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2. SISTEMAS NORMATIVOS DOS BIOCOMBUSTÍVEIS

3.9 LEI N.º 13.576, DE 26 DE DEZEMBRO DE 2017

Sobre o prisma de que o novo marco legislativo é uma “solução”454 para estimular o mercado, bem como garantir a eficiência e competitividade dos biocombustíveis, foi sancionada a Lei 13.576/2017, que cria a Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), no dia 27 de dezembro de 2017.

O referido marco regulatório busca a eficiência energética e ambiental, com uma política a longo prazo, buscando avanço tecnológico e a expansão da produção dos biocombustíveis, não só do etanol e do biodiesel, como também incentivar a matriz energética, o biogás, o biometano, o bioquerosene de aviação e novos biocombustíveis, líquidos, gasosos ou sólidos, presentes e futuros, todos contemplados na Lei n.º 13.576/2017.

É, na teoria, uma nova política pública, que pela primeira vez objetiva uma dicotomia dos combustíveis fósseis com objetivos e estratégias específicas para os biocombustíveis na matriz energética brasileira.

Como já salientado anteriormente nesta pesquisa, apesar de ser um grande produtor de biocombustíveis, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, gerando 27 bilhões de litros de etanol e 4,2 bilhões de litros de biodiesel em 2017, “o Brasil nunca possuiu uma política específica para todos os biocombustíveis, de forma conjunta. Tampouco foram criadas as bases para o desenvolvimento sustentado dessa atividade, com previsibilidade para os agentes públicos e privados”455.

453 BRASIL. Planalto. CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL DE 1988. Disponível em: << http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm >>. Acesso em: 03/08/2017.

454 Palavras do Relator do projeto de lei o Senador Fernando Bezerra Coelho. BRASIL. Senado Federal. PLC nº 160, de 2017. Parecer do Senador Bezerra Coelho. Disponível em: <<http://legis.senado.leg.br/sdleg- getter/documento?dm=7329218&disposition=inline>>.Acesso em 19/01/2017.

455 BRASIL. Senado Federal. PLC n.º 160, de 2017. Parecer do Senador Bezerra Coelho. Disponível em: <<http://legis.senado.leg.br/sdleg-getter/documento?dm=7329218&disposition=inline>>.Acesso em 19/01/2017.

Os objetivos da Lei, são os mesmos objetivos do RenovaBio, conforme se nota na leitura do art. 1º:

Art. 1º Fica instituída a Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), parte integrante da política energética nacional de que trata o art. 1º da Lei n.º 9.478, de 6 de agosto de 1997, com os seguintes objetivos:

I - contribuir para o atendimento aos compromissos do País no âmbito do Acordo de Paris sob a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima;

II - contribuir com a adequada relação de eficiência energética e de redução de emissões de gases causadores do efeito estufa na produção, na comercialização e no uso de biocombustíveis, inclusive com mecanismos de avaliação de ciclo de vida;

III - promover a adequada expansão da produção e do uso de biocombustíveis na matriz energética nacional, com ênfase na regularidade do abastecimento de combustíveis; e IV - contribuir com previsibilidade para a participação competitiva dos diversos biocombustíveis no mercado nacional de combustíveis.456

Os fundamentos do projeto têm como base a contribuição dos biocombustíveis para a segurança do abastecimento nacional de combustíveis, da preservação ambiental e para a promoção do desenvolvimento e da inclusão econômica e social; a promoção da livre concorrência no mercado de biocombustíveis; a importância da agregação de valor à biomassa brasileira; e o papel estratégico dos biocombustíveis na matriz energética nacional457.

Tanto os objetivos, quanto os fundamentos são genéricos, mas representam um marco significativo na política energética nacional, pois toda legislação, nasce de princípios e fundamentos que dão todo o norte para a interpretação das leis, bem como para a sua aplicação, cabendo claro a todos, dimensionar e cobrar sua efetividade.

A nova Política, doravante chamada de RenovaBio, estabeleu em seu marco regulatório ações, atividades, projetos e programas, com objetivo de viabilizar a oferta de energia sustentável, fundamentado em seis princípios:

Art. 3º A Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), composta por ações, atividades, projetos e programas, deverá viabilizar oferta de energia cada vez mais sustentável, competitiva e segura, observados os seguintes princípios:

I - previsibilidade para a participação dos biocombustíveis, com ênfase na sustentabilidade da indústria de biocombustíveis e na segurança do abastecimento;

II - proteção dos interesses do consumidor quanto a preço, qualidade e oferta de produtos; III - eficácia dos biocombustíveis em contribuir para a mitigação efetiva de emissões de gases causadores do efeito estufa e de poluentes locais;

IV - potencial de contribuição do mercado de biocombustíveis para a geração de emprego e de renda e para o desenvolvimento regional, bem como para a promoção de cadeias de valor relacionadas à bioeconomia sustentável;

V - avanço da eficiência energética, com o uso de biocombustíveis em veículos, em máquinas e em equipamentos; e

456 BRASIL. Planalto. CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL DE 1988. Disponível em: << http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm >>. Acesso em: 03/08/2017. 457Ibidem.

VI - impulso ao desenvolvimento tecnológico e à inovação, visando a consolidar a base tecnológica, a aumentar a competitividade dos biocombustíveis na matriz energética nacional e a acelerar o desenvolvimento e a inserção comercial de biocombustíveis avançados e de novos biocombustíveis.458

Todos esses princípios, em especial o do inciso V e VI, dependerão de incentivo e investimento em pesquisas, em especial em programas como o de Pós-Graduação em Biocombustíveis da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri e da Universidade Federal de Uberlândia, a fim de alcançar novos caminhos para desenvolver uma Matriz Energética sustentável, garantindo uma melhor qualidade de vida a todos.

Os instrumentos do RenovaBio, foram estabelecidos na nova legislação em seu art. 4º, assim dispostos:

Art. 4º São instrumentos da Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), entre outros:

I - as metas de redução de emissões de gases causadores do efeito estufa na matriz de combustíveis de que trata o Capítulo III desta Lei;

II - os Créditos de Descarbonização de que trata o Capítulo V desta Lei; III - a Certificação de Biocombustíveis de que trata o Capítulo VI desta Lei; IV - as adições compulsórias de biocombustíveis aos combustíveis fósseis; V - os incentivos fiscais, financeiros e creditícios; e

VI - as ações no âmbito do Acordo de Paris sob a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima.

Parágrafo único. Os instrumentos previstos neste artigo, em relação às metas de redução das emissões mencionadas no inciso II do caput do art. 1º desta Lei, guardarão compatibilidade com as metas previstas para os demais setores459.

Os instrumentos assim dispostos neste marco regulatório possibilitam o uso dos biocombustíveis como fonte alternativa ao petróleo, pois definem estratégia a longo prazo, para garantir a efetividade do RenovaBio, entretanto dependem de regulamentação do mercado, por exemplo, a certificação de intensidade de carbono dos combustíveis, com base na compra de Certificado da Produção Eficiente de Biocombustíveis (CBios) de usinas de etanol e plantas de biodiesel.

Essa regulamentação deve ser criteriosa, determinando especificamente como será feita a verificação e monitoramento da certificação, caso contrário será um mecanismo de fraude460 e corrupção461 no CBios. Partindo desse pressuposto, é necessário observar que,

458 BRASIL. Planalto. CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL DE 1988. Disponível em: << http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm >>. Acesso em: 03/08/2017.

459 Ibidem.

460“Processo de enriquecimento privado por burla de normas públicas ou privadas, sem participação da parte prejudicada. Na fraude, o agente é sempre um cidadão privado”. Disponível em:<< https://www.transparencia.org.br/docs/kroll-final.pdf>>. Acesso em 23/01/2018.

infelizmente, “a cobrança de propinas é tida como muito ou um tanto frequente em quase todas os serviços públicos”462. Nesses casos, a solução são os mecanismos de “fiscalização e punição de administradores corruptos, seguida por punição dos empresários corruptores”463.

A Legislação do RenovaBio estabeleceu metas de redução de emissões na Matriz Energética ao longo do tempo, para um período mínimo de dez anos. Tais definições também serão regulamentadas (art. 6º, Lei 13.576/2017), as metas compulsórias anuais serão desdobradas, para cada ano corrente com metas individuais proporcionais à sua participação no mercado de combustíveis fósseis (art. 7º, Lei 13.576/2017).

Todas as metas serão públicas por meio eletrônico (§1º do art. 7º, Lei 13.576/2017) e, em caso de descumprimento das metas individuais, o distribuidor de combustível estará sujeito à multa proporcional à quantidade de Crédito de Descarbonização que deixou de ser comprovada (art. 9º, Lei 13.576/2017)., variando de R$ 100.000,00 (cem mil reais) e (50.000.000,00 (cinquenta milhões de reais) conforme parágrafo único do art. 9º, Lei 13.576/2017.

Enfim, a Lei é um marco significativo para o programa RenovaBio, bem como para a efetiva participação dos biocombustíveis na Matriz Energética nacional, com segurança jurídica para os investidores, pois, como já discutido, o grande problema enfrentado ao longo da pesquisa, principalmente nos dados do PNE 2030, é a questão mercadológica, em que os biocombustíveis são basicamente commodities, uma solução para mitigar significativamente a crescente crise energética (e econômica) provocada pelo possível aumento brutal do petróleo.

A lei dependerá de regulamentações, as quais deverão buscar amenizar os problemas nos processos administrativos no Brasil, como a burocracia e a corrupção, mas desde já a Lei estabelece para a Matriz Energética uma política específica ao setor e um novo olhar para os biocombustíveis, valorizando novos recursos energéticos, inspecionando o desenvolvimento tecnológico e a inovação, reconhecendo o papel estratégico dos biocombustíveis.

Este trabalho pede vênia para encerrar com uma citação, que consagra tudo o que deveria ser dito, pois não existem palavras para substituir os princípios 1, 2 e 3 da Declaração de Estocolmo:

461 “processo em que um administrador público aufere vantagens ou rendimentos indevidos aproveitando-se de sua posição. A corrupção sempre envolve um administrador público e um coparticipante privado (empresa ou indivíduo).” Disponível em:<< https://www.transparencia.org.br/docs/kroll-final.pdf>>. Acesso em 23/01/2018. 462 Disponível em:<< https://www.transparencia.org.br/docs/kroll-final.pdf>>. Acesso em 23/01/2018.

1. O homem é ao mesmo tempo obra e construtor do meio ambiente que o cerca, o qual lhe dá sustento material e lhe oferece oportunidade para desenvolver-se intelectual, moral, social e espiritualmente. Em larga e tortuosa evolução da raça humana neste planeta chegou-se a uma etapa em que, graças à rápida aceleração da ciência e da tecnologia, o homem adquiriu o poder de transformar, de inúmeras maneiras e em uma escala sem precedentes, tudo que o cerca. Os dois aspectos do meio ambiente humano, o natural e o artificial, são essenciais para o bem-estar do homem e para o gozo dos direitos humanos fundamentais, inclusive o direito à vida mesma.

2. A proteção e o melhoramento do meio ambiente humano é uma questão fundamental que afeta o bem-estar dos povos e o desenvolvimento econômico do mundo inteiro, um desejo urgente dos povos de todo o mundo e um dever de todos os governos.

3. O homem deve fazer constante avaliação de sua experiência e continuar descobrindo, inventando, criando e progredindo. Hoje em dia, a capacidade do homem de transformar o que o cerca, utilizada com discernimento, pode levar a todos os povos os benefícios do desenvolvimento e oferecer-lhes a oportunidade de enobrecer sua existência. Aplicado errônea e imprudentemente, o mesmo poder pode causar danos incalculáveis ao ser humano e a seu meio ambiente. Em nosso redor vemos multiplicar-se as provas do dano causado pelo homem em muitas regiões da terra, níveis perigosos de poluição da água, do ar, da terra e dos seres vivos; grandes transtornos de equilíbrio ecológico da biosfera; destruição e esgotamento de recursos insubstituíveis e graves deficiências, nocivas para a saúde física, mental e social do homem, no meio ambiente por ele criado, especialmente naquele em que vive e trabalha..464

464 Declaração da Conferência de ONU no Ambiente Humano, Estocolmo, 5-16 de junho de 1972. Disponível em: << http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Declaracao%20de%20Estocolmo%201972.pdf >>. Acesso em: 03/08/2017.