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inclusão

Por isso, o Kirchnerismo, como expressão política deste processo, aparecia como confl ituoso: os grandes meios de comunicação produziram um deslocamento pelo qual o confl ito interior e natural do processo se adjudicava a um dos atores que intervinha. Quer dizer, ao Kirchneris- mo. Mesmo assim, o confl ito era entre dois setores: os que não queriam abandonar espaços anexados durante o neoliberalismo e que expressavam uma ordem que tinha entrado defi nitivamente em crise em 2001 e os que, com a fi gura do Estado revalorizada, tentavam recuperar es- paços que tinham perdido nos anos noventa. Os grandes meios concentrados formavam parte dessa velha ordem

em caída e funcionavam como sua retaguarda simbólica. Por isso, se encarregavam de consolidar um processo no qual enquanto mais avançava o Estado, mais era deslegi- timado. O avanço político, então, corria o risco de se trans- formar em retrocesso simbólico. A intervenção do Estado era impugnada, combatida e deslegitimada. O ponto mais alto deste processo se produziu com a polêmica em torno à aplicação de retenções móbiles para os produtos agrá- rios exportáveis. Tinha uma velha ordem em crise, impo- tente para se relegitimar, porém com alta capacidade de deslegitimar a nova ordem emergente. Essa velha ordem contava com o oligopólio do uso da palavra. A nova ordem emergente, em troca, estava recluída no silêncio ou rele- gada ao mínimo controle da edição de seus discursos. Os novos atores que regressavam à esfera pública não con- tavam com meios de expressão. Paradoxalmente, o que os grandes meios concentrados defi niam como liberdade de expressão era, na prática, a liberdade de continuar pro- nunciando um discurso único. O discurso dos anos 90, o da crise, o da ordem sem legitimidade. Pelo que, a lei de Serviços de Comunicação Audiovisual, foi um efeito natural da reorganização política, social e econômica da Argentina após a crise de 2001. Há um paralelismo evidente entre as políticas de ampliação de direitos de setores socialmente desprotegidos, minorias sexuais, culturas indígenas, etc., e a abertura de novos e diver- sos canais de comunicação.

- Como contribui esta nova lei à “inclusão social” na Ar- gentina? E que pontos da mesma, por suas característi- cas inovadoras e inclusivas, lhe interessaria destacar?

A lei de Serviços de Comunicação Audiovisual é uma lei de proteção do espaço e da dinâmica democrática da Argentina. Primeiro, porque defi ne com muita precisão a designação democrática, e não por pressão corporativa, das frequências para os meios. Segundo, porque a de- signação de frequências está regida pelos critérios de plu- ralismo e diversidade. De tal modo que, os novos meios, nascem como uma contribuição direta ao processo de am- pliação e diversifi cação democrática. Terceiro, porque os meios deixam de serem espaços com poucos controles sociais e institucionais: se criam a Comissão Bicameral de Promoção e Seguimento da Comunicação Audiovisual e a Defensoria do Público, entre outros institutos, para seguir as políticas públicas e os processos administrativos que se executam em torno aos processos de comunicação. Quarto, porque a lei estabelece claramente três setores na titularidade de direitos de frequências: o setor privado comercial, o setor estatal e o setor social ou comunitário. Deste modo, abre as portas para a geração de redes de meios vinculados diretamente a interesses sociais especí- fi cos. Quinto, porque a lei estabelece cotas de produção nacional e local, que varia segundo tipo de meios, mas que, em geral, amplia o espaço para a indústria audiovi- sual e para a produção e o trabalho argentino. O mesmo sucede com a produção cinematográfi ca nacional ao esta- belecer a lei cotas de tela de cinema e artes audiovisuais para os licenciados de televisão. Pelo qual, os níveis de inclusão se verifi cam em vários níveis – sociais-comunitá- rios, industriais, produtivos em geral, do mundo do traba- lho, etc.

- Que características no processo de criação desta lei você considera prioritário ressaltar? Características que contribuam com um valor agregado ao processo.

Uma lei de meios da democracia – em oposição à ante- rior originada na insana ditadura iniciada em 1976 – devia nascer de um processo intensivamente democrático. Por isso, o projeto de lei foi discutido em uma grande quan- tidade de foros em todo o país. Em universidades, com organizações sociais e técnicas, com diversos setores políticos, gremiais e empresariais. O projeto chega ao Es- tado impulsionado pela Coligação dos 21 pontos por uma Radiodifusão Democrática integrada por uma longa e re- presentativa lista de organizações sociais, culturais e gre- miais. A Presidenta Cristina Fernández de Kirchner pega essas propostas e uma equipe conduzida pelo Interventor do Cómfer, Gabriel Mariotto, redige um projeto que retorna à sociedade para ser discutido nestes foros. Portanto, o projeto nasce na sociedade civil, é tomado pelo Estado, este o devolve à sociedade para que esta o discuta e o enriqueça e, fi nalmente, é enviado ao Parlamento para que os distintos partidos com representação parlamentar voltem a discutir-la e enriquecer-la. Só um processo de- mocrático dessa extensão e profundidade podia contra-ar- restar a imensa pressão política e simbólica das grandes multimídias que se opunham ao projeto. O processo de aprovação da lei foi um exemplo de como os proces- sos democráticos podem isolar às corporações eco- nômicas, por mais poderosas que sejam. A política, expressada como argumento democrático, se impulso ao lobby corporativo.

- Qual é o contexto latino-americano em relação à ne- cessidade de renovar leis de meios de comunicação? E que bons exemplos identifi ca no nível regional, além do argentino?

O processo Argentino é bastante similar ao que se observa na maioria dos países latino-americanos. Em Equador, México, Bolívia, Paraguai, Brasil, Uruguai, en- tre outros países do continente, se discutem novas leis de meios de comunicação, de digitalização ou se impul- sionam debates que se relacionam com a necessidade democrática de ampliar espaços de expressão e de parti- cipação. A denominada lei Resorte na Venezuela é uma experiência sumamente interessante. Também o são as experiências de discussão da Le na Bolívia e no Equador.

- Que impedimentos se apresentam na atualidade para a concretização da Lei na Argentina?

Os primeiros impedimentos surgem nas táticas de repressão da lei impulsionadas pelas grandes multimí- dias. Apresentaram, em distintas regiões do país, medi- das cautelares e dinamizaram diversas intervenções na Justiça para impedir, retrasar ou impedir a aplicação da lei. Inclusive tiveram êxito em reduzir as cláusulas de de- sinvestimento, pelas quais as multimídias que são adjudi- catárias de maior quantidade de licenças das quais a lei permite devem se desprende de algumas ou varias delas. Por outro lado, a lei impõe a criação de novas instituições de regulação e controle com a intervenção de múltiplos atores sociais, políticos e estatais. Este processo não é só um processo técnico: pelo contrário, é uma evolução intensivamente política na qual as grandes multimídias e atores políticos sem projeto próprio se juntam para tentar parar ou bloquear. Portanto, a criação destas novas ins- tituições requer da permanente construção e mobilização de velhas e novas forças para que atuem como apoio do processo de mudança.

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• A cara da murga. Desfi le de carnaval em Montevidéu / Fotografi a de Pablo Oxley/ Uruguai

Lei de meios na Argentina

ENTREVISTA: Pedro Lanteri

/ Diretor da rádio das Mães da Praça de Maio na Argentina e Coordena dor da Comissão de Comunicação do Conselho Consultivo da Socieda

de Civil da Chancelaria Argentina.

Desde a perspectiva da sociedade civil, Pe-