida que o Estado vai se fazendo mínimo e retirando-se dos setores sociais essenciais (AGUILAR, 2000, p. 47).

A qualidade de desertar, conforme Aguilar (2000) esclarece, não significa necessariamente a privatização do bem público, mas a omissão de algo que deveria ser feito pelo Estado, provocando a degradação do público. É nesse sentido que a relação entre Estado e organizações sociais tende a adquirir um status, de tal forma que a

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posição assumida por tais organizações é reafirmada no momento da implementação das políticas educacionais para a área.

Tem-se, portanto, ao revisar a história da Educação Especial no Brasil, que apesar dos avanços em termos de concepção do indivíduo com deficiência e da mudança de percepção em relação ao lugar que estes deveriam ocupar na educação, que o Poder Público nunca assumiu definitivamente a educação destes como sua responsabilidade, uma vez que suas propostas sempre estiveram atreladas a entidades caritativas ou filantrópicas, caracterizando-se pelo fenômeno da parceria.