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LEI DE PATENTES E O ACESSO À BIODIVERSIDADE

3 INSTRUMENTOS DE PROTEÇÃO JURÍDICA DO ACESSO À

3.4 LEI DE PATENTES E O ACESSO À BIODIVERSIDADE

Como dito em diversas oportunidades, o meio ambiente adquiriu relevância patrimonial expressiva nas últimas décadas. A discussão acerca da comercialização do patrimônio genético brasileiro veio legalmente à tona através da chamada Lei de Patentes (Lei n° 9.279 de 14 de maio de 1996), pela qual os produtos, da forma como existem na natureza, não são patenteáveis. Contudo, a engenharia genética

tem conseguido sintetizar produtos recombinantes praticamente idênticos ou muito semelhantes aos existentes na natureza, dando margem a discussão quanto à possibilidade de patenteamento, como bem salienta Marcelo Dias Varella179.

O patenteamento implica em aquisição de propriedade intelectual e confere ao seu titular direitos patrimoniais sobre a invenção, tais como proibição da reprodução da matéria viva, autorização para o desenvolvimento de pesquisas, concessão para venda de sementes e o recebimento de royaltes a cada operação comercial.

Este trabalho dedicou um tópico inteiro à biopirataria, devido ao estrondoso crescimento de sua prática e à sua importância sócio-econômica que tal atividade ilícita percute. Muitos afirmam que a principal saída para o fim deste disparate é a aplicação do sistema de patentes, inclusive sobre recursos naturais. A pergunta que se faz, portanto, é: A patente da biodiversidade é a melhor solução para o combate à biopirataria? Não é nisso que a atual legislação brasileira acredita.

Juridicamente, no Brasil, pode-se patentear tanto o produto final como o processo de obtenção do mesmo. Quando se chega a um novo produto, por exemplo farmacêutico, pede-se não somente uma, mas diversas patentes, envolvendo todos os processos conhecidos para chegar-se àquele produto, abrangendo uma grande amplitude de direitos.

Marcelo Dias Varella lembra que é comum que um mesmo titular obtenha o patenteamento de todos os processos conhecidos para se chegar a determinado produto final, instituindo monopólio contrário aos interesses sociais180.

A oposição do Brasil em relação à patente de recursos naturais junto à comunidade internacional não é unânime nos fóruns de discussões nacionais. Em 29/03/2005, o Deputado Antonio Carlos Mendes Thames, do PSDB de São Paulo, apresentou um Projeto de Lei nº. 4.961 propondo alteração da Lei de patentes. No PL o deputado propõe que as substâncias ou materiais extraídos de seres vivos naturais e materiais biológicos serão considerados invenção ou modelo de utilidade, podendo ser patenteados181.

179

VARELLA, Marcelo Dias. Propriedade intelectual de setores emergentes. São Paulo: Atlas, 1996. p. 165

180

VARELLA, Marcelo Dias. Op. Cit. P. 147-148. 181

Informação retirada do site oficial da Câmara dos Deputados. Disponível em: http://www2.camara.gov.br/proposicoes/chamadaExterna.html?link=http://www.camara.gov.br/sileg/pr op_detalhe.asp?id=279651. Acesso em 25 nov. 2006.

O relator do aludido Projeto, deputado Jorge Pinheiro, usou do bom senso e justificou a rejeição da proposta afirmando ser a proposição contrária à regulamentação do inciso II do § 1° do art. 225 da Constituição, à Convenção sobre Diversidade Biológica, à recomendação da ABPI e à condição de invenção imprescindível ao registro de qualquer patente.

Como principais conseqüências socio-econômicas da possibilidade de patenteamento de produtos farmacêuticos, pode-se citar o aumento de preços ao consumidor, a diminuição do consumo e do bem-estar dos consumidores, a transferência de divisas ao exterior, gasto adicional do setor público e o custo fiscal da assistência. Como aspectos positivos pode-se imaginar a abertura dos processos de fabricação, que possibilita a absorção de novas tecnologias, sem os pesados investimentos na pesquisa. Mas, na verdade, a Lei de Patentes é capaz de produzir reserva de mercado para as empresas multinacionais, acentuando a oligopolização internacional do mercado brasileiro, com indesejável concentração do poder decisório sobre a população nacional, no que se refere ao acesso aos medicamentos.182

O autor Marcelo Dias Varella também comenta este episódio da seguinte forma:

As patentes nesse setor geram fortes conseqüências sobre a economia dos países, para uns positivas, para outros negativas ao desenvolvimento científico e tecnológico. Seus efeitos atingem a população como um todo, uma vez que os produtos farmacêuticos fazem parte do que chamamos de produtos de consumo inelásticos, ou seja, a população tem que comprá-los, mesmo a preços mais elevados, pois são indispensáveis à manutenção da vida, à própria existência humana. Em um país como o Brasil, de dimensões continentais e com um dos maiores índices populacionais do planeta, onde a pobreza e o conseqüente grande número de doenças assolam milhões de pessoas diariamente, o desenvolvimento deste setor atinge prioridade impar, situando-se lado a lado com os problemas mais importantes da nossa nação183.

A polêmica acerca do tema toma maiores proporções quando se fala em reconhecimento da propriedade intelectual sobre recursos genéticos nas legislações estrangeiras. É que a proibição de patenteamento do produto natural não se dá em

182

VARELLA, Marcelo Dias; FONTES, Eliana; ROCHA, Fernando A. Nogueira Galvão da. Biossegurança e biodiversidade: contexto cientifico e regulamentar. Belo Horizonte: Del Rey, 1999, p.44

183

VARELLA, Marcelo Dias. Propriedade intelectual de setores emergentes. São Paulo: Atlas, 1996. p. 143-144

todos os países do mundo. Nos Estados Unidos e em alguns países da Europa, por exemplo, é autorizado o pedido de patente da diversidade biológica em seu estado

in natura, o que causa uma série de discussões.

Essa situação se contradiz com a história da humanidade. Há menos de um século, algumas das empresas transnacionais que hoje existem de biotecnologia lutavam contra aqueles que se posicionavam contra a concessão de monopólios por meio de patentes. Hoje, como dito, essas mesmas empresas pressionam seus Estados para elaborarem legislações que fortaleçam o sistema de patentes, “qualificando a inexistência de propriedade intelectual como uma barreira não alfandegária, ao mesmo tempo em que desfraldam agressivamente a bandeira livre do comércio”184.

Entre os produtos genuinamente brasileiros patenteados por estrangeiros se destaca o cupuaçu. A Embrapa descobriu que as amêndoas (caroços) se transformam em um chocolate fino, mas a patente da fruta já pertence a uma empresa japonesa. Outro fruto, muito comum no Acre, é o açaí, que era exportado pelo Brasil para todo o mundo, mas os Estados Unidos já patentearam três métodos de extrair o suco desse fruto185.

A copaíba, que é uma árvore gigante típica da Amazônia e fornece um líquido oleoso de alto valor farmacêutico – usado como antiinflamatório e analgésico caseiros – teve sua patente concedida para os norte-americanos. Da mesma forma, a árvore da andiroba, que também produz um óleo de alto valor farmacêutico, foi patenteada pelos Estados Unidos para ser comercializada no mundo todo186.

A acerola é outro fruto genuinamente brasileiro, que tem 100 vezes mais vitamina C do que uma laranja, mas já teve sua patente registrada no Japão. O pau- rosa, outra árvore amazônica e brasileira, produz uma substância que é excelente fixador de perfumes, mas ela foi patenteada pela França desde 1920 para produzir o Chanel número 5, considerado o perfume mais glamoroso do mundo187.

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) produziu, em 1988, relatório demonstrando que a maioria das patentes de propriedade de estrangeiro

184

GRAF, Ana Cláudia Bento. Direito, Estado e Economia Globalizada: as patentes de biotecnologia

e o risco de privatização da biodiversidade. São Paulo: Revista dos Tribunais, n. 18, p. 158, abr./jun.

2000. 185

AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DA AMAZÔNIA. O mundo patenteia a biodiversidade. Brasília. 2006. 186

Ibidem. 187

nos países latino-americanos nunca é utilizada ali, servindo apenas para assegurar e monopolizar o fluxo de importações.188

O relacionamento entre os direitos de propriedade intelectual e a Convenção sobre Diversidade Biológica deve ser analisado para que se possa concluir pela possibilidade ou não do patenteamento de recursos naturais. Como visto, a CDB é a principal norma internacional que trata do acesso e da conservação da biodiversidade. Portanto, sua análise à luz do instituto de patentes é essencial neste momento. Os artigos 15 e 8(j) da CDB são os que fundamentam o assunto: enquanto o primeiro trata do poder soberano dos Estados perante sua diversidade biológica e a autorização de acesso sobre a mesma, o segundo exige que as parte devem respeitar, preservar e manter o conhecimento, inovações e práticas das comunidades locais e populações indígenas com estilo de vida tradicionais relevantes à conservação e à utilização sustentável da diversidade biológica e incentivar sua mais ampla aplicação com a aprovação e a participação dos detentores desse conhecimento, inovações e práticas; e encorajar a repartição eqüitativa dos benefícios oriundos da utilização desse conhecimento, inovações e práticas.

A repartição eqüitativa dos benefícios retro citada se materializa, dentre outras coisas, também nos royalties advindos da patente. Outro dispositivo interessante da Convenção é o artigo 16, que trata da transferência de tecnologia, objeto muitas vezes do pedido de patentes. O artigo 16.5 é um pouco mais polêmico: exige que as partes cooperem para assegurar que as patentes e outros direitos de propriedade intelectual dêem apoio e não se oponham aos objetivos da CDB. A questão é: atualmente os Direitos de Propriedade Intelectual conflitam com os propósitos da Convenção sobre Diversidade Biológica?

Para responder tal assertiva é relevante traçar uma linha divisória entre a possibilidade de patenteamento de recursos naturais e produtos finais e processos para sua obtenção. A questão da possibilidade de concessão de patentes da biodiversidade in natura será abordada no próximo tópico. Adianta-se que o melhor entendimento conclui pela impossibilidade desse tipo de patente. Contudo, não há obstáculo moral, político, econômico, legal e social algum para a concessão do

188

HOBBELINK, Henk. Patenteamento da vida. Textos para debate n. 18, AS-PTA – Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa, Rio de Janeiro: Desktop, 1991. p. 02.

pedido de patentes do produto final advindo da biodiversidade, assim como de seu processo de obtenção.

A CDB, assim como o Brasil, entende que havendo os requisitos para a concessão de patentes do atual sistema do acordo TRIPS, principalmente a “invenção”, não há o que se discutir. O direito de propriedade intelectual, neste caso, é legítimo e para garantir que os benefícios do acesso atingirão os países provedores da matéria-prima (biodiversidade), conforme objetiva a CDB, é necessário criar um esquema de declaração do Estado de origem. Dessa forma, todos estariam se beneficiando (nos mais diversos sentidos da palavra e não apenas no significado econômico) da patente concedida.

Em linhas pretéritas, restou claro o fato de que o desenvolvimento social, biotecnológico e econômico dos países provedores dos recursos naturais está intimamente ligado à justa e eqüitativa distribuição dos benefícios do acesso – neste caso advindos da concessão do pedido de patente de um produto final elaborado através da biodiversidade.

Assim sendo, a patente é vista como uma solução para o alcance dos objetivos da CDB quando se trata de processo inventivo e produto final.

Convém esclarecer que os modelos contemporâneos de sistema de patentes referem-se a compostos bioquímicos, recursos genéticos e formas de vida advindas da invenção. O acordo TRIPS (acordo internacional que regula aspectos relacionados à Propriedade Intelectual, no âmbito do comércio internacional) requer que os membros da OMC permitam que as patentes estejam disponíveis para quaisquer invenções, seja de produtos ou de processos, em todos os campos da tecnologia, desde que sejam novas, envolvam um passo inventivo e sejam passíveis de aplicação industrial.

Atualmente, membros da OMC devem providenciar proteção para microorganismos, processos não biológicos, processos microbiológicos e variedades de plantas (por um sistema de direitos de propriedade intelectual que pode ser uma patente, uma alternativa especial ou uma combinação das duas). Em contrapartida, os mesmos membros podem excluir a proteção de patente de plantas, animais e processos biológicos exclusivos para a produção de plantas e animais. É o que se extrai do art. 27.3 (b) do acordo TRIPS.

Por outro lado, foi dito que os Estados Unidos não se satisfizeram com a cobertura dos direitos de propriedade intelectual dada pela CDB, razão de sua negativa de ratificação da aludida convenção.

Outro problema detectado é a extensão da aplicação da CDB. Ora, mais do que se avaliar se trata de norma coerente com a realidade das propriedades intelectuais tem-se que garantir que o melhor regime de patentes, no que tange à biodiversidade, atingirá a todos, indistintamente. Não faz sentido se orgulhar de um sistema que protegerá apenas parte da diversidade biológica, pois isso não garantirá a perpetuação da vida no planeta.

Destaca-se que TRIPS é a norma internacional que o Brasil aderiu e está obrigado a cumprir, uma vez ter sido aprovado e seu texto promulgado internamente, conforme o Decreto nº. 1.355, de 30 de dezembro de 1994. Somente as exceções à patenteabilidade reconhecidas no TRIPS podem ser recebidas na legislação doméstica.

Por fim, salienta-se que a discussão da possibilidade de patenteamento de produtos naturais à luz da CDB será objeto de estudo no último capítulo deste trabalho.

4 ESTUDO DA APLICAÇÃO DA LEGISLAÇÃO ACERCA DO ACESSO À BIODIVERSIDADE NO TERRITÓRIO BRASILEIRO

O presente capítulo tem o intuito de trazer à baila a atual situação da aplicação da Medida Provisória nº. 2.186-16/2001 no que tange principalmente à exigência do Certificado de Procedência Legal para a liberação de patente, visto que isto está intrinsecamente vinculado à repartição justa e eqüitativa de benefícios oriundos do acesso à biodiversidade.

Foi demonstrada a imensurável riqueza que o território brasileiro possui em seu solo, subsolo, enfim, na sua diversidade biológica.

Também restou caracterizado que há anos o tema do acesso à biodiversidade vem sendo cada vez mais discutido nos palcos internacionais, tornando-se hoje um dos problemas prioritários mundiais a ser resolvido.

O mundo todo está voltado para as atitudes dos países ricos em matéria prima natural, a fim de verificar se os mesmos permanecerão cedendo às pressões dos países detentores da biotecnologia no que diz respeito às legislações brandas sobre o tema e principalmente nos sistemas de fiscalização das mesmas.

Acerca da regulamentação brasileira, é um absurdo verificar que ainda não há lei que abarca a questão do acesso à biodiversidade e, principalmente, sobre a repartição de benefícios oriundos do mesmo. De fato, o que há é uma Medida Provisória editada em 1991, envolta a inúmeras impropriedades e, inclusive, inconstitucionalidades. Apesar disso, não se pode negar que se na prática se

verificasse a sua satisfatória aplicação a diversidade biológica brasileira estaria medianamente resguardada.

Em momento algum, está-se aqui defendendo a idéia de que referida MP está apta a proteger com excelência os nossos recursos naturais, pois como se verá mais adiante, alterações relevantes ainda devem ser feitas para se chegar a esta afirmação. Porém, quando se verifica a realidade da biodiversidade brasileira e a coloca à sombra da Medida Provisória 2.186-13/91, conclui-se que o maior problema está na aplicação da norma, pois ao contrário, o país ainda encontraria dificuldades em proteger sua biodiversidade, mas estaria longe do caos que hoje se encontra.

Criticar e culpar o legislador pela “qualidade” da norma existente seria o caminho mais fácil para qualquer estudioso do tema, mas isso não resolveria nada e esta não é a intenção do presente trabalho.

De nada adianta criticar e indicar uma nova legislação se a atual, menos complexa que a que se pretende ter, não funciona, ou seja, não é aplicada pelos principais interessados: os cidadãos brasileiros e os órgãos e representantes dos Estados nacional e internacional.

Dessa forma, antes de propor alterações normativas, importante se faz demonstrar onde estão as principais inadequações na aplicação da MP em foco. É o que se pretende fazer nesta oportunidade através, principalmente, das informações oficiais publicadas pelo Instituto Socioambiental em março de 2006189. Ressalta-se que este foi o último estudo de casos oficial elaborado e publicado até o presente momento.

4.1 INFORMAÇÕES GERAIS: ESTUDO DE CASOS REALIZADO PELO INSTITUTO