3. FINANCIAMENTO DE CAMPANHA ELEITORAL
4.2 Reforma Política de 2017
4.2.3 Lei n° 13.488/2017
O projeto de Lei da Câmara n° 110 de 2017 que deu origem a lei n° 13.488/2017 trazia em sua redação final dispositivos que limitavam o autofinanciamento de campanha e a doação de pessoas físicas. No entanto, tais dispositivos que trariam um maior equilíbrio as disputas eleitorais não conseguiram entrar em vigência por conta de não aprovação e veto respectivamente.
O PLC n° 110 estabelecia limites para o autofinanciamento do candidato em seu art. 9° (Capítulo II Disposições Transitórias). O limite proposto para os cargos de deputado federal, estadual e distrital era de até 7% do montante do limite de gastos. No caso dos candidatos a cargos majoritários o limite para utilização de recursos próprios era de R$ 200.000,00 (duzentos mil reais).
A imposição de limites no poder de autofinanciamento dos candidatos traria um maior equilíbrio entre os mesmos, haja vista que o acesso demasiadamente desigual aos recursos financeiros provoca serias distorções na competição eleitoral, portanto o autofinanciamento deve ter limitações de forma a evitar as mencionadas distorções. Lamentavelmente, o Senado Federal excluiu o dispositivo que trazia os limites ao autofinanciamento.
Outro artigo excluído pelos senadores foi o art. 10 que permitia o desconto de 90% do valor das multas eleitorais aos partidos políticos, pessoas físicas ou jurídicas devedoras, caso o pagamento fosse realizado à vista. A retirada desse dispositivo da reforma política que dava uma espécie de perdão das multas eleitorais foi bastante coerente tendo em vista o retrocesso que tal situação traria ao sistema eleitoral.
O pedido de impugnação dos artigos 9° e 10 do projeto de lei foi realizado pelo Senado no requerimento de n° 866 de 2017 sob a justificativa que os dispositivos que dispõem sobre anistia de pessoas físicas ou jurídicas devem
ser considerados estranhos a matéria. Quanto ao conteúdo do art. 9° (limite de autofinanciamento) nada foi mencionado no requerimento parecendo até mesmo que este artigo também tratava da anistia de multas.
A Lei n° 13.488/2017 previa a uma alteração no limite de doações das pessoas físicas para o financiamento de campanha dispondo que além do limite de 10% dos rendimentos brutos auferidos pelo doador no ano anterior à eleição deveria ser obedecido também outro teto que seria de dez salários mínimos.
No entanto, tal dispositivo foi vetado pelo presidente. Dessa forma, o critério para o limite das doações de pessoas físicas continua sendo a declaração do imposto de renda.
A exclusão dessa regra da reforma eleitoral resultou na perda de oportunidade de minimizar dois problemas enfrentados pelo nosso sistema, os quais seriam o da concentração das fontes dos recursos e o desequilíbrio entre os cidadãos do ponto de vista da influência no pleito eleitoral através das doações.
Com a adoção do novo limite de doação das pessoas, os partidos teriam que buscar convencer um maior número de eleitores a realizarem pequenas doações, causando uma maior proximidade entre candidatos e eleitores.
O art. 11 (Capítulo III, Disposições Finais) da Lei n° 13.488/2017 revogava expressamente o §1°-A do art. 23 da Lei n° 9.504/97 que trata do limite de autofinanciamento de campanha, assim foi gerada uma controvérsia acerca da possibilidade de extinção do autofinanciamento.
Diante dessa situação, o art. 11 também foi alvo de veto presidencial, assim o autofinaciamento dos candidatos continua sendo possível e deverá obedecer aos novos limites de gastos para o cargo ao qual concorre. Esses gastos foram modificados pela lei n° 13.488/2017 e podem variar entre 1 milhão de reais, no caso de campanha para Deputado Estadual e Distrital, e 70 milhões de reais, na campanha para o cargo de Presidente.
A Lei n° 13.488/2017 diminuiu a multa referente a doações de pessoas que ultrapassem o limite estabelecido, antes a multa sujeitava o infrator ao pagamento de cinco a dez vezes da quantia em excesso, hoje a valor da multa é equivalente, apenas, até 100% da quantia doada em excesso.
Foram incluídos dois novos meios pelos quais as doações podem ser realizadas. O primeiro trata das instituições responsáveis por financiamento coletivo e o segundo envolve a comercialização de bens e serviços, ou promoção de eventos de arrecadação realizados pelo candidato ou partido (art. 23, §4°, IV e V da lei n° 9.504/97).
Incluiu, também, nos gastos eleitorais os custos com impulsionamento de conteúdos contratados diretamente com provedor da aplicação de internet com sede e foro no País. Além disso, considerou que a priorização paga de conteúdos resultantes de aplicação de busca na internet é uma das formas de impulsionamento.
A Lei n° 13.488/2017, também, estabeleceu exceções aos itens considerados gastos eleitorais, de modo que, não são mais considerados gastos eleitorais e nem estão sujeitos a prestação de contas quatro despesas de natureza pessoal do candidato, quais sejam:
combustível e manutenção de veículo automotor usado pelo candidato na campanha;
remuneração, alimentação e hospedagem do condutor do veículo usado pelo candidato;
alimentação e hospedagem própria;
o uso de até três linhas telefônicas registradas em seu nome como pessoa física.
A cessão de automóvel de propriedade do candidato, do cônjuge e de seus parentes até o terceiro grau para seu uso pessoal durante a campanha foi dispensada da prestação de contas (art. 28, §6°, III da lei 9.504/97).
Houve modificação na disposição que assegura a participação de candidatos nos debates no rádio e na televisão. Anteriormente era assegurada a participação de candidatos dos partidos com representação superior a nove deputados, hoje se exige a participação de partidos com representação de no mínimo cinco parlamentares (art. 46 da lei 9.504/97).
O período de propaganda eleitoral referente ao segundo turno que antes ocorria das 48 horas depois do resultado do primeiro turno até a antevéspera, passou a ter início na sexta-feira seguinte a realização do primeiro turno, ou seja, foram reduzidos dois dias. Além disso, os blocos diários que eram de vinte minutos tiveram seu tempo reduzido para dez.
A inserções de trinta e sessenta segundos no segundo turno que também foram alteradas, sendo reservado 25 minutos diários por cada cargo em disputa. Antes eram reservados setenta minutos diários a serem usados a critério do partido ou coligação.
4.2.3.1 Regulamentação do FEFC
A Lei n° 13.487/2017 que instituiu o fundo partidário trazia os critérios de distribuição dos recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), mas o dispositivo que tratava desses critérios distribuição foi vetado. Dessa forma, coube a Lei n° 13.488/2017 dispor sobre a regulamentação da distribuição de recursos.
A Lei n° 13.488/2017 incluiu o art. 16-D que dispõe sobre a distribuição de recursos do FEFC para o primeiro turno na lei n° 9.594/97. Esse dispositivo estabeleceu quatro critérios de distribuição, os quais se baseiam na equidade, na representação dos partidos na câmara e no senado, bem como no número de obtidos pelos partidos na última eleição geral para a Câmara dos Deputados. O critério da equidade é o menos valorizado pela distribuição conforme os percentuais.
A lei disciplina que 2% dos recursos serão divididos igualitariamente entre todos os partidos com estatutos registrados no Tribunal Superior Eleitoral; 35% divididos entre os partidos que tenham pelo menos um representante na Câmara dos Deputados, na proporção do percentual de votos por eles obtidos na última eleição geral para a Câmara dos Deputados; 48% divididos entre os partidos, na proporção do número de representantes na Câmara dos Deputados, consideradas as legendas dos titulares; 15% divididos entre os partidos, na proporção do número de representantes no Senado Federal, consideradas as legendas dos titulares.
Ao dispor sobre os critérios de distribuição do FEFC a Lei n° 13.488/2017 trouxe um novo parâmetro, pois todos os critérios proporcionais até então adotados pelo sistema brasileiro tinham como base o número de representantes da Câmara dos Deputados, seja na distribuição do Fundo Partidário, seja na distribuição do horário eleitoral gratuito e até mesmo nas cláusulas de barreira de acesso a tais recursos. Assim, inovou a lei ao distribuir
15% dos recursos do FEFC na proporção do número de representantes do Senado Federal.
Os critérios de distribuição dos recursos no sistema eleitoral brasileiro continuam sendo os mesmos, quais sejam o da equidade e o da proporcionalidade.
Segundo Speck, esses princípios de distribuição são questionáveis sob a perspectiva de que o da equidade dá uma vantagem aos micropartidos partidos porque eles recebem proporcionalmente mais recursos do que votos, e o princípio da proporcionalidade colabora para o congelamento do sistema partidário, no qual o candidato que teve muitos recursos e provavelmente votos na última eleição continua tendo, assim esses princípios não levam em conta a popularidade dos partidos no eleitorado atual.51
Segundo o art. 16-D, § 2° da Lei n°9.504/97 para que o candidato tenha acesso aos recursos do FEFC deverá fazer um requerimento por escrito ao órgão partidário. Esse dispositivo pode causar um desequilíbrio entre os candidatos que concorrem para a mesma legenda, pois a direção do órgão partidário pode ou não deferir o pedido do candidato.
A Lei n° 13.488/2017 incluiu o art. 354-A no Código Eleitoral (Lei n° 4.737/65). Este dispositivo tipifica como crime, com pena de reclusão de dois a seis anos e multa, a apropriação de bens, recursos ou valores destinados ao financiamento eleitoral.
4.2.3.2 Crowdfunding
O crowdfunding ou financiamento coletivo consiste na mobilização de um grande número de pessoas para viabilizar a execução de determinado projeto. Esse tipo de financiamento se desenvolveu bastante por conta de Internet e das redes sociais. Por meio dessas tecnologias, a capacidade de atingir a um elevado número de pessoas alcançou grandes dimensões.
51 SPECK, Bruno Wilhelm. Interview. “Refúgio Comodo, caixa 2 deveria ser punido como mais severidade, diz especialista em política e corrupção.” Camila Costa. BBC Brasil. 13 de Abril 2017. Disponível em: < http://www.bbc.com/portuguese/brasil-39588333>.
O financiamento coletivo vem ganhando cada vez mais destaque, pois tem a capacidade de viabilizar determinados projetos que não conseguiriam sair do plano das ideias sem a sua utilização.
Nesse sentido, afirma Santano que “o núcleo da ideia de financiamento coletivo é justamente viabilizar um projeto que, sem a colaboração de muitos indivíduos, provavelmente jamais deixaria o papel.”52
Na política, o crowdfunding ganhou destaque, em 2008, com a campanha eleitoral de Barack Obama que arrecadou milhões através de pequenas contribuições. A utilização do financiamento coletivo ou participativo nas campanhas eleitorais é capaz de proporcionar aos atores políticos que não tem acesso a grandes financiadores melhores condições de competição na disputa eleitoral.
O sistema eleitoral brasileiro não permitia o financiamento coletivo. No entanto, essa situação foi modificada em resposta a proibição de doações de empresas para a realização das campanhas.
Assim, a reforma política de 2017, considerando a necessidade de reposição de recursos para ao financiamento das campanhas, buscou ampliar a participação das pessoas físicas através da instituição do crowdfunding.
A Lei n° 13.488/2017 regulamentou o financiamento coletivo, desse modo, permitiu que as doações de recursos fossem efetuadas através de instituições que promovam técnicas e serviços de financiamento coletivo por meio de sites na internet, aplicativos e outros meios similares.
Essas instituições terão de obedecer uma série de exigências trazidas pela lei, quais sejam: cadastramento na Justiça Eleitoral; identificação dos doadores e das quantias a serem doadas; emissão de recibos aos doadores; dar amplo conhecimento a candidatos e doadores das taxas administrativas cobradas pelo serviço; não receber recursos das fontes vedadas no art. 24 da lei eleitoral; observar o calendário eleitoral, principalmente quanto ao prazo de arrecadação; observar os dispositivos relacionados à propagada na internet.
A Lei n° 13.488/2017, através da inclusão do §3° no art. 22-A da Lei Eleitoral, possibilitou aos pré-candidatos a alocação prévia de recursos através de instituições que promovam técnicas e serviços de financiamento coletivo.
52 SANTANO, Ana Claudia. O financiamento coletivo de campanhas eleitorais como medida
Caso o registro do candidato não seja efetivado os valores recebidos serão devolvidos aos doadores.
Esse financiamento coletivo antecipado pode ser realizado desde o dia 15 de maio do ano eleitoral. Isso promoveu um significativo alargamento no período de arrecadação ao trazer a possibilidade de arrecadação de recursos até mesmo por pré-candidatos.
4.2.3.3 Tetos de gastos
Os limites dos gastos de campanha passaram a ser definidos em lei e divulgados pelo TSE e a própria Lei n°13.448/2017 já trouxe os limites de gastos para as eleições de 2018.
O limite será de 70 milhões de reais para cada candidato nas eleições presidenciais. Em caso de segundo turno o limite será de reduzido pela metade, ou seja, será de 35 milhões. Nas eleições para governador os valores podem variar entre R$ 2,8 milhões e R$ 21 milhões a depender do número de eleitores em cada unidade da Federação.
Nas eleições para senador os recursos podem variar entre R$ 2,5 milhões e R$ 5,6 milhões, também, de acordo do número de eleitores. Entretanto, nas eleições para deputados (federal, estadual e distrital) os limites trazidos são fixos. Sendo que, para o deputado federal o limite é de R$ 2,5 milhões. Já no caso dos deputados estaduais e distritais o limite é 1 milhão de reais.