• Nenhum resultado encontrado

4 CONTEXTUALIZANDO A INTERCULTURALIDADE NA EDUCAÇÃO

4.3 LEIS E NORMATIVAS ELABORADAS POR COMISSÕES INDIGENISTAS E

Em 1910, foi criado o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), vinculado à Administração Pública Federal. Esse foi o primeiro passo para o desenvolvimento e para a execução de uma política indigenista oficial. Tinha como objetivo assegurar a proteção dos indígenas e criar estratégias para ocupação territorial dos povos no Brasil. Porém, mesmo sendo criado para desenvolver ações em defesa aos indígenas, com o tempo, tornou-se um instrumento de opressão. Funcionários do SPI, durante um período de 30 anos, juntamente com desbravadores, latifundiários e mineradoras conluiados com políticos desonestos contribuíram na usurpação de terras indígenas, que destruiu comunidades inteiras. Tais atos ficaram reconhecidos como práticas de genocídio em relação aos indígenas (LEWIS, 2019). Relatórios oficiais desenvolvidos por Jáder de Figueiredo Correia (procurador federal) comprovavam tais atrocidades. Houve, dentre outras práticas destrutivas dos povos indígenas, assassinatos, venda ilegal de terras e desvios de dinheiro, crimes como arrancar unhas dos indígenas, infanticídio; bem como massacres, usurpação de trabalho com punições severas e aprisionamentos. Foram proibidos de dançar, cantar, de praticar seus costumes, como os ritos fúnebres pelos missionários. E assim, a tradição aos poucos foi destruída (LEWIS, 2019).

Segundo Cunha (2019), em reportagem de 1969 realizada por um jornalista inglês, Normam Lewis, que deu ênfase à figura dos fazendeiros do século XVI, que cobiçavam as terras indígenas e a omissão institucional do SPI, encontram-se tais informações. Essa reportagem trata sobre o extermínio sem fim dos indígenas e foi atualmente publicada pela revista Piauí, no mês de janeiro de 2019, e tais históricos ficam claros. Nela encontramos depoimentos tristes e desastrosos que nos fazem refletir e reconhecer que ao longo dos séculos e anos, os indígenas foram bombardeados, caboclados e empurrados no caminho da extinção. Lewis (2019) relata que, apenas em 1967, iniciaram as apurações sobre os delitos praticados pelo SPI, por ordenação do general Afonso Augusto de Albuquerque Lia, para averiguarem diversos apontamentos de crimes contra a pessoa e o patrimônio dos indígenas – caracterizados como genocídio. E a partir de tais registros, o SPI foi suprimido e a FUNAI fundada (LEWIS, 2019; CUNHA, 2019).

159149

Criou-se a FUNAI por meio da Lei n.º 5.371 de 5/12/1967, em substituição ao SPI. Segundo informações na página oficial da FUNAI, a instituição foi idealizada para desenvolver o papel de integrar os povos indígenas de modo harmonioso na sociedade nacional, uma vez que “[...] considerava-se que essas sociedades precisavam ‘evoluir’ rapidamente até serem integradas, o que é considerado na prática como uma negação da riqueza da diversidade cultural” (s/d, s/p), característico ao que Santos (2010a) denominou de epistemicídio. Mais tarde, com a publicação da Lei n.º 6.001 de 19/12/1973, que ficou conhecida como Estatuto do Índio, foi possível formalizar os procedimentos a serem seguidos pela FUNAI para resguardar e assessorar as populações indígenas, até mesmo em relação à definição de suas terras e ao procedimento de regularização fundiária.

Posteriormente, esse estatuto sofreu alterações, atendendo ao disposto na Constituição Federal de 1988, referendado como um novo marco conceitual, suprimindo o modelo político regularizado a partir de elementos de tutela e de assistencialismo. Foi nesse momento que se buscou um novo modelo de política nas perspectivas da pluralidade étnica como direito. Dessa maneira, são estabelecidas relações protetoras e promotoras de direitos entre o Estado e as comunidades indígenas brasileiras (FUNAI, s/d).

Com o Decreto nº 7056/2009, a FUNAI reformulou suas ações de atuação reestruturando o órgão. Desde então, a fundação vinha tendo muita representatividade na sociedade nacional com grandes desafios, como o desenvolvimento de propostas que possam demarcar a atuação do Governo Federal no que se refere à política indigenista no Brasil (FUNAI, s/d). Mas, com a nova gestão Federal, sobretudo, a partir do ano de 2019, a FUNAI não exerce mais todas as atribuições destinadas a ela. O órgão, no atual governo, passou a ser subordinado ao Ministério da Agricultura, principalmente em relação à demarcação de Terras indígenas quanto à conservação do meio ambiente e ao Ministério da Justiça. Tal conduta enfraquece o órgão diante das demandas da população indígena. E, consequentemente, os direitos conquistados pelos povos indígenas ficam visivelmente ameaçados, uma vez que para os povos nativos, o progresso está na preservação da cultura e do meio ambiente. Por isso, os indígenas têm sido reconhecidos como povos da megadiversidade. Enquanto que para os governantes, o crescimento do país está na sua “biotecnologia, atividades agrícolas, pecuárias,

pesqueiras e florestais, que são estimados em trilhões de dólares anuais.” (CUNHA, 2019, p. 39).

Diante da conjuntura política do país, certamente novos projetos de empresas privadas irão surgir e se fortalecer e os povos indígenas com suas conquistas ficarão ameaçados, porque os governos visam ao lucro, ao capital. Essas mudanças já têm repercutido negativamente na educação e no meio ambiente, gerando uma crise nacional.

Vale mencionar ainda, o Decreto Presidencial 5.501, de 19 de abril de 2004, que promulga a Convenção nº 169, sobre os Povos Indígenas e Tribais, da Organização Internacional do Trabalho (OIT). É também um documento decorrente de várias lutas dos povos indígenas por condições de igualdade.

As convenções desenvolvidas pela OIT foram um marco na história desses povos que lutavam por uma emancipação social quanto aos direitos da terra e de suas condições de trabalho, saúde e educação. Até então eram reféns da colonização e representavam a força de trabalho (OIT, 2011).

Com as convenções, houve fortalecimento de todos os escritos legais sobre os povos indígenas em relação à política geral, à terra, ao contrato e às condições de emprego, às indústrias rurais, à seguridade social e à saúde, à educação e ao meio de comunicação, aos contatos e à cooperação por meio de fronteiras e de administração. O documento zela pelo gozo pleno dos direitos humanos e liberdade fundamental sem dificuldade e discriminação. Atualmente, reconhecidos e protegidos quanto aos seus valores e práticas culturais, sociais, religiosas e espirituais dos povos indígenas. Estes devem ser consultados diante de qualquer mudança ou implementação de uma medida legislativa ou administrativa que poderá afetá-los. E se não cumpridos, devem ser questionados, de modo que se exija dos órgãos responsáveis o cumprimento do previsto em lei e que no mínimo os recursos financeiros destinados a tal implemento sejam de fato utilizados conforme a destinação apresentada nos documentos legais diante das diversas lutas dos povos indígenas por condições de igualdade.

Quanto à Educação, fica previsto o direito de igualdade de acesso a todos os níveis de ensino, em condições de igualdade com a comunidade nacional, atendendo às particularidades e à história dos povos indígenas. O governo deverá assumir a responsabilidade de criar instituições e sistemas de educação para atender a esse

público. Além da preservação da língua materna, os indígenas deverão ter oportunidade para dominar a língua nacional ou oficial do país de origem (OIT, 2011).

Em 2009, a Comissão Nacional de Política Indigenista apresentou uma nova versão do Estatuto dos Povos Indígenas, que regulamenta as situações jurídicas de maneira mais clara, de suas comunidades e de seus povos quanto à proteção e respeito à organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, bem como sobre os direitos de terras que ocupam e todos os seus bens (BRASIL, 2009b).

No que tange à Educação Escolar Indígena, o estatuto destaca a implementação do ensino por meio do sistema nacional de educação destinado aos povos indígenas, determinado nos termos da lei, assegurando princípios igualmente apontados anteriormente nos outros documentos. Reafirma a colaboração e responsabilidade da União, Estados e Municípios quanto à oferta, custeio e manutenção dos projetos educacionais em todos os níveis e modalidades, inclusive de pós-graduação, atendendo às necessidades de formação intercultural. Essas ações devem ser coordenadas por um Conselho Nacional de Educação Escolar Indígena. Além disso, o documento aludido especifica, como um dos objetivos para os programas de Educação Escolar Indígena, a responsabilidade de: “Desenvolver currículos, programas e processo de avaliação de aprendizagem e materiais pedagógicos e calendários escolares diferenciados e adequados às diversas comunidades indígenas” (BRASIL, 2009b, p. 46).

Diante desses aparatos legais, tanto os estabelecidos pelas entidades federativas e estaduais quanto pelos outros órgãos como a FUNAI e comissões cujos membros são representantes das comunidades indígenas do Brasil, percebe-se uma elaboração de ações que visam garantir legalmente um bem comum: políticas de promoção e proteção dos direitos dos povos indígenas; bem como para uma educação escolar indígena intercultural.

É importante ainda destacar que a coordenação nacional das políticas de Educação Escolar Indígena é de responsabilidade do MEC, competindo aos Estados e Municípios a realização para o cumprimento dos direitos dos povos indígenas. E nesse contexto, cabe à FUNAI atuar na qualificação dessas políticas, juntamente com os povos indígenas. Desse modo, o órgão tem a responsabilidade de monitorar o funcionamento, bem como os impactos quanto à realização e implementação de projetos educacionais a esses povos.

161

150

pesqueiras e florestais, que são estimados em trilhões de dólares anuais.” (CUNHA, 2019, p. 39).

Diante da conjuntura política do país, certamente novos projetos de empresas privadas irão surgir e se fortalecer e os povos indígenas com suas conquistas ficarão ameaçados, porque os governos visam ao lucro, ao capital. Essas mudanças já têm repercutido negativamente na educação e no meio ambiente, gerando uma crise nacional.

Vale mencionar ainda, o Decreto Presidencial 5.501, de 19 de abril de 2004, que promulga a Convenção nº 169, sobre os Povos Indígenas e Tribais, da Organização Internacional do Trabalho (OIT). É também um documento decorrente de várias lutas dos povos indígenas por condições de igualdade.

As convenções desenvolvidas pela OIT foram um marco na história desses povos que lutavam por uma emancipação social quanto aos direitos da terra e de suas condições de trabalho, saúde e educação. Até então eram reféns da colonização e representavam a força de trabalho (OIT, 2011).

Com as convenções, houve fortalecimento de todos os escritos legais sobre os povos indígenas em relação à política geral, à terra, ao contrato e às condições de emprego, às indústrias rurais, à seguridade social e à saúde, à educação e ao meio de comunicação, aos contatos e à cooperação por meio de fronteiras e de administração. O documento zela pelo gozo pleno dos direitos humanos e liberdade fundamental sem dificuldade e discriminação. Atualmente, reconhecidos e protegidos quanto aos seus valores e práticas culturais, sociais, religiosas e espirituais dos povos indígenas. Estes devem ser consultados diante de qualquer mudança ou implementação de uma medida legislativa ou administrativa que poderá afetá-los. E se não cumpridos, devem ser questionados, de modo que se exija dos órgãos responsáveis o cumprimento do previsto em lei e que no mínimo os recursos financeiros destinados a tal implemento sejam de fato utilizados conforme a destinação apresentada nos documentos legais diante das diversas lutas dos povos indígenas por condições de igualdade.

Quanto à Educação, fica previsto o direito de igualdade de acesso a todos os níveis de ensino, em condições de igualdade com a comunidade nacional, atendendo às particularidades e à história dos povos indígenas. O governo deverá assumir a responsabilidade de criar instituições e sistemas de educação para atender a esse

151

público. Além da preservação da língua materna, os indígenas deverão ter oportunidade para dominar a língua nacional ou oficial do país de origem (OIT, 2011).

Em 2009, a Comissão Nacional de Política Indigenista apresentou uma nova versão do Estatuto dos Povos Indígenas, que regulamenta as situações jurídicas de maneira mais clara, de suas comunidades e de seus povos quanto à proteção e respeito à organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, bem como sobre os direitos de terras que ocupam e todos os seus bens (BRASIL, 2009b).

No que tange à Educação Escolar Indígena, o estatuto destaca a implementação do ensino por meio do sistema nacional de educação destinado aos povos indígenas, determinado nos termos da lei, assegurando princípios igualmente apontados anteriormente nos outros documentos. Reafirma a colaboração e responsabilidade da União, Estados e Municípios quanto à oferta, custeio e manutenção dos projetos educacionais em todos os níveis e modalidades, inclusive de pós-graduação, atendendo às necessidades de formação intercultural. Essas ações devem ser coordenadas por um Conselho Nacional de Educação Escolar Indígena. Além disso, o documento aludido especifica, como um dos objetivos para os programas de Educação Escolar Indígena, a responsabilidade de: “Desenvolver currículos, programas e processo de avaliação de aprendizagem e materiais pedagógicos e calendários escolares diferenciados e adequados às diversas comunidades indígenas” (BRASIL, 2009b, p. 46).

Diante desses aparatos legais, tanto os estabelecidos pelas entidades federativas e estaduais quanto pelos outros órgãos como a FUNAI e comissões cujos membros são representantes das comunidades indígenas do Brasil, percebe-se uma elaboração de ações que visam garantir legalmente um bem comum: políticas de promoção e proteção dos direitos dos povos indígenas; bem como para uma educação escolar indígena intercultural.

É importante ainda destacar que a coordenação nacional das políticas de Educação Escolar Indígena é de responsabilidade do MEC, competindo aos Estados e Municípios a realização para o cumprimento dos direitos dos povos indígenas. E nesse contexto, cabe à FUNAI atuar na qualificação dessas políticas, juntamente com os povos indígenas. Desse modo, o órgão tem a responsabilidade de monitorar o funcionamento, bem como os impactos quanto à realização e implementação de projetos educacionais a esses povos.

Porém, algumas mudanças atuais no governo federal indicam enfraquecimento e perda de autonomia da FUNAI quanto às questões indígenas. Desde o início de 2019, mudanças vêm ocorrendo quanto às atribuições da FUNAI, definidas desde sua criação. Por meio da MEDIDA PROVISÓRIA Nº 870, DE 1º DE JANEIRO DE 2019, pelo no Art. 21, inciso XIV, foi designado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento a incumbência da reforma agrária quanto à regularização fundiária de áreas rurais, Amazônia Legal, terras indígenas e quilombolas. Ou seja, a partir desse ano, a responsabilidade de identificar, delimitar e demarcar as terras indígenas não é mais da FUNAI. E no art. Art. 43, inciso I, institui ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos às políticas e diretrizes destinadas à promoção dos direitos humanos, incluindo no item “i”: “direitos do índio, inclusive no acompanhamento das ações de saúde desenvolvidas em prol das comunidades indígenas, sem prejuízo das competências do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.” (BRASIL, 2019, s/p).

Tais conquistas, ao longo da história, representam um avanço teórico e legal quanto um declínio em outros momentos, porque na prática pouco se efetivou, como discutiremos a seguir a partir da perspectiva dos indígenas.