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LEI SARNEY

No documento Direito e cultura (páginas 38-42)

A Lei 7.505 de 02 de julho de 1986, também conhecida como Lei Sarney, dispunha sobre os benefícios fiscais na área do imposto de renda para operações de caráter cultural ou artístico (BRASIL, 1986).

Pioneira em estabelecer relações próximas entre Estado e Iniciativa Privada, através da renúncia fiscal, representou um dos momentos de maior expressividade na política cultural do país, permitindo grandes e inovadores investimentos nas manifestações artísticas culturais.

De acordo com Malagodi e Cesnik (1999, p. 43) durante “a vigência da Lei Sarney foram arrecadados aproximadamente US$ 450 milhões, muito embora não se conheça a distribuição desses recursos segundo sua origem ou destino”.

O ponto mais crítico da Lei, segundo Costa (2004, p. 120), e que abriu margem para abusos, era o fato de “não existir um controle prévio para um projeto cultural específico, havia somente o cadastramento da ‘entidade cultural’ perante o Ministério da Cultura”. Desse modo, qualquer nota fiscal emitida pela entidade cadastrada poderia ser utilizada na forma de abatimento fiscal.

Machado (2011, p. 15) entende que:

O benefício trouxe deformações: as empresas tinham poder de decisão sobre onde e quanto investir. Assim nasceu uma indústria de empreendimentos culturais baseada em falsa documentação e prestação de contas, notas frias e troca de facilidades. Havia outro problema: as ações eram esparsas e denotava uma falta de uma linha de conduta consistente. Praticamente não existia o incentivo à cultura e a percepção de que formar ou enriquecer determinada empresa poderia depender de sua vinculação com posturas culturais.

Dentre as muitas outras críticas relacionadas à Lei Sarney, Malagodi e Cesnik (ano e p. 43) destacam que:

Outra crítica era de que a Lei não distinguia, entre os vários seguimentos culturais, aqueles que de fato precisavam de incentivo, podendo assim, ser usada inclusive para espetáculos, com artistas estrangeiros, de caráter nitidamente comercial. Finalmente recriminava-se o fato de que a Lei acolhia inclusive projetos culturais sem caráter público, como era o caso de edições de luxo que as empresas ofereciam como brindes a seus clientes e fornecedores no final do ano.

A crítica advinda de Pinho (1992, p. 110) estabelece que:

Enquanto em qualquer lugar do mundo o incentivo é dado para entidades ou projetos sem fins lucrativos, a Lei Sarney não distinguia estes daqueles lucrativos. A Lei Sarney também não diferenciava investimento e manutenção de projeto, que são situações bem diversas [...] Faltava critério, ainda, sobre o contexto do projeto cultural. Eu podia lançar um livro de arte com um grande coquetel, que era financiado pela Lei Sarney, porque não havia separação entre o projeto cultural e seus acessórios.

E o autor supracitado continua, ao expor que “a Lei operava ao contrário, tirando do governo uma determinada faixa de aplicação orçamentária sem garantir que ela seria suprida pela iniciativa privada” (PINHO, 1992, p.110).

O formato da Lei Sarney permitia o investidor visar, na grande maioria, ao resultado financeiro, sem o compromisso com a resposta artística. Embora, proferidas diversas críticas à Lei Sarney, o conjunto de sua obra foi positivo, na medida que permitiu abrir caminho para que a própria Lei Sarney e as Leis que entrassem em vigência, posteriormente, se adequassem a realidade do país.

A Lei Sarney possibilitava ao contribuinte abater do imposto de renda bruto o valor das doações, patrocínios e, inclusive, as despesas para a real efetivação do projeto cultural, como se pode observar na leitura de seus dispositivos:

Art. 1º O contribuinte do imposto de renda poderá abater da renda bruta, ou deduzir com despesa operacional, o valor das doações, patrocínios e investimentos inclusive despesas e contribuições necessárias à sua efetivação, realizada através ou a favor de pessoa jurídica de natureza cultural, com ou sem fins lucrativos, cadastrada no Ministério da Cultura, na forma desta Lei.

§ 1º Observado o limite máximo de 10% (dez por cento) da renda bruta, a pessoa física poderá abater:

I - até 100% (cem por cento) do valor da doação; II - até 80% (oitenta por cento) do valor do patrocínio; III - até 50% (cinquenta por cento) do valor do investimento

§ 2º O abatimento previsto no § 1º deste artigo não está sujeito ao limite de 50% (cinquenta por cento) da renda bruta previsto na legislação do imposto de renda.

§ 3º A pessoa jurídica poderá deduzir do imposto devido, valor equivalente à aplicação da alíquota cabível do imposto de renda, tendo como base de cálculo:

I - até 100% (cem por cento) do valor das doações; II - até 80% (oitenta por cento) do valor do patrocínio;

III - até 50% (cinquenta por cento) do valor do investimento. (BRASIL, 1986).

Dessa forma, a grande maioria dos incentivos vinha por parte de doação, já que, nesse módulo de incentivo, a redução do imposto de renda seria a máxima possível. Isso acarretou o mau uso das demais opções de incentivo, engessando as outras formas de incentivo mencionadas.

Em referência as infrações e crimes em relação ao não recolhimento de impostos, o artigo 11º da Lei nº 7.505, de 1986, dispunha sobre as sanções penais, bem como a multa aplicável nessa situação:

Art. 11. As infrações aos dispositivos, desta Lei, sem prejuízo das sanções penais cabíveis, sujeitarão o contribuinte à cobrança do imposto sobre a renda não recolhido em cada exercício acrescido das penalidades previstas na legislação do imposto de renda, além da perda do direito de acesso, após a condenação, aos benefícios fiscais aqui instituídos, e sujeitando o beneficiário à multa de 30% (trinta por cento) do valor da operação, assegurando o direito de regresso contra os responsáveis pela fraude.

A Lei Sarney ainda estabelecia que o órgão responsável por fiscalizar os benefícios concedidos à cultura era a Secretaria da Receita Federal, como dispõe o artigo da lei em questão:

Art. 13. A Secretaria da Receita Federal, no exercício das suas atribuições específicas, fiscalizará a efetiva execução desta Lei, no que se refere à realização das atividades culturais ou à aplicação dos recursos nela comprometidos (BRASIL, 1986).

Cumpre salientar que a referida Lei é anterior à CRFB/88 e à era digital e da internet, motivo pelo qual, não existem registros de fácil acesso sobre o controle das distribuições e a efetiva fiscalização dos incentivos.

Acredita-se, portanto, que o conjunto de informações apresentadas na exposição da Lei Sarney, conseguiu-se identificar a importância da lei na promoção à cultura como também capturar as principais críticas aplicação dela.

4 AS ESPECIFIDADES DAS LEIS ROUANET E A LEI DO AUDIOVISUAL

A seguir, serão apresentados os principais aspectos da Lei Rouanet, as alterações ocorridas desde a Lei Sarney, a maneira como a lei redefiniu os incentivos à cultura, as problemáticas que surgiram a partir do uso indevido das verbas autorizadas pelo MinC, para, por fim, verificar o funcionamento da Lei do Audiovisual, criada para fomentar a indústria cinematográfica brasileira.

No documento Direito e cultura (páginas 38-42)

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