1. O MUNICÍPIO PAULISTA DE CAMPINAS
1.7. Lei de Responsabilidade Fiscal: verificando as justificativas do poder público para
Uma das principais justificativas dos entes federados, incluindo Campinas, para transferir os serviços sociais para o setor privado, é o limite de gasto com pessoal imposto pela Lei Complementar Federal n. 101, de 4 de maio de 2000, mais conhecida como Lei de Responsabilidade Fiscal, o qual, é fixado em 54% para o executivo e 6% para o legislativo, incluído o Tribunal de Contas do Município, quando houver (BRASIL, 2000).
Tendo como objetivo verificar se havia relação entre a limitação imposta pela LRF e a adoção do modelo de gestão privada introduzido pelo Programa ‘Nave-mãe’, conforme anunciado pelo poder público, compôs-se os montantes de gastos com pessoal do poder Executivo no período de 2007 a 2014, com vistas a verificar o cumprimento do limite legal.
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Tabela 18 – Gastos totais com pagamento de pessoal do Executivo de Campinas (2007-2014).
Apuração do cumprimento do limite
legal (54%) 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014
Receita Corrente Líquida (RCL) 2.780.928.003,57 2.860.122.298,85 2.807.639.619,49 3.048.948.359,11 3.296.298.032,72 3.398.116.726,85 3.596.127.080,85 3.734.129.983,56
Despesa total com Pessoal 1.261.493.168,03 1.411.574.993,14 1.400.842.155,68 1.324.681.847,04 1.530.494.947,85 1.449.981.312,54 1.677.412.930,65 1.698.864.363,39
% da Despesa Total sobre a RCL 45,36% 49,35% 49,89% 43,45% 46,43% 42,67% 46,64% 45,50%
Limite Máximo (54%) 1.501.701.121,93 1.544.466.041,38 1.516.125.394,53 1.646.432.113,92 1.780.000.937,67 1.834.983.032,50 1.941.908.623,66 2.016.430.191,12
Limite Prudencial (51,30%)=95% dos 54% 1.426.616.065,83 1.467.242.739,31 1.440.319.124,80 1.564.110.508,22 1.691.000.890,79 1.743.233.880,88 1.844.813.192,47 1.915.608.681,57
Limite de Alerta (48,60%)=90% dos 54% 1.351.531.009,73 1.390.019.437,24 1.364.512.855,07 1.481.788.902,53 1.602.000.843,90 1.651.484.729,25 1.747.717.761,29 1.814.787.172,01
Fonte: A autora com base em: Relatórios de Gestão Fiscal – RGF (3º Quadrimestre) do Sistema de Coleta de dados Contábeis da Caixa Econômica Federal (2005-2014) – Disponível em: https://www.contaspúblicas.caixa.gov.br/sistcncon_internet/index.jsp
OBS: 1) Valores em reais indexados para o mês de junho de 2015, pelo INPC do IBGE – 2) Despesa total com pessoal, inclui gasto com inativos e pensionistas.
Os valores expostos na Tabela 19 mostram variações entre as despesas totais com pessoal. Visualiza-se aumento de gasto entre 2007 e 2008 (11,90); 2010 e 2011 (15,54%); 2012 e 2013 (15,69) e 2013 e 2014 (1,28) e redução no período de 2008 para 2009 (-0,76); 2009 para 2010 (-5,44) e 2011 para 2012 (-5,26).
A maioria dos decréscimos se concentrou nos anos em que os governantes municipais tomaram posse, muito provavelmente, pela imposição legal expressa no parágrafo único, Art. nº 21, da Lei 101/00 que impede “o aumento da despesa com pessoal expedido nos cento e oitenta dias anteriores ao final do mandato do titular do respectivo Poder ou órgão referido no art. 20” (BRASIL, 2000, p. 8), que no caso do município compreende a Câmara dos Vereadores e o Tribunal de Contas, quando houver. Nos dados referentes à Campinas, encontrou-se contradição à disposição legal, no ano de 2012 – ano eleitoral – no qual visualizou-se 15,69% de aumento com a folha de pagamento. Estava à frente do executivo, Pedro Serafim, presidente da câmara em Campinas, que assumira a prefeitura após cassação do ex-prefeito, Hélio Santos e de seu vice, Demétrio Vilagra.
Na apuração do cumprimento do limite legal (54%) do executivo de Campinas, observou-se que o poder público não só cumpriu a exigência legal, como diminuiu os percentuais de gasto, operando abaixo do limite considerado prudencial72 (51,30%) nos anos de 2008 (49,35%) e 2009 (49,89%) e abaixo ainda do limite de alerta (48,60%) nos anos de 2007 (45,36%), 2010 (43,45%), 2011 (46,43%), 2012 (42,67%), 2013 (46,64%) e 2014 (45,50%).
Quando o município atinge o limite de alerta cabe ao Tribunal de Contas advertir o ente federado (BRASIL, 2000) apenas para que observe os referidos valores para os quadrimestres posteriores tendo em vista a Receita Corrente Líquida. Se a despesa total com pessoal exceder o limite prudencial a lei veda ao Poder ou órgão que incorreu em excesso:
I – concessão de vantagem, aumento, reajuste ou adequação de remuneração a qualquer título, salvo os derivados de sentença judicial ou de determinação legal ou contratual, ressalvada a revisão prevista no inciso X do art. 37 da Constituição;
II – criação de cargo, emprego ou função;
III – alteração de estrutura de carreira que implique aumento de despesa; IV – provimento de cargo público, admissão ou contratação de pessoal a qualquer título, ressalvada a reposição decorrente de aposentadoria ou falecimento de servidores das áreas de educação, saúde e segurança;
72 Conforme art. 22, parágrafo único, limite prudencial se refere a 95% do limite total de gasto (54%) que representa 51,30%. Já o limite de alerta corresponde a 90% do total estabelecido em lei, ou seja, 90% dos 54% que corresponde a 48,60% (art. 59, inciso II). (BRASIL, 2000)
V – contratação de hora extra, salvo no caso do disposto no inciso II do § 6º do art. 57 da Constituição e as situações previstas na lei de diretrizes orçamentárias. (BRASIL, 2000, p. 9).
O texto do § 3º, Art. 169 da Constituição Federal, prevê a suspensão de todos os repasses de verbas federais ou estaduais aos entes federados que não cumprirem o limite imposto pela lei complementar que disciplina os gastos públicos (BRASIL, 1988).
No caso de Campinas, contatou-se que o executivo não se encontra com a “corda no pescoço” no que se refere ao gasto com pessoal. Se considerar a hipótese de trabalhar no limite prudencial, teria ainda margem considerável de recursos para operar. A esse respeito, evidencia-se que a transferência da gestão de unidades públicas ao setor privado, trata-se mais de uma estratégia adotada por opção política, do que da imposição da LRF.
O Gráfico a seguir, ilustra o gasto total com pagamento de pessoal alocados à Educação.
Gráfico 5 – Gastos totais com pagamento de pessoal na Educação em Campinas em relação aos gastos totais na Função Educação (2007-2014)
Fonte: A autora com base em CAMPINAS. Secretaria de Finanças. Execuções Orçamentárias (2007-2014)
Quando se analisa o gasto específico com pessoal na Educação comparando-o aos montantes totais investidos nesta função tiram-se duas conclusões. A primeira, como é sabido, que o volume das remunerações consome boa parte do orçamento da pasta, em Campinas a média ficou em 67,69% na série histórica analisada.
A segunda constatação relaciona-se à diminuição do “peso” dos vencimentos no total dos gastos com Educação a partir de 2008. Se em 2007 os gastos com pessoal representavam 75% do orçamento, em 2014 esse percentual ficou em 46%. Se a intenção do poder público ao implementar o Programa ‘Nave-mãe’ era, também, economizar com
gasto de pessoal efetivo, parece ter atingido seu objetivo, entretanto, tal fato evidencia que os recursos desta pasta têm se deslocado para outras rubricas que não o pagamento de pessoal da rede municipal.