3.2 AGROBIODIVERSIDADE NO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO______104
3.2.3 Lei 10.711/2003 – Sistema nacional de sementes e mudas
e de mudas”, de como se procederá o comércio interno e internacional, sua utilização e de como será a fiscalização398.
Foram criadas “Comissões de Sementes e Mudas, órgãos colegiados, de caráter consultivo e de assessoramento”, proibições que englobam “a produção, o beneficiamento, o armazenamento, a análise, o comércio, o transporte e a utilização de sementes e mudas em desacordo com o estabelecido nesta Lei e em sua regulamentação”, bem como medidas cautelares e penalidades para quem as descumprir. E por fim, encontram-se as disposições finais em seu capítulo XIV, tudo concatenado em seus 52 artigos399.
Já o mais recente Decreto nº 10.586/2020, traz as disposições preliminares, conceituando diversos itens atinentes ao tema das mudas e sementes, aborda o Registro Nacional de Sementes e Mudas (Renasem), que tem como objetivo descrito em seu artigo 4º400:
Art. 4º O Renasem é o registro único, válido em todo o território nacional, vinculado a um número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas - CPF ou no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica - CNPJ, cuja finalidade é habilitar perante o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento pessoas físicas ou jurídicas que exerçam as atividades de produção, de beneficiamento, de reembalagem, de armazenamento, de análise ou de comércio de sementes ou de mudas e as atividades de responsabilidade técnica, de certificação, de amostragem, de coleta ou de análise de sementes ou de mudas previstas na Lei nº 10.711, de 2003, neste Decreto e em norma complementar.
Ficam isentos desse registro no Renasem aqueles estipulados no artigo 4º, §1º401:
a) atendam aos requisitos de que trata o caput do art. 3º da Lei nº 11.326, de 24 de julho de 2006, ou se enquadrem no disposto no § 2º do referido artigo; e
b) multipliquem sementes ou mudas somente para distribuição, para troca e para comercialização entre si ou para atendimento de programas governamentais, ainda que localizados em diferentes unidades federativas;
II - associações e cooperativas de agricultores familiares que distribuam, troquem, comercializem e multipliquem sementes ou mudas, desde que sua produção seja proveniente exclusivamente do público beneficiário de que tratam a Lei nº 11.326, de 2006, e seus regulamentos;
III - os comerciantes que comercializem exclusivamente sementes e mudas para uso doméstico; e
IV - as pessoas físicas ou jurídicas que importem sementes ou mudas para uso próprio em área de sua propriedade ou de que tenha a posse.
398 BRASIL. Lei nº 10.711, de 5 de agosto de 2003. […].
399 BRASIL. Lei nº 10.711, de 5 de agosto de 2003. […].
400 BRASIL. Decreto nº 10.586, de 18 de dezembro de 2020. Regulamenta a Lei nº 10.711, de 5 de agosto de 2003, que dispõe sobre o Sistema Nacional de Sementes e Mudas. Disponível em:
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2020/Decreto/D10586.htm#art185. Acesso em: 01 fev.
2022.
401 BRASIL. Decreto nº 10.586, de 18 de dezembro de 2020. […].
A Lei nº 11.326402, de 24 de julho de 2006, referida acima no artigo 4º, §1º, I, a, é responsável por estabelecer as diretrizes para a formulação da Política Nacional da Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais, tratando no artigo 3º que
“considera-se agricultor familiar e empreendedor familiar rural aquele que pratica atividades no meio rural”, e que atenda simultaneamente determinados requisitos, como:
I - não detenha, a qualquer título, área maior do que 4 (quatro) módulos fiscais;
II - utilize predominantemente mão-de-obra da própria família nas atividades econômicas do seu estabelecimento ou empreendimento;
III - tenha percentual mínimo da renda familiar originada de atividades econômicas do seu estabelecimento ou empreendimento, na forma definida pelo Poder Executivo; (Redação dada pela Lei nº 12.512, de 2011)
IV - dirija seu estabelecimento ou empreendimento com sua família.
Esclarece ainda na Política Nacional da Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais que esse benefício se estende aos silvicultores, aquicultores, extrativistas, pescadores, povos indígenas e os integrantes de comunidades remanescentes de quilombos rurais e demais povos e comunidades tradicionais (art. 4º, §2º, I, II, III, IV, V, VI)403. É importante referir a legislação nº 11.326/2006, visto que se encontra ligada a legislação principal aqui tratada, já que os agricultores são responsáveis por lidar com o manejo e cultivo das variedades de mudas e cultivares.
Voltando ao que estabelece o Decreto nº 10.586/2020, temos ainda o Registro Nacional de Cultivares (RNC); o Cadastro Nacional de Cultivares Registradas (CNCR); a produção e a certificação de mudas e sementes; elencando na sequência a categoria das sementes; o processo de produção de mudas e suas categorias; a amostragem e a análise de sementes e de mudas; da produção, da inscrição e da certificação de sementes, de mudas e de material de propagação quando se tratar de espécies florestais e das espécies de interesse medicinal ou ambiental; aponta o modo como se deve proceder o comércio e transporte interno e internacional de sementes e mudas; a importação e exportação; a utilização de mudas e sementes; a comissão, auditoria e fiscalização; as proibições e infrações; as medidas cautelares e penalidades; o processo administrativo e por fim, as disposições finais e transitórias. Todos esses informes se encontram elencados nos 186 artigos do Decreto404.
402 BRASIL. Lei nº 11.326, de 24 de julho de 2006. Estabelece as diretrizes para a formulação da Política Nacional da Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais. Disponível em:
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2006/Lei/L11326.htm#art3. Acesso em: 01 fev. 2022.
403 BRASIL. Lei nº 11.326, de 24 de julho de 2006. […].
404 BRASIL. Decreto nº 10.586, de 18 de dezembro de 2020. Regulamenta a Lei nº 10.711, de 5 de agosto de 2003, que dispõe sobre o Sistema Nacional de Sementes e Mudas. Disponível em:
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2020/Decreto/D10586.htm#art185. Acesso em: 01 fev.
2022.
Depreende-se dos dispositivos abordados no diploma normativo e no Decreto regulamentador, que estes inclinam certo reconhecimento às variedades tradicionais, locais e crioulas (que anteriormente eram considerados “simples grãos”), definindo-as no artigo 2º, XVI da Lei nº 10.711/2003 como “variedade desenvolvida, adaptada ou produzida por agricultores familiares, assentados da reforma agrária ou indígenas, com características fenotípicas bem determinadas e reconhecidas pelas respectivas comunidades” e que a critério do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento sejam considerados “descritores socioculturais e ambientais, não se caracterizem como substancialmente semelhantes às cultivares comerciais”405.
Quanto ao último trecho acima descrito, constata-se que:
A Lei de Sementes exige a consideração dos descritores agronômicos e botânicos, justamente para que sejam considerados, na definição e na caracterização das variedades locais, os contextos socioculturais e ambientais em que essas variedades se desenvolveram ou se adaptaram, por seleção natural e pelo manejo dos agricultores. O Mapa deverá, portanto, consultar os agricultores e prever a participação deles na definição das variedades locais e dos critérios para distingui-las das comerciais406.
A legislação admite as formas e modos específicos que as sementes crioulas são produzidas, e proporciona que os sistemas tradicionais e locais de cultivo de sementes não sejam submetidos às imposições do sistema formal regulado por ela. Muito embora a lei de sementes e mudas contemple os sistemas informais de conhecimentos, notável é que esta buscou tão somente priorizar e dar predileção ao agronegócio, impossibilitando o envolvimento dos agricultores tradicionais, locais e familiares, visto que estes não tem condições de acompanhar esses padrões estipulados, pois carecem de recursos financeiros para adquirir tecnologias modernas, utilizando-se dos métodos e saberes locais, com o qual promovem o constante amoldamento e aperfeiçoamento das sementes e mudas ao ambiente em que vivem407.
Observa-se, claramente, que a legislação se preocupou mais com os interesses privados, dos grandes fazendeiros e do agronegócio, quando na verdade deveria abarcar e contemplar a todos os agricultores, sem distinção, garantindo-lhes material de qualidade,
405 BARCELOS, José Renato de Oliveira. Agrobiodiversidade ameaçada: perversão do direito e zona de autarquia na CTNbio. São Paulo: LiberArs, 2018, p. 114.
406 MACHADO, Altair Toledo; SANTILLI, Juliana; MAGALHÃES, Rogério. A agrobiodiversidade com enfoque agroecológico: implicações conceituais e jurídicas. Brasília, DF: Embrapa informação tecnológica. 2008, p. 84.
407 SÁ, Gabriela Artiles da C. C. de V. GUIMARÃES, Virgínia Totti. A construção dos direitos dos agricultores: reflexões acerca da complexidade jurídica e política de sua aplicação. Departamento de Direito.
Não paginado.
prezando pelas particularidades de cada localidade, conforme descrito em seu artigo primeiro408.