CAPÍTULO I - RUPTURA E CONTINUIDADE: UMA LIGEIRA DIGRESSÃO ACERCA DA PROFISSIONALIZAÇÃO DO EXÉRCITO
1.11 A LEI DO SORTEIO MILITAR DE 1908
Ao lado das preocupações com a soberania e a integridade da nação, avultava a questão da nacionalidade. País novo, recentemente saído do regime escravista, que dia a dia recebia milhares de estrangeiros, o Brasil ainda carecia de brasileiros, isto é, cidadãos plenamente cônscios de seus direitos e, principalmente, dos deveres. A formação de cidadãos era uma tarefa atribuída a instituições como a família, as escolas e as forças armadas. Em especial as escolas e as casernas eram vistas como fatores de difusão do civismo.
Por outro lado, a abrangência restrita do sistema escolar brasileiro à época, levou muitos intelectuais a vislumbrarem no Exército a possibilidade de corrigir os mais graves
137 PINTO NETO, Osvaldo Ferreira. República e Modernização: o debate sobre a implantação do serviço militar obrigatório (1889-1917). Dissertação de Mestrado. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo. São Paulo, 1997, p. 09.
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problemas sociais brasileiros, dentre os quais se destacava o do analfabetismo. Desse modo, o Exército poderia dar a sua contribuição ao esforço de integração do caboclo interiorano, do ex-escravo ou seu filho e do filho do imigrante à comunidade nacional, adicionalmente infundiria nesses grupos a ética burguesa do trabalho, proporcionando uma maior disciplina e obediência ao proletariado nacional. 138
Os militares manifestavam outra ordem de preocupações. Urgia aprimorar a operacionalidade do Exército e selecionar melhor os seus conscritos. Nesse aspecto, nenhum grupo defendeu com maior ênfase essa tese do que os Jovens Turcos. Tratava-se de um grupo de jovens oficiais que, em levas sucessivas entre os anos de 1906 e 1912, foram estagiar no Exército alemão, servindo arregimentados nos corpos das várias armas daquela corporação.
Esse grupo, após o retorno da última leva de estagiários, fundou no ano de 1913 a revista A Defesa Nacional, que havia sido precedida por um esforço anterior representado pela Revista dos Militares. 139
Os chefes militares, por seu turno, manifestavam opiniões semelhantes. De fato, remonta ao final do século XIX, mais especificamente, à administração do marechal João Nepomuceno de Medeiros Mallet, ministro da Guerra entre 1898 e 1902, as primeiras preocupações quanto à eficácia no manejo das armas pelos soldados brasileiros. Para superar as deficiências evidenciadas durante o conflito de Canudos, Mallet era da opinião de que oficiais e praças deveriam ser levados a acampar e praticar o tiro. 140
O marechal Francisco de Paula Argolo, sucessor de Mallet (1902-1906), era um grande entusiasta do serviço militar obrigatório e, por acreditar que os oficiais, os futuros instrutores e líderes dos soldados que viessem ingressar anualmente nas fileiras, deviam estar à altura dessa tarefa, procurou introduzir mudanças na formação dos oficiais enfatizando, principalmente, a formação combatente. Para ele, o ambiente pouco afeito às lides militares encontrado na Praia Vermelha era deletério para o futuro da oficialidade brasileira. 141
Outra administração bastante influente e comprometida com a transformação do Exército foi a do também marechal Hermes da Fonseca (1906-1909). Encontrou um Exército
138 PINTO NETO, Osvaldo Ferreira. República e Modernização: o debate sobre a implantação do serviço militar obrigatório (1889-1917). Dissertação de Mestrado. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. São Paulo, 1997, p. 10.
139 CIDADE, Francisco de Paula. Síntese de Três Séculos de Literatura Militar Brasileira. Rio de Janeiro:
Biblioteca do Exército Editora, 1998, p. 338.
140 McCANN, Frank. Soldados da Pátria: história do Exército brasileiro (1889-1937). São Paulo: Companhia das Letras, 2007, pp. 107-108.
141 CARVALHO, José Murilo de. Forças Armadas e Política no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p. 25.
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ainda convalescente da campanha de Canudos. Faltavam munições, armas, barracas para acampamento, uniformes, mas, sobretudo, faltavam soldados e oficiais. Os existentes deixavam muito a desejar, fosse pelo seu preparo profissional, fosse pelo seu comprometimento com a instituição. 142 A necessária austeridade das administrações que sucederam aos governos dos perdulários e catastróficos anos 1890 tolhiam maiores ousadias por parte do Ministério da Guerra. Entretanto, a administração Hermes da Fonseca foi capaz de angariar apoio suficiente para solucionar, ao menos parcialmente, os principais desajustes da instituição.
O principal deles dizia respeito ao mau funcionamento dos distritos militares e sua inadequação para fazer frente às novas tarefas administrativas advindas da adoção do serviço militar obrigatório. Era urgente habilitar oficiais e praças de modo a torná-los aptos a receber o fluxo contínuo de recrutas que anualmente ingressariam e seriam licenciados do Exército.
Para tanto, propôs, uma nova distribuição das unidades do Exército pelo território nacional, substituindo os sete distritos militares por treze regiões militares de inspeção. As regiões de inspeção, analogamente aos distritos militares, também correspondiam a uma divisão de exército e deveriam ser, preferencialmente, comandadas por oficiais generais.
Seria papel de cada inspeção garantir o preenchimento dos claros e o adestramento das tropas em sua respectiva região. Nessas tarefas seriam coadjuvados pelos oficiais subalternos e praças antigos. Nesse sentido, a força passaria a ser dividida em dois grandes efetivos: o permanente e o variável, sendo este formado pelos recrutas que anualmente ingressavam no Exército e ao final de um período fixo de tempo retornariam à vida civil, e o primeiro, preferencialmente, pelos oficiais de carreira e, secundariamente, por praças engajados.
Todos esses princípios estão consubstanciados na Lei 1.860, de 4 de janeiro de 1908, a qual, não coincidentemente, também é conhecida como Lei do Sorteio Militar. O arcabouço teórico que fundamentava essa lei pressupunha que o Exército tinha a responsabilidade de preparar militarmente a nação para as futuras guerras. Sendo um exército ainda incipiente, com parcos recursos e de uma nação pacífica por índole, cabia-lhe prepará-la para uma guerra necessariamente defensiva. Essa preparação não se restringia aos quadros ingressantes nas fileiras; antes, deveria se espraiar por todo o corpo social através do número crescente dos
142 PONDÉ, Francisco de Paula e Azevedo. Organização e Administração do Ministério do Exército. História Administrativa do Brasil, v. 7. Brasília: ENAP; Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1994, p. 100.
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recrutas que seriam licenciados do serviço militar todos os anos, passando a constituir reservas mobilizáveis para a defesa da Pátria, em caso de ameaça à sua integridade.
1.12 “A LEI NÃO PEGOU”
A adoção do serviço militar obrigatório apresentava inúmeras vantagens orçamentárias para o Exército e, consequentemente, para o governo. Entretanto, inicialmente, a Lei 1860 de 1908 teve praticamente o mesmo destino da sua antecessora, a Lei 2256 de 1874, ou seja, tornou-se letra morta. O Exército continuou dependendo do voluntariado por mais alguns anos. Isto significava que a instituição continuaria abrigando indivíduos marginalizados, desocupados ou mesmo incapazes de encontrar funções remuneradas na vida civil. Acima de tudo, a indesejada figura do soldado profissional continuaria povoando os quarteis, com todas as suas deletérias consequências.
Por fim, vale mencionar que o voluntariado genuíno nunca fora suficiente para atender às demandas do Exército por pessoal, assim sendo, o recurso ao recrutamento forçado também persistiu.
Cinco anos após a promulgação da Lei 1860, o então primeiro-tenente Leitão de Carvalho publicava, através de A Defesa Nacional, os resultados do voluntariado na sua unidade. Para o autor, as fontes de recrutas do Exército brasileiro eram principalmente quatro, a saber: a)“os nordestino afugentados pelas secas”; b)“os desocupados das grandes cidades que procuravam o serviço militar como emprego”; c)“os criminosos mandados pela polícia”
ed)“os inaptos para o trabalho”. 143 Fosse pela resistência popular, fosse pelos receios das elites dirigentes do País quanto ao fortalecimento do Exército, o fato é que os oficiais tiveram que esperar mais alguns anos até ver em funcionamento a Lei do Sorteio Militar.
De fato, apenas a forte impressão causada pelos acontecimentos da Primeira Guerra Mundial foram capazes de sensibilizar a opinião pública brasileira e, em especial, a sua elite política para as preocupações atinentes à defesa do território brasileiro. Não coincidentemente, a aplicação da Lei teve início a partir de 1916, em meio ao conflito e à grandiosa campanha encabeçada pelo poeta Olavo Bilac, o qual visitou diversas capitais brasileiras palestrando sobre a necessidade de o Brasil adotar o serviço militar na modalidade obrigatória. Essa
143 CARVALHO, Estevão Leitão. “O Voluntariado no Exército”. A Defesa Nacional, I, 2 (nov. 1913), pp. 40-43.
Apud CARVALHO, José Murilo de. Forças Armadas e Política no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p.
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campanha contou com a simpatia e apoio dos Jovens Turcos, de alguns dirigentes do próprio Exército, entre eles o próprio ministro da Guerra, e de industriais do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Imagem II – Reunião do corpo editorial da revista A Defesa Nacional (grupo conhecido como Jovens Turcos) na década de 1910. O movimento encabeçado pela geração dos jovens turcos modernizou as práticas e os costumes nas casernas brasileira e, em consequência, deu início a uma importante inflexão nas relações civil-militares no Brasil.
Fonte: McCANN, Frank. Soldados da Pátria: história do Exército brasileiro (1889-1937). São Paulo:
Companhia das Letras, 2007, p. 188.