4 UM OLHAR A PARTIR DO BRASIL
4.1 LEI 13.260/2016
Para iniciar, esta subseção será destinada a apresentar como o Brasil tem tratado do termo em esfera jurídica. Para isso, será apresentada a recente Lei 13.26061. A Lei 13.260 foi
promulgada em 16 março 2016, com 17 artigos sancionados e 3 vetados, atendendo a uma exigência do GAFI (que ameaçou o país com sanções caso a Lei não fosse efetivada)62, em
especial por conta da proximidade das Olimpíadas de 2016 (TERENZI, 2016). Tendo em vista tais possibilidades e com a intenção de tipificar criminalmente o terrorismo que a Lei é publicada. Para alguns ainda pode ser acrescentado à esta motivação a pressão internacional. A Lei 13.260 traz o crime de Terrorismo e sua definição, bem como medidas investigativas e processuais especiais (AITA, 2017; CAMBI; AMBRÓSIO, 2017).
Segundo a Lei 13.260 de 2016:
O terrorismo consiste na prática por um ou mais indivíduos dos atos previstos neste artigo, por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião, quando cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública.
61 Cf. ANEXO A.
62 Informação fornecida por Câmara Notícias, em Brasília, em abril de 2015. Disponível em: http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/ADMINISTRACAO-PUBLICA/485561-GRUPO-DE- ACAO-FINANCEIRA-PEDE-A-CUNHA-URGENCIA-PARA-LEIS-DE-COMBATE-AO-
§ 1º São atos de terrorismo:
I - usar ou ameaçar usar, transportar, guardar, portar ou trazer consigo explosivos, gases tóxicos, venenos, conteúdos biológicos, químicos, nucleares ou outros meios capazes de causar danos ou promover destruição em massa;
II - incendiar, depredar, saquear, destruir ou explodir meios de transporte ou qualquer bem público ou privado; (VETADO)
III - interferir, sabotar ou danificar sistemas de informática ou bancos de dados; (VETADO)
IV - sabotar o funcionamento ou apoderar-se, com violência, grave ameaça a pessoa ou servindo-se de mecanismos cibernéticos, do controle total ou parcial, ainda que de modo temporário, de meio de comunicação ou de transporte, de portos, aeroportos, estações ferroviárias ou rodoviárias, hospitais, casas de saúde, escolas, estádios esportivos, instalações públicas ou locais onde funcionem serviços públicos essenciais, instalações de geração ou transmissão de energia, instalações militares, instalações de exploração, refino e processamento de petróleo e gás e instituições bancárias e sua rede de atendimento;
V – atentar contra a vida ou a integridade física de pessoa. (BRASIL, 2016)
A publicação desta Lei gerou naturalmente alguns estudos e, além disso, críticas foram apresentadas. É certa toda sua importância para a tipificação do crime de terrorismo e o avanço que isto traz para seu combate. Contudo, a preocupação com a criminalização de tais atos e até mesmo a inserção do Brasil no contexto internacional traz outro ponto, pois a Lei e suas motivações não podem ser usadas para a ameaça à democracia nacional (CAMBI; AMBRÓSIO, 2017). Este entendimento é pelo motivo de que para alguns a Lei “acaba por alimentar apenas um efeito simbólico que, ao invés de incrementar a sensação de segurança, mostra-se como uma solução fictícia e, o que é pior, pode produzir resultados contraproducentes” (CALLEGARI; LINHARES, 2015).
Antes de uma Lei específica para o terrorismo o crime estava contido na Lei de Segurança Nacional (Lei nº 7.170, de 14 de dezembro de 1983) e conferia pena de três a dez anos de reclusão para quem praticasse atos ou atentados de terrorismo. Ainda estava previsto na Constituição Federal Brasileira de 1988 a prática de terrorismo como um crime inafiançável e insuscetível de graça ou anistia e, por sua gravidade, pela Lei nº 8.072, de 25 de julho de 1990 é submetida à categoria de crime hediondo (CAVALCANTI; GOMES, 2016).
A nova Lei traz um novo cenário de entendimento sobre o terrorismo e “Propõe disciplinar o terrorismo, tratar de disposições investigatórias e processuais e reformular o conceito de organização terrorista.” (AITA, 2017, p. 46). Todas estas ações estão previstas no decorrer dos artigos propostos pela Lei Antiterrorismo. Porém, em uma análise destes, o que mais chama a atenção e naturalmente é mais discutido, está no artigo 2º. Neste artigo é estabelecido “terrorismo como prática por um ou mais indivíduos dos atos supracitados, motivados por xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião, quando
cometidos com o propósito de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública” (BRASIL, 2016). O artigo destaca em seu disposto que não se aplica à conduta individual ou coletiva de pessoas em manifestações políticas, religiosos, profissional, direcionados por propósitos sociais ou reivindicatórios, visando a criticar, contestar, protestar ou apoiar, visando defender direitos, garantias e liberdades constitucionais (BRASIL, 2016). Contudo, segundo a ONU e diversos juristas, este disposto não fornece garantia de que a lei não enquadre manifestantes e defensores de direitos humanos (TERENZI, 2016).
Toda esta discussão em cima do Art. 2º se volta ao fato de se não for bem compreendida a Lei pode ser uma intimidação aos movimentos populares em busca de luta social por cidadania e à afirmação dos direitos fundamentais no Brasil. A criação de uma lei antiterrorismo com um dispositivo legal aberto e vago como o constante no artigo 2º da Lei 13.260/2016, deve ser contextualizada com a proteção dos direitos fundamentais, para não servir de instrumento intimidador de manifestações populares e pensamento (CAMBI; AMBRÓSIO, 2017).
Para Loguercio, Giorgi e Lopes (2016), há uma descrição genérica de determinados requisitos, como protestos e reivindicações. O que dificultaria a interpretação e abre margem à insegurança jurídica. Já para outros, como Cavalcanti e Gomes (2016), a Lei tem sua importância e assegura manifestações de fins sociais e políticos, de cunho ideológico e profissional, provendo o direito à liberdade de expressão. Esta última vertente de argumentação se baseia no § 2º, onde não se aplicam à conduta individual ou coletiva de pessoas direcionados por propósitos sociais ou reivindicatórios, visando a contestar, criticar, protestar ou apoiar, com o objetivo de defender direitos, garantias e liberdades constitucionais, sem prejuízo da tipificação penal (CAVALCANTI; GOMES, 2016).
De maneira geral, a Lei Antiterrorismo ao se alinhar aos interesses globais necessita de prudência para não se tornar uma forma de coibir protestos contra a conjuntura vigente. Em suma, apesar de haver um grande ganho jurídico e de instrumento ao combate do terror, a Lei também pode ser um forte instrumento político de repressão. Se utilizada desta forma, pode trazer retrocessos à democracia participativa e sua liberdade de pensamento e manifestação (CAMBI; AMBRÓSIO, 2017). Apesar das discussões sobre a Lei e seus termos vagos possibilitadores de interpretações equivocadas e ambíguas, a Lei 13.260 traz avanços para a definição de atos de terrorismo, organização terrorista e criminalização do terrorismo,
seu financiamento, seus atos preparatórios e a participação em organizações terroristas, e ainda, atende aos requisitos internacionais do qual o Brasil é signatário (AITA, 2017). Ela ainda evita deixar o Estado brasileiro sem a necessária provisão jurídica e correndo o risco de possíveis constrangimentos frente a uma ameaça real às vésperas de um evento de magnitude mundial.
Por fim, apesar de suas críticas, a Lei inevitavelmente atua como um aliado ao combate ao terrorismo, porém, não pode ser a única ação brasileira deste enfrentamento. Por isso, como foco deste trabalho a seguir será apresentada a organização brasileira para o tema de Inteligência e suas medidas no que tange ao terrorismo.